CRÔNICA DA VIAGEM À FOZ DO RIO GRANDE
(Esta é a primeira postagem. Na sequência, outras oito postagens, uma para cada dia)
Prezada(o) leitor(a),
Um aviso: não vi nada extraordinário. Antes que você insista até o longínquo final e depois venha me acusar de sem-graça, informo-lhe que não encontrei nenhuma alma penada, não vi nenhuma assombração, não recebi nenhuma revelação do além, nenhum disco voador, nenhum fenômeno natural digno de espanto. E olha que passei nuns grotões medonhos em horas de pouca luz onde, certamente, o sobrenatural se manifesta, sem contar os inúmeros cemitérios em que passei na frente. Vi quase nenhuma floresta, mas vi árvores imensas e águas sem fim e vi nascentes e poentes do sol muito lindos e também a lua cheia: nada despertou em mim qualquer abalo místico que pudesse narrar aqui para contagiar você. Talvez tenha visto algo sublime para mim, um canteiro de cebolinha verde num barranco da estrada, perto de Indiaporã, ao lado de um barraco de lona plástica preta. Mas reconheço que é algo ordinário demais para impressionar sua sensibilidade. Recomendo-lhe que, antes de continuar, vá ao mapa, encontre o Rio Grande ali no norte do estado de São Paulo; do outro lado do rio é o estado de Minas Gerais. É o meu universo, nesta longa crônica de viagem. Ora de um lado do rio, ora do outro, passei por 22 cidades e 6 povoados com minha bicicleta, percorrendo 750 Km, sendo 200 deles em estradas de terra. Enfim, não fui atacado por qualquer animal feroz - os cachorros não contam -, não sofri qualquer violência, não encontrei nenhum guru, nenhum artista em potencial; não fiz nenhum novo amigo. Nenhum arranhão, nenhum tombo, sequer um furinho no pneu da bicicleta. Está avisado(a). Daqui para a frente, a responsabilidade é sua.
A rigor, a foz do Rio Grande é no Oceano Atlântico, lá ao lado de Buenos Aires, Argentina, no chamado Rio da Prata. Mas eu fui somente até ali em Aparecida do Taboado, começo do Mato Grosso do Sul, onde o Rio Grande se encontra com o Rio Paranaíba para formar o grande Rio Paraná.
Tecnicamente, a foz de um rio é o local em que suas águas desaguam num rio maior, ou num lago, ou no mar. A foz do Rio Grande seria, realmente, ali entre Santa Clara d’Oeste, município do lado paulista, e Aparecida do Taboado, município do lado de Mato Grosso do Sul, caso o outro rio, o Paranaíba, fosse maior, fosse o rio principal.
É até possível que o Paranaíba seja maior que o Grande, porém nunca se pôde chegar a essa conclusão no olhômetro, dado que os dois grandes rios possuem vazões semelhantes no encontro. O Paranaíba é superior ao Grande no critério distância da nascente e no tamanho da bacia hidrográfica que drena. Sua nascente não é aquela que consta nos mapas – mais próxima que a do Rio Grande -, mas a do Rio Pipiripau, a nordeste de Brasília DF, ou a do Rio Corumbá, no pé da Serra dos Pireneus, fundão de Goiás.
Essa dúvida poderia ser facilmente esclarecida, pelos critérios do IBGE, caso o local da junção dos dois rios não tivesse sido inundado pelo lago formado pela barragem da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, mais abaixo. É que o IBGE mede a profundidade do meio dos rios que se encontram. Aquele que for mais fundo é o principal. Esse local mais fundo no meio dos rios é chamado de talvegue, pelos técnicos. É aquele ponto no fundo do vale em que as encostas se encontram. Agora, com as águas paradas, é provável que o acúmulo de sedimentos tenha igualado o fundo de ambos os rios.
A propósito, adiciono aqui a informação de que também a nascente do Rio São Francisco não é aquela que consta nos mapas, mas a do Rio Samburá, no município de Medeiros, MG, segundo os técnicos da CODEVASF, Anais XI SBSR, Belo Horizonte, Brasil, 05-120 abril 2003 p. 393-400. Dessas polêmicas e descobertas surgiram as expressões nascente histórica – que consta nos mapas – e nascente geográfica – ou real, segundo os critérios técnicos.
Alguém poderia sugerir como título do meu relato Viagem à nascente do Rio Paraná, um rio maior, mais conhecido, um rio internacional, além do termo “nascente” ter um apelo turístico mais forte que o termo “foz”, suponho. Mas não estaria correto, pelos critérios de determinação da nascente, acima expostos. O grande Rio Paraná nasce, ou nos fundões de Goiás, ou no alto do Mirantão, Serra da Mantiqueira. O Rio Paraná nada mais é que a continuação do rio principal entre os dois que se encontram ali perto de Rubinéa, SP, com outro nome. Coisa tão difícil de se saber ainda quando a mata virgem envolvia os leitos livres e intocados de ambos que o descobridor preferiu dar um novo nome ao curso resultante. Se bem que há relatos de que, nos primeiros tempos, o grande rio formado pela junção do Paranaíba e Grande era chamado de Rio Grande-Paraná...
Portanto, minha viagem poderia ser melhor definida com o seguinte nome: Viagem ao encontro entre os rios Grande e Paranaíba. Mas optei por manter a inapropriada expressão “foz do Rio Grande” para se opor ao “nascente do Rio Grande” da minha viagem do ano passado. Ano passado, fiz viagem semelhante ao longo do Rio Grande, começando do mesmo ponto – Franca –SP, porém rio acima, em direção à nascente.
De fato, em 18 de julho de 2016, embarquei num ônibus da Cometa no Terminal Rodoviário Tietê, às 7h e desembarquei em Franca, SP, às 12h30. Em maio de 2015 eu fizera a mesma coisa, com uma importante diferença: dessa vez, ao invés da mochila cargueira de andarilho, eu levava no bagageiro do ônibus a minha bicicleta. E se naquela eu subi o rio até sua nascente, dessa vez eu o desceria até seu encontro com o Paranaíba.
O ponto escolhido do rio, ano passado, para começar a subir, foi aquele em que suas águas começam a dividir os territórios dos estados de SP e MG. Eu iria caminhar rio acima, portanto, somente no trecho em que o rio corre exclusivamente em território mineiro. Neste ano, eu deveria começar do mesmo ponto, porém pedalando no sentido contrário, a maior parte em território paulista e apenas parte da viagem em território mineiro.
Antes, preciso agradecer à natureza, pela saúde, e às injunções sociais e algum acaso, pelo dinheiro, sem os quais eu não teria uma viagem confortável e sem sobressaltos. Ainda, à natureza, por algum parafuso a menos na cabeça - de nascença - sem o qual ela funciona mais solta, livre para me meter nessas laudatórias roubadas... mas tudo bem planejado, bem informado, até onde esses projetos alternativos permitem. Sendo que aquele corpo saudável é deveras perecível e, quero dizer, não é de ferro... gosta de chuveiro quente (de preferência com ducha e aquecimento central...), gosta de colchão macio, lençóis limpos, cobertor, travesseiro, toalhas cheirosas, café da manhã com ovos mexidos e muitas frutas, luz elétrica, tomada para carregar o celular, vaso sanitário, ventilador para secar a roupa, lavatório para escovar os dentes... Portanto, a viagem sequer teria acontecido - e os assuntos continuariam adormecidos -, menos ainda segura, sem esse intelecto cheio de furos não preenchidos e, por isso, instável, inquieto. Pelo corpo, eu teria ido a uma agência de viagens e pagado aos profissionais para pensarem e planejarem tudo, comprarem passagens, reservarem hotéis, contratarem guias locais que me conduziriam são e salvo aos lugares mais vistosos... Pelo corpo eu não deixaria por menos: hotéis no mínimo 4 estrelas, viagens de avião e, Europa, que meu corpo é eurocentrista; até minhas refeições seriam previamente planejadas e pagas... Contudo, se é o corpo que vai, é a alma que leva. E toda alma carece de motivo. E minha alma não se abala - quero dizer, não abala meu corpo - por causa do papa, do Vaticano, dos museus de Paris, das pirâmides do Egito, das muralhas da China, do Tâmisa, das colinas de Jericó, das lojas de Miami... Minha alma é excessivamente elitista: ela pensa em caminhadas e pedaladas solitárias, sem roteiros prévios, por vilas perdidas nos cafundós, de paisagens nunca registradas em cartões postais, das quais não adianta se gabar de ter visitado, porque não vai despertar a inveja de nenhum outro turista: meu corpo sofre. E, considerando que não sei produzir bons vídeos para contar a história, peço às musas especialistas que me indiquem uma prima, talvez, especialista em geografia, sociologia ou sintaxe, para me acompanhar e me inspirar a encontrar e alinhavar bem as palavras e, assim, narrar fielmente o que vi, vivi e senti.
Mas, afinal, qual era a minha? Por que entrar e passear por aquelas cidadezinhas minúsculas, das quais ninguém ouviu falar a 100 Km de distância? Por que abordar de maneira tão vagarosa e por dentro, na praça quase sempre única, aquelas localidades tão banais? E por que de bicicleta? Não seria mais eficaz e seguro, e menos cansativo, ir de carro? Tento responder de trás pra frente: você vai de elevador, de escada rolante, de carro, de ônibus - em S.Paulo tem gente que pega o ônibus num ponto e desce no ponto seguinte, a 400 metros de distância - para evitar cansaço e, ao fim de tudo, acaba cansado de carregar a própria pança. Aos 37 anos de idade eu descobri um pote de ouro no final do arco-iris e desde então não largo esse pote: faço atividade física intensa quase todo dia, faça chuva, faça sol, faça férias... Porque não dá para pagarmos para alguém levar a nossa pança e todas as banhas que se vão acumulando e nos soterrando. Sendo que a velocidade da viagem faz toda a diferença: o olhar é vagaroso e carece de tempo para entender; a 100 Km/h a gente vê tudo e não entende nada. E essas cidadezinhas insignificantes são ignoradas pelos próprios vizinhos. Eu sou a prova disso: nasci e cresci ali naquele mundo e não conhecia nada daquilo; nem a monumental ponte sobre o Paraná eu conhecia, tendo vivido tanto tempo a 100 Km de distância. Enfim, eu queria mostrar o meu mundo a mim mesmo e aos meus conterrâneos. Suar e respirar e ver a própria gente que me pariu, sem nenhum vidro fumê no meio, sem nenhuma proteção contra o vento e a poeira e o povo dos lugares. E, se possível, transmitir tal visão aos meus amigos e familiares e conterrâneos em geral, com a eloquência do suor escorrendo sobre a pele suja do pó formador.
Em Franca, almocei e, por volta das 13h30 comecei a pedalar em direção à Vila do Estreito, a 57 Km de distância. Na garupa, seis quilos de bagagem, incluindo barraca, saco de dormir e isolante térmico: o tronco, vestido com camisetas de cores estridentes, livre para suar e ser visto pelos motoristas. A bicicleta, simples, de 21 marchas, dessas urbanas de pneus finos e aros grandes, que comprei numa oferta por 900 reais há um ano. Um litro e meio de água em garrafinhas. A Vila do Estreito, construída para abrigar os funcionários da Hidrelétrica do Estreito, está no território do município de Pedregulho, SP e era dali que começaria a descer o rio.
Rodovia em obras, passei por Cristais Paulista, SP, subi e desci uma pequena serra. Antes, devo registrar que a saída de Franca foi por estrada de terra de alguns quilômetros. A temperatura estava amena, a região é alta, está em média a 1000 metros de altitude em relação ao nível do mar. A vila do Estreito é região de segurança nacional, por causa da hidrelétrica. Para entrar, somente com a autorização de um morador local. No meu caso, o morador local que me autorizou foi escolhido pelo próprio porteiro: o dono do hotel... eu ainda enfrentaria outras ordens ridículas na viagem.
terça-feira, 23 de agosto de 2016
SEGUNDO DIA: VILA DO ESTREITO A IGARAPAVA
SEGUNDO DIA: VILA DO ESTREITO – RIFAINA – IGARAPAVA.
Quando de longe vi que a estradinha de terra ia dar na porteira do quintal da fazenda, me preocupei. Mas não era o fim da linha. Havia outra porteira do outro lado e a estrada continuava. A curralama e os galpões com tratores e implementos agrícolas dum lado, a casa do outro, e os cachorros a guardar tudo; abri a porteira, entrei no quintal, passei, abri a outra porteira – tudo isso sob o bombardeio dos cachorros – e ninguém apareceu sequer na janela, mas a casa não estava abandonada; havia gente nela; talvez fosse um pouco cedo ainda...às 7h duma 3ªf braba. A estradinha continuava sem nenhum sinal de veículo de rodas; só cascos de gado e areia, nos dois trilhos formados por rodas que supostamente teriam passado ali em remotas eras... Mais à frente uma casa abandonada, ao lado de um matinho, o caminho cada vez mais selvagem e, ufa, um laranjal! Um laranjal sempre parece mais civilizado que um pasto de gado, ao viajante inseguro. Porém, para entrar nesse laranjal, havia uma porteira presa por uma corrente e um cadeado.
A porteira ainda estava sob o arvoredo que se prolongava do quintal abandonado e a casa, que, não fosse sete horas da manhã, seria mal assombrada... Consultei o GPS do Google em meu celular e a rota indicada era aquela mesma. Logo deduzi se tratar de uma servidão pública em desuso, que os donos do laranjal acharam por bem privatizar por conta própria, dado o praticamente inexistente uso atual. Minha bicicleta pesava uns 20 Kg – ela e a bagagem presa na garupa – nada que não pudesse pular a cerca de arame ao lado, mais baixa do que eu. Foi o que fiz. Atravessei o laranjal por um carreador arenoso de cerca de um quilômetro; nenhuma laranja, nem pra remédio. Ao final do pomar me aguardava, formando um tê, a batida estrada prevista em meu roteiro. Só que, me prendendo do lado de dentro, outra porteira e outro cadeado. Sendo que a porteira era bem alta e a cerca viva ao lado não deixava opção de transpor a bicicleta por cima do arame. Estava eu tentando resolver o dilema quando passou na estrada um carro cujo motorista, me vendo ali dentro, parou um pouco adiante e retrocedeu:
- O que o senhor tá fazendo aí dentro?
A pergunta foi em tom incisivo e, dados os outros elementos da cena, percebi que eu estava cometendo mais que um delito; um sacrilégio. Ou uma profanação. Estava profanando o território sagrado da Dreyfus. “A Louis Dreyfus é parte do quarteto de traders "ABCD" que domina a comercialização agrícola global, junto com Archer Daniels Midland, Bunge e Cargill” foi o que encontrei em pesquisa rápida na internet. Eu estava dentro de uma proibidíssima fazenda da Dreyfus, segundo me informou o funcionário no carro. Que era da Dreyfus ele não disse, eu vi pelo carro, identificado com o nome. Esses funcionários - nossos conterrâneos – dessas multinacionais com usinas e fazendas por esses fundões do nosso território são bem insolentes, pra não dizer autoritários, mais ousados – porém mais inocentes – que os antigos capatazes das antigas fazendas dos nossos patrícios coronéis. Em geral mais jovens, com alguma escolaridade, e ainda deslumbrados com o salário três vezes maior que o de seus amigos que não tiveram a mesma sorte, são mais afoitos porque mais inocentes. Não têm noção da violência latente do grande capital sem pátria sobre a terra e a gente local.
- Estou querendo sair, respondi.
- Como o senhor entrou aí? Ele me perguntou.
- Entrei pelo outro lado, estou vindo de Estreito.
Nessa hora percebi o nó mental na cabeça do rapaz.
- Mas trabalho aqui há 8 anos e nunca vi isso!
- Segundo o mapa, estou numa servidão pública...
- Num tá não. Aí é particular, da fazenda!
- Aí precisamos esclarecer quem tá certo: eu ou você. O mapa diz que é local de passagem.
- Num é não! O senhor precisa sair daí!
- Se você abrir esse cadeado eu saio.
- Num tenho a chave.
Ele ficou menos tenso quando percebeu que eu queria sair. Se eu quisesse atravessar de volta o pomar, como se estivesse entrando, acho que ele me tiraria no braço. Desceu do carro e segurou a bicicleta que eu lhe passei por cima da alta porteira. Nos despedimos amistosamente e eu segui pela batida e poeirenta estrada pública. Ainda. Porque a tendência é esses fundos transnacionais de capital comprar toda a terra e abolir todos os vizinhos. E estradas vicinais só têm sentido quando há vizinhos... Aí nós, que gostamos de ir por dentro, pelos caminhos locais, submetendo-nos às incertezas de cruzamentos e ramificações diversos e não identificados, caminhando com nossas mochilas ou pedalando, estaremos também desalojados de nosso território.
Antes de Rifaina há 7Km de vicinal asfaltada; até então foram 25Km em terra. Nesse trecho asfaltado, de repente, trilhos de ferro, perpendiculares à via, do lado direito, entravam num seringal: um curto trecho de via férrea antiga; sem nenhuma explicação. Nenhum sinal do outro lado, onde os trilhos deveriam seguir: apenas a quissassa do pasto abandonado. Trilhos tão sólidos, dormentes tão sólidos, pedriscos tão sólidos, uma mini ferrovia abandonada a céu aberto, ela, seu trajeto alhures, sua história.
Em Rifaina cheguei na hora do almoço. O self-service à beira da prainha na represa formada pela barragem da usina hidrelétrica de Jaguara servia um peixe gostoso: peixe de mar, me informou a mocinha do serviço. Não do mar de água doce ali em frente. Do mar oceano, tão distante, tão fora de contexto... Mas os barcos e as inúmeras garagens de barcos e os tratores de barcos lembravam bem certas praias de Ubatuba, SP; assim como o bem cuidado calçadão da prainha lembrava os calçadões de inúmeras de nossas cidadezinhas costeiras. Acho que os ricos de Franca, SP, gostam de passar os finais-de-semana ali, em seus iates.
Entre Rifaina e Igarapava foram 47Km de rodovia asfaltada, mas sem acostamento. A estrada margeia ao longe as águas paradas do Rio Grande. Antes de seguir viagem, fui e voltei na ponte que atravessa o rio, pisando pela primeira vez em terras mineiras. Não demorou e eis uma placa inusitada: indicava o nome de uma fazenda, o nome de seu proprietário e ao lado, na mesma placa, sem maiores explicações, a cruz gamada conhecida como suástica. Fiquei assustado, tive medo até de fotografar – pensei num comando especial, remanescente da 2ª Guerra Mundial, que saísse da sede da fazenda lá embaixo, a 800 metros, em minha perseguição, quando me visse fotografando o símbolo da propaganda inadmissível -, mas, apesar do medo, fotografei a placa. Quando cheguei em casa pesquisei e vi que se tratava de uma suástica invertida, que não tem nada a ver com o símbolo nazista. Como se sabe, o símbolo nazista está proscrito entre nós. Sei lá, essa explicação não me convenceu, ainda estou intrigado.
A inexistência de acostamentos na faixa asfáltica exige mais atenção. Eu ia na faixa da esquerda, na contramão; quando apontava ao longe um veículo, eu dava uma rápida olhada para trás e, se não viesse ninguém, saía para a direita. O pouco movimento de veículos permitia tal manobra. É um trecho de subidas e descidas muito longas; as descidas fazemos em alta velocidade, rapidamente; isso quer dizer que a maior parte do tempo ficamos nas desgastantes subidas; em comparação com as altas velocidades das descidas, temos a impressão de que vamos lentos demais; enquanto isso, o batimento cardíaco vai lá em cima; em poucas horas estamos exaustos. É por isso que viajar de bicicleta é mais desgastante, fisicamente, que viajar a pé. Faltando uns 10 Km para Igarapava, ali pelas 3 horas da tarde, finalmente um pomar de laranja - porque até então só cana ou pasto de boi. Cerca viva espinhenta e uma porteira com cadeado. Olhei entre as tábuas, nenhuma laranja à vista, pomar recentemente colhido. Contudo, especialista que sou, sei que sempre é possível encontrar alguma escondida. Pulei a porteira e quase quebrei a cara, porque deu trabalho para encontrar três laranjinhas mirradas, após percorrer uns 500 pés de laranja. Sentei na beira da estrada para tomar o café da tarde, quer dizer, chupar as três laranjinhas. Daí a pouco saiu uma moçona lá da porteira, numa moto, e passou por mim devagar, me olhando com escárnio, como se me dissesse que sou morto de fome. Funcionária da fazenda do laranjal. De fato, estava carecendo de sustanças; tanto que cheguei em Igarapava quase desidratado, apesar de não ter passado sede. Aí foi água de coco, coca cola, suco de laranja - nada chegava -, no copo, no canudinho, sem ter de pular porteira, tudo mediante a força da grana.
Em Igarapava eu tinha um problema sério pra resolver: substituir a minha calça rasgada. Minha velha e querida calça barata, de tecido sintético, comprada nas Casas Pernambucanas e usada em 2004, em minha viagem a pé de São Paulo a Fernandópolis. Rasgara nos primeiros quilômetros de pedalada, ao levantar a perna para montar na bicicleta. Por baixo havia uma bermuda de ciclismo, mas eu me negava a adotar o uniforme clássico dos ciclistas urbanos: nada de capacete, nada de roupas justas. Creio que a população em geral acha antipático o uniforme clássico de ciclista e evito ao máximo, em minhas viagens, provocar antipatias. Mas aquela calça era a única e eu não aceitava outra que não fosse de material semelhante: porque são leves, secam rápido, não acumulam suor, são fáceis de lavar. E eu acreditava que naquelas cidadezinhas sequer havia aquele tipo de calça pra vender. Mas em Igarapava, de 28 mil habitantes, a maior porque passei, havia a possibilidade... O moço da água de coco não soube informar mas daí a pouco chegou sua mulher que me indicou uma loja, a Tend Tudo. E tinha. Só que curta, tamanho único, sem opção de escolha. Fazer o quê?
Na cidade só encontrei um lugar para jantar, uma porta comum numa esquina, parecendo boteco, com balcão e mesas na frente, chamado Bar Imperial: um desses bares e restaurantes muito comuns em São Paulo, com toalhas de algodão coloridas sobre as mesas e garçom amigo de bigodinho fino. Já era uma grande coisa, porque nessas cidadezinhas é fácil encontrar almoço, mas difícil encontrar jantar. E os hotéis simples normalmente não servem comida além do café da manhã. Em Guaraci só jantei graças à boa vontade da cozinheira, conforme conto mais adiante. Em Riolândia - domingo - quase nem almoço consegui; em Cardoso, o restaurante estava com as portas fechadas, mas aberto... quer dizer, o vigia estava lá dentro sozinho e disse que eu podia entrar e me servir direto nas panelas. Em Mesópolis, não havia nem hotel, que dirá restaurante. E coisa boa é um prato comercial depois de um dia de muita força, de muito suor, de muito gasto: uma travessinha de feijão, outra de arroz, outra de batatas fritas, um bife acebolado, duas folhas de alface, três rodelas de tomate. Se quiser ser perfeito, basta acrescentar um legume cozido... Servem pra sobrar. Mas no meu caso nunca sobrava nada. Sendo que, para aumentar ainda mais o apetite, o garçom do bigodinho fino era realmente gente boa e me serviu, como aperitivo, uma cachaça da terra que estava numa garrafa de cocacola, de um engenho que ele conhecia e garantia desde criança.
No Hotel Sílvio dormimos juntos novamente, como na primeira noite, no hotel em Estreito. Pensei que era a praxe, que seria assim a viagem inteira, mas pensei errado. Daí em diante a coitada ficava no quintal ou no estacionamento, ao relento, ou trancada num quartinho. O porteiro do hotel em Estreito não teve outra alternativa senão autorizar que a levasse ao quarto comigo, diante do meu questionamento sobre a segurança de deixá-la no saguão: é que durante a noite eu ficaria sozinho no hotel, ele já tinha me avisado, ia embora às 22h e só voltava no dia seguinte, eu ficava com a chave. Estou falando da bicicleta. Parece engraçada essa conotação quase sexual entre mim e a máquina, mas é sério. Não comigo, mas com alguns ciclistas que conheço. Eu já tive ciumes da minha bicicleta, mas não dessa: daquela que eu tive aos 14 anos de idade, com quem eu ia e vinha da escola. Só meu pai podia usá-la, sem que meu coração ficasse apertado. Ao contrário, ficava feliz quando o via dar uma voltinha, ele parecia mais jovem. Não sei se consegui me libertar totalmente dessa praga emocional que é a mancebia entre homem e máquina, entre homem e objeto. Tem gente que tem ciúme do carro, não o empresta, não deixa ninguém dirigi-lo; muitos não emprestam o alicate, a furadeira. Enfim, com a minha bicicleta sou liberal...
Quando de longe vi que a estradinha de terra ia dar na porteira do quintal da fazenda, me preocupei. Mas não era o fim da linha. Havia outra porteira do outro lado e a estrada continuava. A curralama e os galpões com tratores e implementos agrícolas dum lado, a casa do outro, e os cachorros a guardar tudo; abri a porteira, entrei no quintal, passei, abri a outra porteira – tudo isso sob o bombardeio dos cachorros – e ninguém apareceu sequer na janela, mas a casa não estava abandonada; havia gente nela; talvez fosse um pouco cedo ainda...às 7h duma 3ªf braba. A estradinha continuava sem nenhum sinal de veículo de rodas; só cascos de gado e areia, nos dois trilhos formados por rodas que supostamente teriam passado ali em remotas eras... Mais à frente uma casa abandonada, ao lado de um matinho, o caminho cada vez mais selvagem e, ufa, um laranjal! Um laranjal sempre parece mais civilizado que um pasto de gado, ao viajante inseguro. Porém, para entrar nesse laranjal, havia uma porteira presa por uma corrente e um cadeado.
A porteira ainda estava sob o arvoredo que se prolongava do quintal abandonado e a casa, que, não fosse sete horas da manhã, seria mal assombrada... Consultei o GPS do Google em meu celular e a rota indicada era aquela mesma. Logo deduzi se tratar de uma servidão pública em desuso, que os donos do laranjal acharam por bem privatizar por conta própria, dado o praticamente inexistente uso atual. Minha bicicleta pesava uns 20 Kg – ela e a bagagem presa na garupa – nada que não pudesse pular a cerca de arame ao lado, mais baixa do que eu. Foi o que fiz. Atravessei o laranjal por um carreador arenoso de cerca de um quilômetro; nenhuma laranja, nem pra remédio. Ao final do pomar me aguardava, formando um tê, a batida estrada prevista em meu roteiro. Só que, me prendendo do lado de dentro, outra porteira e outro cadeado. Sendo que a porteira era bem alta e a cerca viva ao lado não deixava opção de transpor a bicicleta por cima do arame. Estava eu tentando resolver o dilema quando passou na estrada um carro cujo motorista, me vendo ali dentro, parou um pouco adiante e retrocedeu:
- O que o senhor tá fazendo aí dentro?
A pergunta foi em tom incisivo e, dados os outros elementos da cena, percebi que eu estava cometendo mais que um delito; um sacrilégio. Ou uma profanação. Estava profanando o território sagrado da Dreyfus. “A Louis Dreyfus é parte do quarteto de traders "ABCD" que domina a comercialização agrícola global, junto com Archer Daniels Midland, Bunge e Cargill” foi o que encontrei em pesquisa rápida na internet. Eu estava dentro de uma proibidíssima fazenda da Dreyfus, segundo me informou o funcionário no carro. Que era da Dreyfus ele não disse, eu vi pelo carro, identificado com o nome. Esses funcionários - nossos conterrâneos – dessas multinacionais com usinas e fazendas por esses fundões do nosso território são bem insolentes, pra não dizer autoritários, mais ousados – porém mais inocentes – que os antigos capatazes das antigas fazendas dos nossos patrícios coronéis. Em geral mais jovens, com alguma escolaridade, e ainda deslumbrados com o salário três vezes maior que o de seus amigos que não tiveram a mesma sorte, são mais afoitos porque mais inocentes. Não têm noção da violência latente do grande capital sem pátria sobre a terra e a gente local.
- Estou querendo sair, respondi.
- Como o senhor entrou aí? Ele me perguntou.
- Entrei pelo outro lado, estou vindo de Estreito.
Nessa hora percebi o nó mental na cabeça do rapaz.
- Mas trabalho aqui há 8 anos e nunca vi isso!
- Segundo o mapa, estou numa servidão pública...
- Num tá não. Aí é particular, da fazenda!
- Aí precisamos esclarecer quem tá certo: eu ou você. O mapa diz que é local de passagem.
- Num é não! O senhor precisa sair daí!
- Se você abrir esse cadeado eu saio.
- Num tenho a chave.
Ele ficou menos tenso quando percebeu que eu queria sair. Se eu quisesse atravessar de volta o pomar, como se estivesse entrando, acho que ele me tiraria no braço. Desceu do carro e segurou a bicicleta que eu lhe passei por cima da alta porteira. Nos despedimos amistosamente e eu segui pela batida e poeirenta estrada pública. Ainda. Porque a tendência é esses fundos transnacionais de capital comprar toda a terra e abolir todos os vizinhos. E estradas vicinais só têm sentido quando há vizinhos... Aí nós, que gostamos de ir por dentro, pelos caminhos locais, submetendo-nos às incertezas de cruzamentos e ramificações diversos e não identificados, caminhando com nossas mochilas ou pedalando, estaremos também desalojados de nosso território.
Antes de Rifaina há 7Km de vicinal asfaltada; até então foram 25Km em terra. Nesse trecho asfaltado, de repente, trilhos de ferro, perpendiculares à via, do lado direito, entravam num seringal: um curto trecho de via férrea antiga; sem nenhuma explicação. Nenhum sinal do outro lado, onde os trilhos deveriam seguir: apenas a quissassa do pasto abandonado. Trilhos tão sólidos, dormentes tão sólidos, pedriscos tão sólidos, uma mini ferrovia abandonada a céu aberto, ela, seu trajeto alhures, sua história.
Em Rifaina cheguei na hora do almoço. O self-service à beira da prainha na represa formada pela barragem da usina hidrelétrica de Jaguara servia um peixe gostoso: peixe de mar, me informou a mocinha do serviço. Não do mar de água doce ali em frente. Do mar oceano, tão distante, tão fora de contexto... Mas os barcos e as inúmeras garagens de barcos e os tratores de barcos lembravam bem certas praias de Ubatuba, SP; assim como o bem cuidado calçadão da prainha lembrava os calçadões de inúmeras de nossas cidadezinhas costeiras. Acho que os ricos de Franca, SP, gostam de passar os finais-de-semana ali, em seus iates.
Entre Rifaina e Igarapava foram 47Km de rodovia asfaltada, mas sem acostamento. A estrada margeia ao longe as águas paradas do Rio Grande. Antes de seguir viagem, fui e voltei na ponte que atravessa o rio, pisando pela primeira vez em terras mineiras. Não demorou e eis uma placa inusitada: indicava o nome de uma fazenda, o nome de seu proprietário e ao lado, na mesma placa, sem maiores explicações, a cruz gamada conhecida como suástica. Fiquei assustado, tive medo até de fotografar – pensei num comando especial, remanescente da 2ª Guerra Mundial, que saísse da sede da fazenda lá embaixo, a 800 metros, em minha perseguição, quando me visse fotografando o símbolo da propaganda inadmissível -, mas, apesar do medo, fotografei a placa. Quando cheguei em casa pesquisei e vi que se tratava de uma suástica invertida, que não tem nada a ver com o símbolo nazista. Como se sabe, o símbolo nazista está proscrito entre nós. Sei lá, essa explicação não me convenceu, ainda estou intrigado.
A inexistência de acostamentos na faixa asfáltica exige mais atenção. Eu ia na faixa da esquerda, na contramão; quando apontava ao longe um veículo, eu dava uma rápida olhada para trás e, se não viesse ninguém, saía para a direita. O pouco movimento de veículos permitia tal manobra. É um trecho de subidas e descidas muito longas; as descidas fazemos em alta velocidade, rapidamente; isso quer dizer que a maior parte do tempo ficamos nas desgastantes subidas; em comparação com as altas velocidades das descidas, temos a impressão de que vamos lentos demais; enquanto isso, o batimento cardíaco vai lá em cima; em poucas horas estamos exaustos. É por isso que viajar de bicicleta é mais desgastante, fisicamente, que viajar a pé. Faltando uns 10 Km para Igarapava, ali pelas 3 horas da tarde, finalmente um pomar de laranja - porque até então só cana ou pasto de boi. Cerca viva espinhenta e uma porteira com cadeado. Olhei entre as tábuas, nenhuma laranja à vista, pomar recentemente colhido. Contudo, especialista que sou, sei que sempre é possível encontrar alguma escondida. Pulei a porteira e quase quebrei a cara, porque deu trabalho para encontrar três laranjinhas mirradas, após percorrer uns 500 pés de laranja. Sentei na beira da estrada para tomar o café da tarde, quer dizer, chupar as três laranjinhas. Daí a pouco saiu uma moçona lá da porteira, numa moto, e passou por mim devagar, me olhando com escárnio, como se me dissesse que sou morto de fome. Funcionária da fazenda do laranjal. De fato, estava carecendo de sustanças; tanto que cheguei em Igarapava quase desidratado, apesar de não ter passado sede. Aí foi água de coco, coca cola, suco de laranja - nada chegava -, no copo, no canudinho, sem ter de pular porteira, tudo mediante a força da grana.
Em Igarapava eu tinha um problema sério pra resolver: substituir a minha calça rasgada. Minha velha e querida calça barata, de tecido sintético, comprada nas Casas Pernambucanas e usada em 2004, em minha viagem a pé de São Paulo a Fernandópolis. Rasgara nos primeiros quilômetros de pedalada, ao levantar a perna para montar na bicicleta. Por baixo havia uma bermuda de ciclismo, mas eu me negava a adotar o uniforme clássico dos ciclistas urbanos: nada de capacete, nada de roupas justas. Creio que a população em geral acha antipático o uniforme clássico de ciclista e evito ao máximo, em minhas viagens, provocar antipatias. Mas aquela calça era a única e eu não aceitava outra que não fosse de material semelhante: porque são leves, secam rápido, não acumulam suor, são fáceis de lavar. E eu acreditava que naquelas cidadezinhas sequer havia aquele tipo de calça pra vender. Mas em Igarapava, de 28 mil habitantes, a maior porque passei, havia a possibilidade... O moço da água de coco não soube informar mas daí a pouco chegou sua mulher que me indicou uma loja, a Tend Tudo. E tinha. Só que curta, tamanho único, sem opção de escolha. Fazer o quê?
Na cidade só encontrei um lugar para jantar, uma porta comum numa esquina, parecendo boteco, com balcão e mesas na frente, chamado Bar Imperial: um desses bares e restaurantes muito comuns em São Paulo, com toalhas de algodão coloridas sobre as mesas e garçom amigo de bigodinho fino. Já era uma grande coisa, porque nessas cidadezinhas é fácil encontrar almoço, mas difícil encontrar jantar. E os hotéis simples normalmente não servem comida além do café da manhã. Em Guaraci só jantei graças à boa vontade da cozinheira, conforme conto mais adiante. Em Riolândia - domingo - quase nem almoço consegui; em Cardoso, o restaurante estava com as portas fechadas, mas aberto... quer dizer, o vigia estava lá dentro sozinho e disse que eu podia entrar e me servir direto nas panelas. Em Mesópolis, não havia nem hotel, que dirá restaurante. E coisa boa é um prato comercial depois de um dia de muita força, de muito suor, de muito gasto: uma travessinha de feijão, outra de arroz, outra de batatas fritas, um bife acebolado, duas folhas de alface, três rodelas de tomate. Se quiser ser perfeito, basta acrescentar um legume cozido... Servem pra sobrar. Mas no meu caso nunca sobrava nada. Sendo que, para aumentar ainda mais o apetite, o garçom do bigodinho fino era realmente gente boa e me serviu, como aperitivo, uma cachaça da terra que estava numa garrafa de cocacola, de um engenho que ele conhecia e garantia desde criança.
No Hotel Sílvio dormimos juntos novamente, como na primeira noite, no hotel em Estreito. Pensei que era a praxe, que seria assim a viagem inteira, mas pensei errado. Daí em diante a coitada ficava no quintal ou no estacionamento, ao relento, ou trancada num quartinho. O porteiro do hotel em Estreito não teve outra alternativa senão autorizar que a levasse ao quarto comigo, diante do meu questionamento sobre a segurança de deixá-la no saguão: é que durante a noite eu ficaria sozinho no hotel, ele já tinha me avisado, ia embora às 22h e só voltava no dia seguinte, eu ficava com a chave. Estou falando da bicicleta. Parece engraçada essa conotação quase sexual entre mim e a máquina, mas é sério. Não comigo, mas com alguns ciclistas que conheço. Eu já tive ciumes da minha bicicleta, mas não dessa: daquela que eu tive aos 14 anos de idade, com quem eu ia e vinha da escola. Só meu pai podia usá-la, sem que meu coração ficasse apertado. Ao contrário, ficava feliz quando o via dar uma voltinha, ele parecia mais jovem. Não sei se consegui me libertar totalmente dessa praga emocional que é a mancebia entre homem e máquina, entre homem e objeto. Tem gente que tem ciúme do carro, não o empresta, não deixa ninguém dirigi-lo; muitos não emprestam o alicate, a furadeira. Enfim, com a minha bicicleta sou liberal...
TERCEIRO DIA: IGARAPAVA(SP) A CONCEIÇÃO DAS ALAGOAS(MG)
TERCEIRO DIA: IGARAPAVA – MIGUELÓPOLIS – CONCEIÇÃO DAS ALAGOAS.
De repente me vi perdido no meio do nada, ou melhor, no meio da terra arada de antigo canavial. O trecho de confusas estradas vicinais de 42 Km entre Igarapava e Miguelópolis era um dos que mais me preocupavam na fase de planejamento da viagem, só perdendo para o trecho entre Colômbia e Guaraci, de 80 Km, mais à frente. E agora, no local, eu estava mais preocupado ainda, porque, primeiro, estava perdido e, segundo, não mais confiava no GPS do Google e seu sistema de rotas para bicicleta, que me havia colocado numa fria lá na fazenda proibida da Dreyfus, conforme relatei acima e, terceiro, o GPS continuava indicando minha localização, mas o mapa off-line por trás não ajudava com suas imagens borradas.
Nesses caminhos entre canaviais – há canaviais de todo tipo: na terra nua em reforma, brotando da terra, de pequeno porte, de médio porte, canaviais em ponto de colheita, canaviais recém-colhidos -, não podemos adotar o critério de seguir o caminho mais batido. É que a parafernália de colhedeiras, tratores, carretas e caminhões utilizados na colheita da cana pode transformar uma variante do caminho na mais transitada no prazo de meia hora. E essas variações bruscas podem ocorrer várias vezes ao dia no rumo do nosso destino. Da mesma forma, e no sentido contrário, um trator que esteja gradeando uma terra, ao passar pra lá e pra cá transversalmente sobre a estrada, apaga os rastros e dá a sensação, ao longe, de que o caminho não existe ou é insignificante.
Porém, a reforma ou a colheita dos canaviais, se nos desorientam, também significam gente próxima, que pode nos informar. E desconfio que há um duende protetor dos viajantes perdidos, porque quando eu me encontrava no meio do nada, olhando ao longe sem ver qualquer referência significativa – perder-se em campo aberto, de larga visão, é mais desanimador que se perder num beco ou numa grota de pouca visibilidade –, eis que aponta no fundo da terra um carrinho, que veio cambaleando pelas lombadas até mim, e dentro estava um senhor de boa vontade, chefe da turma cujo trabalho de replantar a cana eu vinha assistindo a algum tempo. Um senhor sério, desses que ri por dentro, que desaprova por dentro, que aplaude por dentro...um rosto de poucas emoções aparentes. Creio que ele nem desceria do carro se me visse desesperado. Só que eu estava perdido, mas esperançado, quero dizer, confiante. Ele desceu do carro e me mostrou, ao longe, dando como referência indefectíveis capões de mato ou talhões de cana, o caminho que eu deveria seguir até encontrar a vicinal asfaltada de 7Km, que me levaria a Miguelópolis. Em poucas palavras e gestos, ele transformou aquele amplo horizonte que não me dizia nada em um conhecido território amplo de referências significativas.
Canavial pleno, cana para todos os gostos. Estava atravessando terras de uma usina de cana, cuja sede e nome não descobri. Subindo e descendo por carreadores, homens e tratores e caminhões ao longe, terras nuas, terras recebendo canas, canas brotando, crescendo, canas jovens, canaviais formados aguardando a colheita e, ao final do ciclo, canavial recém colhido. Terreno ondulado, com baixadas e lombadas, mas a tendência geral era subir. Passei o córrego do Carmo, que me pareceu já represado naquela altura, eis que sua foz era no Rio Grande, agora inundado pelas águas represadas da barragem de Volta Grande e, no alto da colina seguinte - a parte mais alta da microrregião -, uma torre de vigia. Lembrei que meu informante lá atrás falara nela. No meio da estrada, que se alargava para recebê-la; de madeira, uns 10 metros de altura, um abrigo coberto lá em cima, porém não havia nenhum vigia à vista. Suponho que vigiam ao longe os princípios de incêndio, essa deve ser a função dessas torres. É fácil ver a fumaça ao longe... No pé da torre uma barraca mal ajambrada de placas de madeira e papelão, de onde saíram muitos cachorros em minha perseguição. Nunca fui tão duramente perseguido como daquela vez. Todos legítimos vira-latas - são inconfundíveis, porque mirrados, barulhentos e insistentes. E inconsistentes: basta parar que eles param. Só que eu não parei e eles não pararam... Ao contrário, aumentei a velocidade; é disso que eles gostam: pensam que estamos fugindo. Pensam que estão vencendo: e tomem-lhe entusiasmo. E escarcéu. E por mais de um quilômetro correram atrás de mim; sorte que a estrada era boa e em ligeiro declive. O menorzinho desistiu por último...
Vale registrar, nesse trecho, a passagem sobre os trilhos da estrada de ferro da antiga Paulista, em pleno funcionamento para transporte de carga, que cruza o Rio Grande logo adiante, entrando em Minas e indo até Brasília, creio. Uma ponte minúscula na estrada de terra passa sobre o fundo corte onde correm os trilhos, como se fora um córrego, trilhos brilhantes pelo intenso uso.
Em Miguelópolis, cidade de 20 mil habitantes, cheguei na hora do almoço. Terreno plano, bicicletas em profusão. Registre-se que em praticamente todas as cidades do meu roteiro havia muitas bicicletas. Numa banca de frutas, parei para pedir informações sobre local para almoçar. Antes que o senhor me informasse, seu filho, um garoto gordo de cerca de 10 anos, foi me dando toda a ficha de dois restaurantes, um aqui, outro acolá, este comida mais simples e temperada, aquele comida mais fina... é impressionante a acuidade das informações sobre hotéis e restaurantes que as pessoas locais dão aos viajantes. Sim, porque se um forasteiro me perguntar sobre locais para se hospedar em São Paulo, cidade onde moro, eu serei capaz apenas de informar por cima, mais ou menos, sem nenhuma precisão, pois nunca me hospedei em hotéis em minha própria cidade. E penso que numa cidade como aquela, ninguém deixa de comer em sua casa para comer no restaurante. No entanto, informam em detalhes precisos.
O plano de viagem previa atravessar o Rio Grande na ponte abaixo da barragem da Usina de Volta Grande e ir até Conceição das Alagoas, Minas Gerais, onde passaria a noite, retornando ao território paulista no dia seguinte, na altura dos municípios de Planura, MG, e Colômbia, SP. Eu poderia ir por asfalto ou pegar um atalho em terra de 15Km e sair na rodovia lá na frente, na direção do rio. Eu ainda não estava traumatizado pela terra em pó no leito das vicinais, fabricada pelos 34 pneus de cada carreta de cana, que não deixa a bicicleta em pé nem no plano. Esse trauma peguei no trecho entre Colômbia e Guaraci, em que iria passar dois dias depois. Por isso, optei pelo atalho. Tranquilo.
Já estava bem próximo do oeste paulista e a altitude já batia nos baixos 500 metros. Como se sabe, naquela região é calor o ano inteiro, às 2h da tarde o sol é muito forte tanto em janeiro quanto em julho. É coisa de rachar mamona, como diz o caipira. Parei na ponte para fotografar. Ponte antiga, sem acostamento ou passarela de pedestres. Avancei uns 100 metros e, nisso, veio uma carreta carregada. A ponte balança como se fora um elástico, que de fato é: o concreto protendido é sustentado por cabos de aço, que funcionam como elástico. Ponte enorme, coisa de 1000 metros, passar de bicicleta é uma aventura, porque se calha de duas carretas se cruzarem bem ao nosso lado, estaremos literalmente apertados...
A subida do lado mineiro acabou com meus sais. Sorte que, junto ao posto mineiro da receita estadual, havia uma banca de refrigerantes. Oficialmente era uma banca de caldo de cana, meu refrigerante-energético preferido. Mas quando cheguei perto, desisti. As condições higiênicas eram lamentáveis, pedi uma coca cola daquela bem açucarada...Não se pode comparar o caldo de cana com qualquer outro refrigerante industrializado: o caldo de cana tem sustança e é delicioso, apesar de não ter gás. Porque é o gás que dá aquele toque de sabor no refrigerante. E, se o gás não faz mal, bem também não faz. O caldo de cana vem com açúcar natural com zero de manipulação, além da água, filtrada direto pela planta, sem contar a infinidade de outros nutrientes que toda planta contém. Mas nada disso vale a pena quando o operador da moenda tem a cara e os modos daquele senhor que atendia naquela banca. Além de sujo, mal humorado: não sei se ele estava em guerra com os paulistas ou com os ciclistas.
Seguindo na rodovia, mais à frente há um trevo, em que, à direita, vamos para Uberaba, não muito longe dali; à esquerda vamos para Conceição das Alagoas e o fundão do Triângulo Mineiro. São 20 Km. Pouco depois há uma usina de cana de etanol. Antigamente era cana de açúcar, agora é cana de etanol: quase toda a cana é usada para fazer etanol. O açúcar move nossos músculos; o etanol move nossos motores, ou melhor, os motores de nossos automóveis. As melhores terras do país recebem os maiores investimentos e as melhores técnicas agrícolas para produzir etanol, alimento para nossos carros. A estrada sobe sem parar, lentamente, pouco inclinada, parece plana. Mas só um ciclista sabe que é subida, quase ininterrupta até a cidade, que está a 700 metros de altitude, 200 metros a mais que na margem do rio.
Conceição das Alagoas, porque a região possui muitas alagoas. Alagoa, do verbo alagar. Sendo que uma placa, com pretensões turísticas, nos informa que estamos na região dos lagos. Agora não sei se se trata dos lagos formados pelas águas do Rio Grande, por causa das barragens das usinas hidrelétricas, ou das alagoas – alagados naturais e quase sempre perenes, mas de pequenas proporções, que se formam nas depressões do terreno. É uma região de relevo bem ameno, quase plano, e rica em rios e nascentes. Isso faz com que não seja incomum pequenas bacias no terreno, como se fosse uma suave montanha invertida. Nesse pedaço, toda água produzida não tem saída, não tem escoadouro. Quando chove, a água fica empoçada. Cria-se uma umidade, que vira um brejo: uma umidade perene. O lençol freático sobe, um merejo aparece: pronto, temos uma alagoa. Ou lagoa. Para felicidade de traíras, jacarés, sucuris... e do fazendeiro. Porque uma lagoa valoriza a terra. Toda água valoriza a terra.
Em Conceição das Alagoas, MG, não há igreja na praça principal: única, dentre todas as cidades porque passei. Mas havia um parque de diversões noutra praça secundária. A praça da matriz sem igreja-matriz. Devo voltar a esse assunto. O parque de diversões foi o único que vi durante toda a viagem. Daquele com roda gigante, carro de trombada, trenzinho, barraca de argola, de espingarda de pressão. Quando passei ainda era cedo, tinha pouca gente. O atendente da barraca das espingardas me convidou a atirar. O projétil é uma rolha, que deve acertar e derrubar a barra de chocolate, o pacote de biscoito e mais o que estiver na prateleira, à frente. Derrubou, é seu. Examinei rapidamente os alvos a serem conquistados e percebi que se eu acertasse todos os tiros, ainda assim o banqueiro teria lucro. Então, para justificar minha não participação, informei ao rapaz que não ia atirar não, porque não queria dar prejuízo a ele. Não sei se ele ficou feliz em se livrar de um exímio atirador – e logo pensei num comercial de TV em que uma equipe de lutadores de sumô entra num restaurante desses em que se come à vontade por preço fixo, sob o sorriso amarelo do dono. Mas eu, que nunca dei um tiro com arma de fogo, gostei de desempenhar o papel de exímio atirador perante o moço da barraca, que deve ter ficado lá pensando naquele senhor que nunca viu, jeitão esquisito, barbudo, talvez um pistoleiro de aluguel...ou até mesmo um coronel do exército caído em desgraça...: um parque de diversões transforma qualquer velho em criança, uma criança que via bang-bang e sonhava com profissões aventureiras, como chofer de caminhão...
Chauffeur de caminhão. Do tempo em que éramos colônia escancarada. Veja esse parquinho: os brinquedos todos foram desenhados por um estrangeiro; talvez os próprios brinquedos tenham vindo no porão de algum navio, para fazer lastro. Os bichos do gira-gira são todos africanos; os carros do outro gira-gira são da Ford, da Chevrolet, fabricados nos anos 1950 na América do Norte; o barco viking é coisa de gente que mexe com neve. Não sei porque, sempre associei parque de diversões a marinheiros. Talvez porque os marinheiros sejam pessoas que não têm parada e com quem só podemos fazer amizade superficial. Ou porque foi um marinheiro que vendeu essa tranqueira ao nosso compatriota, que saiu pelo interior do país como papagaio, a iludir e a divertir nossas crianças. Nada tão grave se comparado aos satélites e chips e softwares e aplicativos que atualmente imobilizam nosso corpo e colonizam nosso tempo e nosso bolso. Será que essa minha mania de andar e pedalar é um protesto contra mim mesmo?
De repente me vi perdido no meio do nada, ou melhor, no meio da terra arada de antigo canavial. O trecho de confusas estradas vicinais de 42 Km entre Igarapava e Miguelópolis era um dos que mais me preocupavam na fase de planejamento da viagem, só perdendo para o trecho entre Colômbia e Guaraci, de 80 Km, mais à frente. E agora, no local, eu estava mais preocupado ainda, porque, primeiro, estava perdido e, segundo, não mais confiava no GPS do Google e seu sistema de rotas para bicicleta, que me havia colocado numa fria lá na fazenda proibida da Dreyfus, conforme relatei acima e, terceiro, o GPS continuava indicando minha localização, mas o mapa off-line por trás não ajudava com suas imagens borradas.
Nesses caminhos entre canaviais – há canaviais de todo tipo: na terra nua em reforma, brotando da terra, de pequeno porte, de médio porte, canaviais em ponto de colheita, canaviais recém-colhidos -, não podemos adotar o critério de seguir o caminho mais batido. É que a parafernália de colhedeiras, tratores, carretas e caminhões utilizados na colheita da cana pode transformar uma variante do caminho na mais transitada no prazo de meia hora. E essas variações bruscas podem ocorrer várias vezes ao dia no rumo do nosso destino. Da mesma forma, e no sentido contrário, um trator que esteja gradeando uma terra, ao passar pra lá e pra cá transversalmente sobre a estrada, apaga os rastros e dá a sensação, ao longe, de que o caminho não existe ou é insignificante.
Porém, a reforma ou a colheita dos canaviais, se nos desorientam, também significam gente próxima, que pode nos informar. E desconfio que há um duende protetor dos viajantes perdidos, porque quando eu me encontrava no meio do nada, olhando ao longe sem ver qualquer referência significativa – perder-se em campo aberto, de larga visão, é mais desanimador que se perder num beco ou numa grota de pouca visibilidade –, eis que aponta no fundo da terra um carrinho, que veio cambaleando pelas lombadas até mim, e dentro estava um senhor de boa vontade, chefe da turma cujo trabalho de replantar a cana eu vinha assistindo a algum tempo. Um senhor sério, desses que ri por dentro, que desaprova por dentro, que aplaude por dentro...um rosto de poucas emoções aparentes. Creio que ele nem desceria do carro se me visse desesperado. Só que eu estava perdido, mas esperançado, quero dizer, confiante. Ele desceu do carro e me mostrou, ao longe, dando como referência indefectíveis capões de mato ou talhões de cana, o caminho que eu deveria seguir até encontrar a vicinal asfaltada de 7Km, que me levaria a Miguelópolis. Em poucas palavras e gestos, ele transformou aquele amplo horizonte que não me dizia nada em um conhecido território amplo de referências significativas.
Canavial pleno, cana para todos os gostos. Estava atravessando terras de uma usina de cana, cuja sede e nome não descobri. Subindo e descendo por carreadores, homens e tratores e caminhões ao longe, terras nuas, terras recebendo canas, canas brotando, crescendo, canas jovens, canaviais formados aguardando a colheita e, ao final do ciclo, canavial recém colhido. Terreno ondulado, com baixadas e lombadas, mas a tendência geral era subir. Passei o córrego do Carmo, que me pareceu já represado naquela altura, eis que sua foz era no Rio Grande, agora inundado pelas águas represadas da barragem de Volta Grande e, no alto da colina seguinte - a parte mais alta da microrregião -, uma torre de vigia. Lembrei que meu informante lá atrás falara nela. No meio da estrada, que se alargava para recebê-la; de madeira, uns 10 metros de altura, um abrigo coberto lá em cima, porém não havia nenhum vigia à vista. Suponho que vigiam ao longe os princípios de incêndio, essa deve ser a função dessas torres. É fácil ver a fumaça ao longe... No pé da torre uma barraca mal ajambrada de placas de madeira e papelão, de onde saíram muitos cachorros em minha perseguição. Nunca fui tão duramente perseguido como daquela vez. Todos legítimos vira-latas - são inconfundíveis, porque mirrados, barulhentos e insistentes. E inconsistentes: basta parar que eles param. Só que eu não parei e eles não pararam... Ao contrário, aumentei a velocidade; é disso que eles gostam: pensam que estamos fugindo. Pensam que estão vencendo: e tomem-lhe entusiasmo. E escarcéu. E por mais de um quilômetro correram atrás de mim; sorte que a estrada era boa e em ligeiro declive. O menorzinho desistiu por último...
Vale registrar, nesse trecho, a passagem sobre os trilhos da estrada de ferro da antiga Paulista, em pleno funcionamento para transporte de carga, que cruza o Rio Grande logo adiante, entrando em Minas e indo até Brasília, creio. Uma ponte minúscula na estrada de terra passa sobre o fundo corte onde correm os trilhos, como se fora um córrego, trilhos brilhantes pelo intenso uso.
Em Miguelópolis, cidade de 20 mil habitantes, cheguei na hora do almoço. Terreno plano, bicicletas em profusão. Registre-se que em praticamente todas as cidades do meu roteiro havia muitas bicicletas. Numa banca de frutas, parei para pedir informações sobre local para almoçar. Antes que o senhor me informasse, seu filho, um garoto gordo de cerca de 10 anos, foi me dando toda a ficha de dois restaurantes, um aqui, outro acolá, este comida mais simples e temperada, aquele comida mais fina... é impressionante a acuidade das informações sobre hotéis e restaurantes que as pessoas locais dão aos viajantes. Sim, porque se um forasteiro me perguntar sobre locais para se hospedar em São Paulo, cidade onde moro, eu serei capaz apenas de informar por cima, mais ou menos, sem nenhuma precisão, pois nunca me hospedei em hotéis em minha própria cidade. E penso que numa cidade como aquela, ninguém deixa de comer em sua casa para comer no restaurante. No entanto, informam em detalhes precisos.
O plano de viagem previa atravessar o Rio Grande na ponte abaixo da barragem da Usina de Volta Grande e ir até Conceição das Alagoas, Minas Gerais, onde passaria a noite, retornando ao território paulista no dia seguinte, na altura dos municípios de Planura, MG, e Colômbia, SP. Eu poderia ir por asfalto ou pegar um atalho em terra de 15Km e sair na rodovia lá na frente, na direção do rio. Eu ainda não estava traumatizado pela terra em pó no leito das vicinais, fabricada pelos 34 pneus de cada carreta de cana, que não deixa a bicicleta em pé nem no plano. Esse trauma peguei no trecho entre Colômbia e Guaraci, em que iria passar dois dias depois. Por isso, optei pelo atalho. Tranquilo.
Já estava bem próximo do oeste paulista e a altitude já batia nos baixos 500 metros. Como se sabe, naquela região é calor o ano inteiro, às 2h da tarde o sol é muito forte tanto em janeiro quanto em julho. É coisa de rachar mamona, como diz o caipira. Parei na ponte para fotografar. Ponte antiga, sem acostamento ou passarela de pedestres. Avancei uns 100 metros e, nisso, veio uma carreta carregada. A ponte balança como se fora um elástico, que de fato é: o concreto protendido é sustentado por cabos de aço, que funcionam como elástico. Ponte enorme, coisa de 1000 metros, passar de bicicleta é uma aventura, porque se calha de duas carretas se cruzarem bem ao nosso lado, estaremos literalmente apertados...
A subida do lado mineiro acabou com meus sais. Sorte que, junto ao posto mineiro da receita estadual, havia uma banca de refrigerantes. Oficialmente era uma banca de caldo de cana, meu refrigerante-energético preferido. Mas quando cheguei perto, desisti. As condições higiênicas eram lamentáveis, pedi uma coca cola daquela bem açucarada...Não se pode comparar o caldo de cana com qualquer outro refrigerante industrializado: o caldo de cana tem sustança e é delicioso, apesar de não ter gás. Porque é o gás que dá aquele toque de sabor no refrigerante. E, se o gás não faz mal, bem também não faz. O caldo de cana vem com açúcar natural com zero de manipulação, além da água, filtrada direto pela planta, sem contar a infinidade de outros nutrientes que toda planta contém. Mas nada disso vale a pena quando o operador da moenda tem a cara e os modos daquele senhor que atendia naquela banca. Além de sujo, mal humorado: não sei se ele estava em guerra com os paulistas ou com os ciclistas.
Seguindo na rodovia, mais à frente há um trevo, em que, à direita, vamos para Uberaba, não muito longe dali; à esquerda vamos para Conceição das Alagoas e o fundão do Triângulo Mineiro. São 20 Km. Pouco depois há uma usina de cana de etanol. Antigamente era cana de açúcar, agora é cana de etanol: quase toda a cana é usada para fazer etanol. O açúcar move nossos músculos; o etanol move nossos motores, ou melhor, os motores de nossos automóveis. As melhores terras do país recebem os maiores investimentos e as melhores técnicas agrícolas para produzir etanol, alimento para nossos carros. A estrada sobe sem parar, lentamente, pouco inclinada, parece plana. Mas só um ciclista sabe que é subida, quase ininterrupta até a cidade, que está a 700 metros de altitude, 200 metros a mais que na margem do rio.
Conceição das Alagoas, porque a região possui muitas alagoas. Alagoa, do verbo alagar. Sendo que uma placa, com pretensões turísticas, nos informa que estamos na região dos lagos. Agora não sei se se trata dos lagos formados pelas águas do Rio Grande, por causa das barragens das usinas hidrelétricas, ou das alagoas – alagados naturais e quase sempre perenes, mas de pequenas proporções, que se formam nas depressões do terreno. É uma região de relevo bem ameno, quase plano, e rica em rios e nascentes. Isso faz com que não seja incomum pequenas bacias no terreno, como se fosse uma suave montanha invertida. Nesse pedaço, toda água produzida não tem saída, não tem escoadouro. Quando chove, a água fica empoçada. Cria-se uma umidade, que vira um brejo: uma umidade perene. O lençol freático sobe, um merejo aparece: pronto, temos uma alagoa. Ou lagoa. Para felicidade de traíras, jacarés, sucuris... e do fazendeiro. Porque uma lagoa valoriza a terra. Toda água valoriza a terra.
Em Conceição das Alagoas, MG, não há igreja na praça principal: única, dentre todas as cidades porque passei. Mas havia um parque de diversões noutra praça secundária. A praça da matriz sem igreja-matriz. Devo voltar a esse assunto. O parque de diversões foi o único que vi durante toda a viagem. Daquele com roda gigante, carro de trombada, trenzinho, barraca de argola, de espingarda de pressão. Quando passei ainda era cedo, tinha pouca gente. O atendente da barraca das espingardas me convidou a atirar. O projétil é uma rolha, que deve acertar e derrubar a barra de chocolate, o pacote de biscoito e mais o que estiver na prateleira, à frente. Derrubou, é seu. Examinei rapidamente os alvos a serem conquistados e percebi que se eu acertasse todos os tiros, ainda assim o banqueiro teria lucro. Então, para justificar minha não participação, informei ao rapaz que não ia atirar não, porque não queria dar prejuízo a ele. Não sei se ele ficou feliz em se livrar de um exímio atirador – e logo pensei num comercial de TV em que uma equipe de lutadores de sumô entra num restaurante desses em que se come à vontade por preço fixo, sob o sorriso amarelo do dono. Mas eu, que nunca dei um tiro com arma de fogo, gostei de desempenhar o papel de exímio atirador perante o moço da barraca, que deve ter ficado lá pensando naquele senhor que nunca viu, jeitão esquisito, barbudo, talvez um pistoleiro de aluguel...ou até mesmo um coronel do exército caído em desgraça...: um parque de diversões transforma qualquer velho em criança, uma criança que via bang-bang e sonhava com profissões aventureiras, como chofer de caminhão...
Chauffeur de caminhão. Do tempo em que éramos colônia escancarada. Veja esse parquinho: os brinquedos todos foram desenhados por um estrangeiro; talvez os próprios brinquedos tenham vindo no porão de algum navio, para fazer lastro. Os bichos do gira-gira são todos africanos; os carros do outro gira-gira são da Ford, da Chevrolet, fabricados nos anos 1950 na América do Norte; o barco viking é coisa de gente que mexe com neve. Não sei porque, sempre associei parque de diversões a marinheiros. Talvez porque os marinheiros sejam pessoas que não têm parada e com quem só podemos fazer amizade superficial. Ou porque foi um marinheiro que vendeu essa tranqueira ao nosso compatriota, que saiu pelo interior do país como papagaio, a iludir e a divertir nossas crianças. Nada tão grave se comparado aos satélites e chips e softwares e aplicativos que atualmente imobilizam nosso corpo e colonizam nosso tempo e nosso bolso. Será que essa minha mania de andar e pedalar é um protesto contra mim mesmo?
QUARTO DIA: CONCEIÇÃO DAS ALAGOAS A COLÔMBIA
QUARTO DIA: CONCEIÇÃO DAS ALAGOAS – COLÔMBIA
Colômbia, município de 6 mil habitantes no extremo norte do Estado de São Paulo, barrancas do Rio Grande. Do outro lado do rio, apenas uma ponte de uns 1000 metros separa o município de Planura, MG. Pouco acima está a barragem da Usina Hidrelétrica, onde as águas represadas de outra barragem a jusante, da Hidrelétrica de Marimbondo, vêm bater. O Rio Grande, no trecho que ora visito, aquele que divide os estados de SP e MG, tem cerca de 700 Km. Destes, menos de 100 Km são de água corrente – rio de verdade, somado todos os trechos entre os lagos – o resto é água parada: 8 barragens, todas para acumular água para gerar energia elétrica. Se o rio mantivesse sempre o mesmo volume de água corrente, não haveria necessidade da represa. Porém o volume de água baixa muito durante os meses secos do ano – de maio a setembro. Então a água acumulada nos lagos normaliza o fluxo e as turbinas todas continuam funcionando. Atualmente o rio está cheio, fruto do ano chuvoso que tivemos. Ano passado a situação era bem outra, com o volume dos lagos lá embaixo, durante minha caminhada rumo à nascente.
A dona do Hotel Miragem, em Conceição das Alagoas, é paulista de Guaíra. Sendo que o prédio e a placa indicativa estão bem concretados e visíveis numa ruela não muito distante da entrada da cidade. Paulista, mas tinha pão de queijo no café... De ambos os lados do rio a nação é a mesma: muita fritura, bolinho, quiabo, frango de panela, peixe frito, carne de panela, carne suína, abobrinha picada fininho, couve, arroz e feijão obrigatórios, e uma polenta que às vezes vira angu ou canjiquinha; e uma pinguinha pra abrir o apetite... E todos falam uai! e sô! e bão! e tudo é trem! (Uai sô! Que trem bão é esse?) E o queijo e seus derivados são unanimidade em ambas as margens do rio. E todos olham por baixo, desconfiados. E todos chegam muito antes da hora. E todos são simples. E todos são sistemáticos. Sistemático é um adjetivo caipira, que quer dizer simples e complicado ao mesmo tempo. E poucos sabem nadar bem, quase todo mundo tem medo de água. O fato é que ali é a terra que envolve e sufoca a água, e não o contrário. O certo é que os cidadãos da nação de beira-rio, o povo nascido e criado nas terras de ambos os lados do Rio Grande, são mineiros e paulistas ao mesmo tempo, para o bem e para o mal. E eu, mais uma vez, fui bem tratado, porque eles me aceitavam como um igual, como de fato sou mesmo, apesar da minha bicicleta e da minha barba.
É fato, os homens daquela região não usam barba. Barba é coisa de gente desleixada. Entretanto, respeitam quem usa. Porque gostariam de usar, só não usam por causa da sansão social. O caipira da Nação do Rio Grande é um cidadão muito bem comportado, quase reacionário. Porém, precisamos tomar cuidado com essa afirmação. Tal cidadão é essencialmente pragmático-materialista. Ele se comporta bem por conveniência, pesando a relação custo/benefício. No fundo, no fundo, sua alma não se conforma...
Eu tinha 50 Km de rodovia sem acostamento até Planura. Depois, atravessaria a ponte e almoçaria e, talvez, pernoitaria em terras paulistas novamente, no município de Colômbia. Saí cedo e, ao contrário do dia anterior, para chegar, agora era quase tudo plano, levemente descendente até o rio. Em Colômbia eram 12h30 e eu já havia almoçado. Muito cedo para parar para quem está viajando de bicicleta. Viajar de bicicleta é mais desgastante, fisicamente, do que viajar a pé. O andarilho mantém o coração funcionando em ritmo moderado a maior parte do tempo. Apenas em grandes aclives os batimentos cardíacos sobem próximo ao máximo. Ao contrário, pedalando, o aparelho circulatório trabalha próximo ao limite superior a maior parte do tempo, especialmente quando se pedala em estradas asfaltadas. É que as rodovias em geral são constituídas de subidas e descidas com distâncias parecidas. Na descida a bicicleta vai muito rápido e o ciclista não faz esforço nenhum. Mas ela acaba logo e, na subida, a pedalada é sempre exigente e frustrante, por causa da baixa velocidade – ainda mais se comparada à “banguela” da descida anterior. Resultado: passamos a maior parte do tempo com o coração lá em cima, pedalando na subida e, desanimados. Nas estradas de terra, não desenvolvemos grande velocidade nem nas descidas. Então, o ritmo é mais uniforme.
Próximo a Planura - creio que esse nome decorre da região muito plana que a envolve - há um encontro de rodovias, que saem em três direções: uma nos leva a Uberaba, Belo Horizonte; outra vai para o extremo oeste do triângulo mineiro; e aquela que eu ia seguir atravessa o rio e vai para São Paulo. Eu acabava de vencer um longo trecho de estrada rápida e sem graça e o tempo seco me dava sede: uma sede mais psicológica que física, já que eu vinha tomando água regularmente. Daí que não resisti à placa enorme que tomava toda a fachada do boteco simples, dizendo "sucos". Percebi a exploração desse nicho comercial em várias outras cidades do caminho. Barracas de suco na beira da estrada. Anunciam sucos de várias frutas, mas creio que só fazem, de verdade, suco de laranja. Eu nunca arrisco a pedir coisa diferente. E o suco de laranja é farto e barato: pedimos um copo e mandam uma jarra. Tentam, desesperadamente, concorrer com a cocacola. Comigo, sempre ganham: o mundo ali tem três tesouros do prazer de beber para matar a sede e repor os sais: suco de laranja, caldo de cana e água de coco. Mas a cocacola e as tubaínas continuam ganhando de lavada...
E às 12h30, em Colômbia, eu tinha muito chão pela frente. Chão de verdade, terra. Estradas de terra. 80 Km de estradas vicinais, dessas que formam uma malha viária sem nenhuma lógica, ao sabor dos sítios e fazendas e brejos intransponíveis, que obrigam desvios enormes e se cruzam e se bifurcam e se confundem com carreadores de canaviais e laranjais e acessos particulares; e nenhuma placa, já que quem passa ali são sempre as mesmas pessoas que moram ou trabalham por perto. E eu tinha ainda gás pra queimar. Foi uma sábia decisão continuar a viagem, porque aqueles 80 Km até Guaraci previstos para o dia seguinte eu não conseguiria concluir de uma tacada só – descobri no outro dia. Então resolvi ir pedalando até onde desse, já sabendo que teria de dormir na estrada, acampado. Era pra isso que eu trazia, na garupa, num rolo só, abaixo da mochila, minha barraquinha autoportante e meu leve saco de dormir enrolados pelo isolante térmico.
Logo na saída, comecei a ver um cemitério de automóveis ao longo da estrada de terra, ao ponto de impedir o trânsito no leito propriamente dito, obrigando os veículos a desvio na lateral do canavial ao lado. Em seguida vi um barraco de lona preta e outro, e depois outro e eu estava no meio de um acampamento de sem terras. Sem nenhum aviso, nenhuma bandeira, nenhuma identificação. Alguns homens e mulheres e crianças em seus barracos, vários almoçando, mulheres lavando panelas do almoço. Um ou outro cavalo amarrado pastando, vários cercados com porcos, muitas galinhas e frangos e pintinhos zanzando livres e várias pequenas hortas ou canteiros isolados, onde predominavam alface, couve, rúcula, pimenta e as úteis e constantes cebolinhas verdes, além de alguma salsa e, menos frequente, algumas ervas de cheiro ou medicinais. Entremeados aos barracos, alguns carros, todos muito velhos, alguns definitivamente imóveis, sugerindo que algumas pessoas ali se dedicavam ao comércio de sucata. De vez em quando escutava-se um martelo em atividade, a consertar ou construir algum barraco novo. Eram 319 famílias cadastradas, me informou um senhor idoso, lá para o final da fila de casas provisórias. Ele estava acampado ali há 10 anos, aguardando um pedaço de terra. E conhecia gente que estava acampado há 15 anos. E, olhando em volta, a vista se perdia em canaviais nos quatro cantos, tudo de um único dono, cultivado com enormes e caríssimas máquinas, que empregam muito pouca gente e só produz alimento para motor de carro.
A visão ligeira ou superficial ou preconceituosa de quem passa apressado por um acampamento dessa natureza pode concluir que é um povo infeliz e, no mínimo, sem futuro. De fato, a situação deles é precária. Mas, a julgar pelas brilhantes soluções arquitetônicas de alguns barracos, ali há muita criatividade e entusiasmo. E se seus confrades moradores das casas de alvenaria das fazendas ou nas pontas de rua das cidades se sentem mais seguros nas noites de ventania ou chuva forte, com certeza esses moradores dos barracos se sentem mais cidadãos que aqueles, nas demais horas da vida. A vida comunitária dos acampados é muito mais rica do que a de quem permanece isolado, gastando todo seu tempo num trabalho pesado, entediante e mal remunerado e sem futuro. O acampado participa de discussões e ajuda a construir soluções coletivas e se sente responsável por elas. O isolado vive debaixo de ordens, sofrendo manipulações de toda espécie, como as econômicas, políticas, religiosas. O isolado é presa fácil de espertalhões enquanto o acampado é protegido pela grande família de vizinhos todos iguais e muito próximos. Um acampamento como aquele pode eleger até mais de um vereador para a câmara do pequeno município. Eles acabam se entranhando na máquina burocrática local. As crianças recebem cuidados mais bem planejados dos órgãos de saúde e educação. Escolas recebem acréscimos curriculares de interesse local. O cidadão formado ali naquele ambiente será um osso duro de roer, para os fazendeiros da redondeza, boa parte deles ainda protoescravista, fortemente preconceituosos contra “preto, pobre, mulher, viado e baiano”. Esses fazendeiros não querem saber de conversa: “quem conversa perde a razão...”. Discussões coletivas, negociações, nem pensar.
O companheiro que conhecia toda a região e poderia me ensinar o caminho estava lá na saída do acampamento, me informou o velho. De fato, o companheiro conhecia e era sábio, porque apenas me disse que logo ali na frente havia um povoado, chamado Laranjeiras, e que dava pra ir até Guaraci sim, era só ir perguntando. Eu, em seu lugar, após descobrir o que descobri no dia seguinte, teria desencorajado o viajante: “rapaz, é muito difícil, você vai se perder, é melhor ir pelo asfalto...”. Nessa altura ainda havia pela frente o intrincado cipoal de 80 Km de vicinais e as centenas de dúvidas em outros tantos entroncamentos. Mas a primeira metade desse caminho era mais fácil e eu a venci nesse dia, até o sol se pôr e eu armar a barraca ao lado de um capão de mato. Não sem antes chupar dez laranjas numa tacada só, ali pelas 4 horas da tarde, num pomar protegido por cerca viva espinhenta. A cerca deu uma brecha, eu entrei. Coisa rara é brecha naquelas cercas... Pomar em ponto de colheita, um despropósito... No carreador havia um gramado roçado, semelhante ao gramado do Itaquerão corintiano. Com a minha perspicácia de conhecedor profundo, selecionei as melhores frutas e, sobre o gramado caprichado, com minha faquinha, fiz a festa. E o café da tarde. Coisa difícil é colher uma laranja ali na região. Todos os pomares são vedados por caprichadas cercas vivas de espinhos. Pomares da Cutrale, descobri o posto da empresa no dia seguinte, passei em frente, após o bairro do Brejinho.
Colômbia, município de 6 mil habitantes no extremo norte do Estado de São Paulo, barrancas do Rio Grande. Do outro lado do rio, apenas uma ponte de uns 1000 metros separa o município de Planura, MG. Pouco acima está a barragem da Usina Hidrelétrica, onde as águas represadas de outra barragem a jusante, da Hidrelétrica de Marimbondo, vêm bater. O Rio Grande, no trecho que ora visito, aquele que divide os estados de SP e MG, tem cerca de 700 Km. Destes, menos de 100 Km são de água corrente – rio de verdade, somado todos os trechos entre os lagos – o resto é água parada: 8 barragens, todas para acumular água para gerar energia elétrica. Se o rio mantivesse sempre o mesmo volume de água corrente, não haveria necessidade da represa. Porém o volume de água baixa muito durante os meses secos do ano – de maio a setembro. Então a água acumulada nos lagos normaliza o fluxo e as turbinas todas continuam funcionando. Atualmente o rio está cheio, fruto do ano chuvoso que tivemos. Ano passado a situação era bem outra, com o volume dos lagos lá embaixo, durante minha caminhada rumo à nascente.
A dona do Hotel Miragem, em Conceição das Alagoas, é paulista de Guaíra. Sendo que o prédio e a placa indicativa estão bem concretados e visíveis numa ruela não muito distante da entrada da cidade. Paulista, mas tinha pão de queijo no café... De ambos os lados do rio a nação é a mesma: muita fritura, bolinho, quiabo, frango de panela, peixe frito, carne de panela, carne suína, abobrinha picada fininho, couve, arroz e feijão obrigatórios, e uma polenta que às vezes vira angu ou canjiquinha; e uma pinguinha pra abrir o apetite... E todos falam uai! e sô! e bão! e tudo é trem! (Uai sô! Que trem bão é esse?) E o queijo e seus derivados são unanimidade em ambas as margens do rio. E todos olham por baixo, desconfiados. E todos chegam muito antes da hora. E todos são simples. E todos são sistemáticos. Sistemático é um adjetivo caipira, que quer dizer simples e complicado ao mesmo tempo. E poucos sabem nadar bem, quase todo mundo tem medo de água. O fato é que ali é a terra que envolve e sufoca a água, e não o contrário. O certo é que os cidadãos da nação de beira-rio, o povo nascido e criado nas terras de ambos os lados do Rio Grande, são mineiros e paulistas ao mesmo tempo, para o bem e para o mal. E eu, mais uma vez, fui bem tratado, porque eles me aceitavam como um igual, como de fato sou mesmo, apesar da minha bicicleta e da minha barba.
É fato, os homens daquela região não usam barba. Barba é coisa de gente desleixada. Entretanto, respeitam quem usa. Porque gostariam de usar, só não usam por causa da sansão social. O caipira da Nação do Rio Grande é um cidadão muito bem comportado, quase reacionário. Porém, precisamos tomar cuidado com essa afirmação. Tal cidadão é essencialmente pragmático-materialista. Ele se comporta bem por conveniência, pesando a relação custo/benefício. No fundo, no fundo, sua alma não se conforma...
Eu tinha 50 Km de rodovia sem acostamento até Planura. Depois, atravessaria a ponte e almoçaria e, talvez, pernoitaria em terras paulistas novamente, no município de Colômbia. Saí cedo e, ao contrário do dia anterior, para chegar, agora era quase tudo plano, levemente descendente até o rio. Em Colômbia eram 12h30 e eu já havia almoçado. Muito cedo para parar para quem está viajando de bicicleta. Viajar de bicicleta é mais desgastante, fisicamente, do que viajar a pé. O andarilho mantém o coração funcionando em ritmo moderado a maior parte do tempo. Apenas em grandes aclives os batimentos cardíacos sobem próximo ao máximo. Ao contrário, pedalando, o aparelho circulatório trabalha próximo ao limite superior a maior parte do tempo, especialmente quando se pedala em estradas asfaltadas. É que as rodovias em geral são constituídas de subidas e descidas com distâncias parecidas. Na descida a bicicleta vai muito rápido e o ciclista não faz esforço nenhum. Mas ela acaba logo e, na subida, a pedalada é sempre exigente e frustrante, por causa da baixa velocidade – ainda mais se comparada à “banguela” da descida anterior. Resultado: passamos a maior parte do tempo com o coração lá em cima, pedalando na subida e, desanimados. Nas estradas de terra, não desenvolvemos grande velocidade nem nas descidas. Então, o ritmo é mais uniforme.
Próximo a Planura - creio que esse nome decorre da região muito plana que a envolve - há um encontro de rodovias, que saem em três direções: uma nos leva a Uberaba, Belo Horizonte; outra vai para o extremo oeste do triângulo mineiro; e aquela que eu ia seguir atravessa o rio e vai para São Paulo. Eu acabava de vencer um longo trecho de estrada rápida e sem graça e o tempo seco me dava sede: uma sede mais psicológica que física, já que eu vinha tomando água regularmente. Daí que não resisti à placa enorme que tomava toda a fachada do boteco simples, dizendo "sucos". Percebi a exploração desse nicho comercial em várias outras cidades do caminho. Barracas de suco na beira da estrada. Anunciam sucos de várias frutas, mas creio que só fazem, de verdade, suco de laranja. Eu nunca arrisco a pedir coisa diferente. E o suco de laranja é farto e barato: pedimos um copo e mandam uma jarra. Tentam, desesperadamente, concorrer com a cocacola. Comigo, sempre ganham: o mundo ali tem três tesouros do prazer de beber para matar a sede e repor os sais: suco de laranja, caldo de cana e água de coco. Mas a cocacola e as tubaínas continuam ganhando de lavada...
E às 12h30, em Colômbia, eu tinha muito chão pela frente. Chão de verdade, terra. Estradas de terra. 80 Km de estradas vicinais, dessas que formam uma malha viária sem nenhuma lógica, ao sabor dos sítios e fazendas e brejos intransponíveis, que obrigam desvios enormes e se cruzam e se bifurcam e se confundem com carreadores de canaviais e laranjais e acessos particulares; e nenhuma placa, já que quem passa ali são sempre as mesmas pessoas que moram ou trabalham por perto. E eu tinha ainda gás pra queimar. Foi uma sábia decisão continuar a viagem, porque aqueles 80 Km até Guaraci previstos para o dia seguinte eu não conseguiria concluir de uma tacada só – descobri no outro dia. Então resolvi ir pedalando até onde desse, já sabendo que teria de dormir na estrada, acampado. Era pra isso que eu trazia, na garupa, num rolo só, abaixo da mochila, minha barraquinha autoportante e meu leve saco de dormir enrolados pelo isolante térmico.
Logo na saída, comecei a ver um cemitério de automóveis ao longo da estrada de terra, ao ponto de impedir o trânsito no leito propriamente dito, obrigando os veículos a desvio na lateral do canavial ao lado. Em seguida vi um barraco de lona preta e outro, e depois outro e eu estava no meio de um acampamento de sem terras. Sem nenhum aviso, nenhuma bandeira, nenhuma identificação. Alguns homens e mulheres e crianças em seus barracos, vários almoçando, mulheres lavando panelas do almoço. Um ou outro cavalo amarrado pastando, vários cercados com porcos, muitas galinhas e frangos e pintinhos zanzando livres e várias pequenas hortas ou canteiros isolados, onde predominavam alface, couve, rúcula, pimenta e as úteis e constantes cebolinhas verdes, além de alguma salsa e, menos frequente, algumas ervas de cheiro ou medicinais. Entremeados aos barracos, alguns carros, todos muito velhos, alguns definitivamente imóveis, sugerindo que algumas pessoas ali se dedicavam ao comércio de sucata. De vez em quando escutava-se um martelo em atividade, a consertar ou construir algum barraco novo. Eram 319 famílias cadastradas, me informou um senhor idoso, lá para o final da fila de casas provisórias. Ele estava acampado ali há 10 anos, aguardando um pedaço de terra. E conhecia gente que estava acampado há 15 anos. E, olhando em volta, a vista se perdia em canaviais nos quatro cantos, tudo de um único dono, cultivado com enormes e caríssimas máquinas, que empregam muito pouca gente e só produz alimento para motor de carro.
A visão ligeira ou superficial ou preconceituosa de quem passa apressado por um acampamento dessa natureza pode concluir que é um povo infeliz e, no mínimo, sem futuro. De fato, a situação deles é precária. Mas, a julgar pelas brilhantes soluções arquitetônicas de alguns barracos, ali há muita criatividade e entusiasmo. E se seus confrades moradores das casas de alvenaria das fazendas ou nas pontas de rua das cidades se sentem mais seguros nas noites de ventania ou chuva forte, com certeza esses moradores dos barracos se sentem mais cidadãos que aqueles, nas demais horas da vida. A vida comunitária dos acampados é muito mais rica do que a de quem permanece isolado, gastando todo seu tempo num trabalho pesado, entediante e mal remunerado e sem futuro. O acampado participa de discussões e ajuda a construir soluções coletivas e se sente responsável por elas. O isolado vive debaixo de ordens, sofrendo manipulações de toda espécie, como as econômicas, políticas, religiosas. O isolado é presa fácil de espertalhões enquanto o acampado é protegido pela grande família de vizinhos todos iguais e muito próximos. Um acampamento como aquele pode eleger até mais de um vereador para a câmara do pequeno município. Eles acabam se entranhando na máquina burocrática local. As crianças recebem cuidados mais bem planejados dos órgãos de saúde e educação. Escolas recebem acréscimos curriculares de interesse local. O cidadão formado ali naquele ambiente será um osso duro de roer, para os fazendeiros da redondeza, boa parte deles ainda protoescravista, fortemente preconceituosos contra “preto, pobre, mulher, viado e baiano”. Esses fazendeiros não querem saber de conversa: “quem conversa perde a razão...”. Discussões coletivas, negociações, nem pensar.
O companheiro que conhecia toda a região e poderia me ensinar o caminho estava lá na saída do acampamento, me informou o velho. De fato, o companheiro conhecia e era sábio, porque apenas me disse que logo ali na frente havia um povoado, chamado Laranjeiras, e que dava pra ir até Guaraci sim, era só ir perguntando. Eu, em seu lugar, após descobrir o que descobri no dia seguinte, teria desencorajado o viajante: “rapaz, é muito difícil, você vai se perder, é melhor ir pelo asfalto...”. Nessa altura ainda havia pela frente o intrincado cipoal de 80 Km de vicinais e as centenas de dúvidas em outros tantos entroncamentos. Mas a primeira metade desse caminho era mais fácil e eu a venci nesse dia, até o sol se pôr e eu armar a barraca ao lado de um capão de mato. Não sem antes chupar dez laranjas numa tacada só, ali pelas 4 horas da tarde, num pomar protegido por cerca viva espinhenta. A cerca deu uma brecha, eu entrei. Coisa rara é brecha naquelas cercas... Pomar em ponto de colheita, um despropósito... No carreador havia um gramado roçado, semelhante ao gramado do Itaquerão corintiano. Com a minha perspicácia de conhecedor profundo, selecionei as melhores frutas e, sobre o gramado caprichado, com minha faquinha, fiz a festa. E o café da tarde. Coisa difícil é colher uma laranja ali na região. Todos os pomares são vedados por caprichadas cercas vivas de espinhos. Pomares da Cutrale, descobri o posto da empresa no dia seguinte, passei em frente, após o bairro do Brejinho.
QUINTO DIA: GUARACI
QUINTO DIA: ACABANDO DE CHEGAR EM GUARACI.
Terra moída, terra em pó, pó fino – finíssimo -, como se um espírito de porco tivesse esparramado chocolate em pó pela estrada. Não, não é areia. É argila. Argila seca triturada por moendas de pesados 34 pneus, que moem a terra dia e noite. O solo seria firme, duro, parecido com uma camada de concreto asfáltico, só que avermelhada, se passasse somente caminhões normais. Mas passam muitas e muitas carretas de cana, dia e noite – que a colheita funciona dia e noite sem parar. O que chamamos de carreta é, na verdade, um conjunto de duas carretas e um cavalo que as traciona (cavalo mecânico, aquele caminhão sem carroceria...). A carreta de trás possui 4 eixos, com 4 pneus cada eixo; a carreta da frente possui 2 eixos com 4 pneus cada eixo; e o cavalo mecânico possui 2 eixos de 4 pneus cada e 1 eixo – o dianteiro – de 2 pneus. São 34 pneus num bólido de 30 metros de não sei quantas toneladas. Quando passa, a terra treme. O ciclista sofre com a argila suspensa, que congestiona as vias respiratórias e embaça a vista, e sofre com a argila moída espalhada na pista, que não deixa a bicicleta andar. No plano e até na descida, muitas vezes tive de descer e empurrar. E aquilo amarra tanto a rodagem do pneu fino das bicicletas, que é pesado até para empurrar. E enquanto empurro, o tênis afunda naquele formidável colchão de pó, e terra moída em forma de pequenas nuvens rasteiras entram pelas canelas e vão tingindo a pele pelas frestas e microfrestas, até onde dá...
Parece que há um protocolo, firmado não sei por quem, em que as usinas de cana se comprometem a regar a estrada, para que a poeira não se levante. Só vi isso lá na frente, em Santa Albertina, em alguns trechos usados pela Usina Colombo. Nesse trecho entre Colômbia e Guaraci, não vi isso não. Vi muitas nuvens se levantando ao longe e se movendo em minha direção, à medida que a carreta avançava. Então eu olhava desanimado para o colchão de argila e auscultava o vento, para escolher o lado da estrada oposto a ele. Só que às 5h da tarde, naquelas paragens, não costuma ter vento. É uma hora de leseira, como muitos costumam dizer. Entre 5 e 6h da tarde, em julho, o sol se põe, tingindo de vermelho o céu e o ar. Sim, dá pra tingir o ar carregado de argila suspensa. Sendo que a argila já é meio alaranjada. Seria bonito, se não fosse terrível, aquela nuvem que sufoca e suja e não se dissipa nunca.
Então pense num cidadão abilolado nesse mundo, perdido na malha fina de estradas vicinais, tendo de enfrentar um dilema em cada bifurcação, uma suspeita em cada saída de fazenda e ninguém para perguntar. Porque é um mundo naturalmente deserto, de poucas casas, de pouca gente. Andamos quilômetros e quilômetros sem ver ninguém, sem encontrar nenhum carro. Nessas situações, as carretas são até bem-vindas, porque podemos pará-las para pedir informação. Mas há momentos em que realmente precisamos e não aparece ninguém.
Dormi dentro da barraca, no meio desse mundo, na borda de um capão de mato, sobre um capinzal alto que tornou a noite sobre o isolante térmico mais macia. Nas proximidades, cerca de 200 m, alguém instalou umas 10 colmeias para explorar o mel das abelhas. Ao lado, um carreador pouco frequentado e um canavial baixo. E no céu, a lua cheia clareava tudo, aquela claridade leitosa que dá um tom especial à paisagem – uma paisagem lunar, poderíamos dizer. As árvores e os postes e as gentes e os bichos ficam diferentes de quando iluminados pelo sol, embora bem visíveis. Uma imaginação fértil consegue ver fantasmas. Enamorados ficam mais lânguidos. E um ciclista cansado dorme feito uma anta, apesar da lambança dos grilos e dos sapos. Porque bem perto nascia um corguinho, confirmei no outro dia, o que só enriquece mais a sinfonia de insetos de toda ordem e invisíveis pequenos animais e aves que conversam, cantam e gritam o tempo todo em toda mata.
Na barraca a gente dorme cedo, mas acorda cedo, também. Muito cedo. E levantamos acampamento o mais rápido possível, antes que clareie o dia. Não se perde tempo com banheiro, troca de roupas, etc. Só comi um dos dois sanduíches de pão com mortadela que havia reservado e, usando a lanterna de cabeça, saí pedalando no lusco-fusco da manhã. O oriente já se tingia de vermelho. Eu estava perto de um bairro chamado Brejinho em que há uma igreja e uma venda e duas casas. Eu seguia a rota sugerida pelo GPS do Google. Então passou uma carreta e o condutor mostrou muita segurança para informar que o caminho não era aquele. Eu acreditei, e minha crença acrescentou andanças perdidas de uns 20 Km a mais. Em verdade, eu temia que o Google me colocasse numa fria maior ainda que aquela lá da proibida fazenda de laranja da Dreyfus, conforme já narrei anteriormente. É claro que essa rota abandonada poderia conter, à frente, largas possibilidades de me perder também, como me perdi na nova rota que assumi, por sugestão do motorista da carreta.
Você quer que eu diga, afinal, qual o caminho certo? Eu lhe respondo: impossível. Nem olhando no mapa tenho certeza. Por fim, me vi empurrando a bicicleta sobre um canavial recém colhido, em meio a colhedeiras, tratores, carretas, e respectivos trabalhadores. Uma equipe consertava um monstro emperrado parecido com uma colhedeira. Me aproximei e pedi informações. Um dos mecânicos, baixinho, simpático, foi logo dizendo:
- Vixe! Cê tá aqui na bêra do Rio Grande. Cê tem di vortá!
Mas nessa hora eu ainda tinha um sanduíche de mortadela pra queimar, e mais de meia garrafa d’água daquelas de um litro e meio. E ainda estava descansado. Ainda bem, porque o baque foi duro. Ele deu algumas dicas nada seguras e eu continuei o meu processo de tentativas e erros e, posteriormente, concluí que foi ali que comecei a ir para o lado certo. Um problema de quem está perdido é que nossos sentidos vão assumindo posições à nossa revelia: por exemplo, vamos numa estrada e, lá na frente, onde ela desaparece, achamos que ela vira para a esquerda; chegando lá, vemos, decepcionados, que a estrada vira para a direita... Algo que, ora me consolava, ora me desolava, era a posição do sol; porque eu, no geral, viajava do leste para o oeste; então, quando no micromundo de um lance de estrada, após uma curva, eu dava com o sol na cara, viajando contra ele, ou seja, para leste, já que estava na parte da manhã, ficava desanimado; o contrário acontecia quando o sol batia em minha nuca. Numa malha de estradas vicinais tão extensa quanto essa que descrevo, a posição do sol ajuda quase nada, porque a lógica de tais estradas é ziguezaguear para desviar de rios e brejos e morros...ao invés de construir pontes e aterros e cortes que as tornariam mais retas e objetivas. Normalmente elas vão, planas, margeando um córrego e, lá na frente, aproveitam-se de um local mais seco, cruzam o vale, voltando do outro lado, ao sabor das conveniências dos sítios e fazendas a serem atendidos. Nunca usei bússola, mas acho que elas só ajudam no mar ou no deserto, onde não há trilhas batidas e devemos sempre andar em linha reta.
Até que enfim, num cruzamento, encontrei uma placa informativa. Está claro que placa informativa naquele mundo é coisa rara. E tal placa informava a direção de meia dúzia de localidades, dentre as quais estava aquela à qual me destinava: Guaraci. Ou seja, serviço completo. Na hora eu comemorei, dizendo que acabava de me achar: pura ilusão. Mais à frente e após algumas bifurcações mudas (aquelas sem nenhuma placa ou dica), descubro que aquela estrada vai em direção ao Prata. O Prata é um bairro à beira do Rio Grande, longe de Guaraci. Na bifurcação seguinte, escolhi a esquerda, pois meus sentidos – aqueles que descrevi acima – diziam que a direita ia para o Prata. E depois de muito andar nesse ramal, encontro um filho de deus que me diz que eu deveria voltar, pegar o caminho da direita... que neste eu estou voltando pra Barretos... Só que lá atrás, perto do Brejinho, eu já havia caído no conto do “voltando pra Barretos” e fui dar na beira do rio num local sem saída e muito acima do desejado. Então inquiri melhor o informante que me disse que por onde eu estava indo também dava, só que era mais longe, mas eu chegaria no asfalto para Guaraci. Ele queria que eu voltasse, mas não voltei não. Após 40Km de terra em pó, a palavra asfalto falou mais alto.
Porque eu, definitivamente, não estava andando. Estava pedalando. Quero dizer, há uma confusão em mim: pedalo, mas tenho mentalidade de andarilho. E as implicações práticas de tal confusão são significativas, em determinadas situações. Na saída de Miguelópolis eu havia passado por dilema semelhante ao descrito no parágrafo anterior. Havia o asfalto e havia um atalho em terra. Meu informante recomendou que, embora mais longe, eu fosse pelo asfalto, porque na terra havia muita poeira. Quando lhe perguntei quanto a mais teria de andar, ele me disse: 18 Km. Ora, 18Km são significativos até para um motorizado. Escolhi o atalho em terra na hora e depois descobri que pelo asfalto a distância era quase a mesma. Mas não me arrependi, porque a estrada em terra era boa e comi poeira pouca apenas duas vezes. Não era o caso que comecei a descrever acima, para chegar a Guaraci. Ali a alternativa em terra significava descer e empurrar a bicicleta muitas vezes no plano, por causa do piso em pó. A diferença de velocidade entre as alternativas terra/asfalto estava na casa dos 1:5. Ao tempo que andava 1Km na terra, andaria 5Km no asfalto. E naquela hora em que o sol já ia alto e a minha água já havia acabado, o que eu mais desejava era avistar a torre da igreja de Guaraci.
Chegando no Guaraci, me deparo com a placa “Perímetro Urbano”. No trevo da entrada para o bairro do Pedregal, um loteamento isolado à beira da represa. Tudo bem. Só que o trevo passou, não vi bairro nenhum, e a zona rural continuava. Bem lá na frente, outra placa “Perímetro Urbano”: era por causa de um loteamento novo, que, por enquanto, só tem as ruas e os postes. Mais zona rural. Finalmente, o perímetro urbano, acompanhado, óbvio, de outra placa “Perímetro Urbano”. Eita necessidade de urbanidade! Eita vontade de ser urbano! Ora, meu povo: vamo dexá de sê besta. É uma cidadinha de 10 mil habitantes. Lá do seu centro você vê as vaquinhas pastando logo ali, pra qualquer lado que se olhe. Aquilo ali não vai ter perímetro urbano nunca, minha gente, por mais placas que se plante. É um burgo rural, pronto. O espírito reinante é o do humano do campo, gente com a botina suja de terra. Não necessariamente rude, não necessariamente bronca. Mas sempre sem aquela fineza vazia do ser urbano. Tenho comigo que o sujeito rural leva vantagem nessa comparação, por que não conheço nada mais triste de tolerar que um tipo finório farto de boas maneiras. Contudo, o povo dali de Guaraci e similares move batalhões para se passar por citadino, toda hora dando ensejo ao ridículo.
A nova moda em Guaraci, agora, é a lagoa. É: há uma lagoa natural que a cidade começa a envolver. Coisa de uns 3 hectares, em formato oval. Construíram uma avenida asfaltada e caprichada em volta e há terrenos vazios, quase todos, à espera da elite guaraciense. Há até um edifício de 4 ou 5 andares em construção. Logo será bem chique dizer que tem um apartamento em Guaraci, na Lagoa... enfim, lembra uma certa lagoa numa certa zona sul de uma cidade maravilhosa... aquela do poeta Bandeira. A divisão em classes sociais nesses pequenos burgos rurais é mais cruel do que nas grandes cidades, porque são quase todos pobres, mas uns são mais pobres que outros...Estão muito próximos, todos conhecem todos – a fundo – e, entretanto, dividem-se como se a desigualdade fosse a razão da existência.
Mas, já deduziram, em Guaraci cheguei cedo porém cansado por dentro e esculhambado por fora. Minha pele e minhas roupas denunciavam os dois dias perdidos naquele escanteio de rio onde sol, suor e terra em pó no piso e no ar reinaram sobre o viajante. Num reservado interno do hotel eu aguardava a mocinha arrumar meu quarto, quando a vi entrar num cômodo que parecia uma lavanderia e comandar modernas máquinas. Então concebi a heresia de fazer meu rico dinheirinho trabalhar por mim e pagar para lavar minha roupa do corpo, que montava em quatro peças. E o fiz, pela primeira vez na vida. Acho que não devemos delegar a ninguém as tarefas mais corriqueiras da nossa vida. Se não delegamos a ninguém as tarefas de fazer amor e jogar bola, de fazer ginástica, de tomar banho; então não devemos permitir que outro senão nós mesmos lavem nossa roupa, cozinhem nossa comida, limpem nossa casa. Contudo, quanto mais existe o rico dinheirinho, maior a possibilidade de pecado. E mesmo a mocinha me avisando que era sete reais a peça – que achei um absurdo de caro – não recuei. Meu corpo antes de mim já havia delegado aquela tarefa, não era mais possível realizá-la eu próprio. E é assim que começa a corrupção: com pequenas concessões. Sei bem da minha pequenez diante do carro desembestado da história. Se nada acontecer para mudar seu rumo, daqui a pouco só nos restará o movimento dos olhos, a comandar falsas janelas de pixels que nos mostram realidades imaginadas... por gente de fora. Porque já é realidade o sexo virtual e o atleta de sofá; as entregas de comida em domicílio e pratos, talheres e roupas descartáveis. Tudo já conspira para o desmovimento, o lixo e a gordura. Enfim, acabei achando barato o preço da minha imobilidade. É bem tentador saber da possibilidade da nossa roupa passar do sujo para o limpo enquanto dormimos...
Em Guaraci, visitei por dentro a igreja matriz, onde fui batizado, crismado e casado. Então coloquei na balança os meus múltiplos e pesados cabedais. Então, que bom, se hoje nego tudo isso e não odeio ninguém. Constato, aliviado, que a negação dos rituais consagrados não gerou qualquer sentimento negativo. Continuo me sentindo em casa ali dentro daquela igreja. É o meu povo. Um povo que me impregnou de sua íntima e verdadeira essência, que é a de adotar regras somente para alterá-las. Por exemplo: fui jantar no restaurante Guaraci, a moça só estava fazendo marmitas; avisei a ela que estava no hotel ao lado, que queria jantar, mas, sendo assim, eu levaria uma marmita. Ela então me perguntou se eu não aceitaria um prato feito, para comer ali, porém fecharia a porta, para que ninguém a acusasse de atender um e não atender outros... Sim, parece um povo simplório. Mas as aparências enganam... Por trás daquele povo que vai à missa e conta os pecados ao padre estão pessoas pragmáticas e manhosas: mas não mafiosas! Diria que as balizas principais desse povo são simplicidade e objetividade e isso implica um sentimento de igualdade e pertencimento muito grande, apesar das camadas superficiais de pequenas aristocracias locais. Essas aristocracias locais são como brincadeira de criança, perto daquelas que se veem nas zonas urbanas de verdade, as grandes cidades. Para mim, o fato de negar algumas tradicionais práticas dessa gente e continuar me identificando com ela é o maior indício de que o que realmente conta, o que realmente importa, está invisível abaixo da camada de verniz do bom-mocismo reinante.
Terra moída, terra em pó, pó fino – finíssimo -, como se um espírito de porco tivesse esparramado chocolate em pó pela estrada. Não, não é areia. É argila. Argila seca triturada por moendas de pesados 34 pneus, que moem a terra dia e noite. O solo seria firme, duro, parecido com uma camada de concreto asfáltico, só que avermelhada, se passasse somente caminhões normais. Mas passam muitas e muitas carretas de cana, dia e noite – que a colheita funciona dia e noite sem parar. O que chamamos de carreta é, na verdade, um conjunto de duas carretas e um cavalo que as traciona (cavalo mecânico, aquele caminhão sem carroceria...). A carreta de trás possui 4 eixos, com 4 pneus cada eixo; a carreta da frente possui 2 eixos com 4 pneus cada eixo; e o cavalo mecânico possui 2 eixos de 4 pneus cada e 1 eixo – o dianteiro – de 2 pneus. São 34 pneus num bólido de 30 metros de não sei quantas toneladas. Quando passa, a terra treme. O ciclista sofre com a argila suspensa, que congestiona as vias respiratórias e embaça a vista, e sofre com a argila moída espalhada na pista, que não deixa a bicicleta andar. No plano e até na descida, muitas vezes tive de descer e empurrar. E aquilo amarra tanto a rodagem do pneu fino das bicicletas, que é pesado até para empurrar. E enquanto empurro, o tênis afunda naquele formidável colchão de pó, e terra moída em forma de pequenas nuvens rasteiras entram pelas canelas e vão tingindo a pele pelas frestas e microfrestas, até onde dá...
Parece que há um protocolo, firmado não sei por quem, em que as usinas de cana se comprometem a regar a estrada, para que a poeira não se levante. Só vi isso lá na frente, em Santa Albertina, em alguns trechos usados pela Usina Colombo. Nesse trecho entre Colômbia e Guaraci, não vi isso não. Vi muitas nuvens se levantando ao longe e se movendo em minha direção, à medida que a carreta avançava. Então eu olhava desanimado para o colchão de argila e auscultava o vento, para escolher o lado da estrada oposto a ele. Só que às 5h da tarde, naquelas paragens, não costuma ter vento. É uma hora de leseira, como muitos costumam dizer. Entre 5 e 6h da tarde, em julho, o sol se põe, tingindo de vermelho o céu e o ar. Sim, dá pra tingir o ar carregado de argila suspensa. Sendo que a argila já é meio alaranjada. Seria bonito, se não fosse terrível, aquela nuvem que sufoca e suja e não se dissipa nunca.
Então pense num cidadão abilolado nesse mundo, perdido na malha fina de estradas vicinais, tendo de enfrentar um dilema em cada bifurcação, uma suspeita em cada saída de fazenda e ninguém para perguntar. Porque é um mundo naturalmente deserto, de poucas casas, de pouca gente. Andamos quilômetros e quilômetros sem ver ninguém, sem encontrar nenhum carro. Nessas situações, as carretas são até bem-vindas, porque podemos pará-las para pedir informação. Mas há momentos em que realmente precisamos e não aparece ninguém.
Dormi dentro da barraca, no meio desse mundo, na borda de um capão de mato, sobre um capinzal alto que tornou a noite sobre o isolante térmico mais macia. Nas proximidades, cerca de 200 m, alguém instalou umas 10 colmeias para explorar o mel das abelhas. Ao lado, um carreador pouco frequentado e um canavial baixo. E no céu, a lua cheia clareava tudo, aquela claridade leitosa que dá um tom especial à paisagem – uma paisagem lunar, poderíamos dizer. As árvores e os postes e as gentes e os bichos ficam diferentes de quando iluminados pelo sol, embora bem visíveis. Uma imaginação fértil consegue ver fantasmas. Enamorados ficam mais lânguidos. E um ciclista cansado dorme feito uma anta, apesar da lambança dos grilos e dos sapos. Porque bem perto nascia um corguinho, confirmei no outro dia, o que só enriquece mais a sinfonia de insetos de toda ordem e invisíveis pequenos animais e aves que conversam, cantam e gritam o tempo todo em toda mata.
Na barraca a gente dorme cedo, mas acorda cedo, também. Muito cedo. E levantamos acampamento o mais rápido possível, antes que clareie o dia. Não se perde tempo com banheiro, troca de roupas, etc. Só comi um dos dois sanduíches de pão com mortadela que havia reservado e, usando a lanterna de cabeça, saí pedalando no lusco-fusco da manhã. O oriente já se tingia de vermelho. Eu estava perto de um bairro chamado Brejinho em que há uma igreja e uma venda e duas casas. Eu seguia a rota sugerida pelo GPS do Google. Então passou uma carreta e o condutor mostrou muita segurança para informar que o caminho não era aquele. Eu acreditei, e minha crença acrescentou andanças perdidas de uns 20 Km a mais. Em verdade, eu temia que o Google me colocasse numa fria maior ainda que aquela lá da proibida fazenda de laranja da Dreyfus, conforme já narrei anteriormente. É claro que essa rota abandonada poderia conter, à frente, largas possibilidades de me perder também, como me perdi na nova rota que assumi, por sugestão do motorista da carreta.
Você quer que eu diga, afinal, qual o caminho certo? Eu lhe respondo: impossível. Nem olhando no mapa tenho certeza. Por fim, me vi empurrando a bicicleta sobre um canavial recém colhido, em meio a colhedeiras, tratores, carretas, e respectivos trabalhadores. Uma equipe consertava um monstro emperrado parecido com uma colhedeira. Me aproximei e pedi informações. Um dos mecânicos, baixinho, simpático, foi logo dizendo:
- Vixe! Cê tá aqui na bêra do Rio Grande. Cê tem di vortá!
Mas nessa hora eu ainda tinha um sanduíche de mortadela pra queimar, e mais de meia garrafa d’água daquelas de um litro e meio. E ainda estava descansado. Ainda bem, porque o baque foi duro. Ele deu algumas dicas nada seguras e eu continuei o meu processo de tentativas e erros e, posteriormente, concluí que foi ali que comecei a ir para o lado certo. Um problema de quem está perdido é que nossos sentidos vão assumindo posições à nossa revelia: por exemplo, vamos numa estrada e, lá na frente, onde ela desaparece, achamos que ela vira para a esquerda; chegando lá, vemos, decepcionados, que a estrada vira para a direita... Algo que, ora me consolava, ora me desolava, era a posição do sol; porque eu, no geral, viajava do leste para o oeste; então, quando no micromundo de um lance de estrada, após uma curva, eu dava com o sol na cara, viajando contra ele, ou seja, para leste, já que estava na parte da manhã, ficava desanimado; o contrário acontecia quando o sol batia em minha nuca. Numa malha de estradas vicinais tão extensa quanto essa que descrevo, a posição do sol ajuda quase nada, porque a lógica de tais estradas é ziguezaguear para desviar de rios e brejos e morros...ao invés de construir pontes e aterros e cortes que as tornariam mais retas e objetivas. Normalmente elas vão, planas, margeando um córrego e, lá na frente, aproveitam-se de um local mais seco, cruzam o vale, voltando do outro lado, ao sabor das conveniências dos sítios e fazendas a serem atendidos. Nunca usei bússola, mas acho que elas só ajudam no mar ou no deserto, onde não há trilhas batidas e devemos sempre andar em linha reta.
Até que enfim, num cruzamento, encontrei uma placa informativa. Está claro que placa informativa naquele mundo é coisa rara. E tal placa informava a direção de meia dúzia de localidades, dentre as quais estava aquela à qual me destinava: Guaraci. Ou seja, serviço completo. Na hora eu comemorei, dizendo que acabava de me achar: pura ilusão. Mais à frente e após algumas bifurcações mudas (aquelas sem nenhuma placa ou dica), descubro que aquela estrada vai em direção ao Prata. O Prata é um bairro à beira do Rio Grande, longe de Guaraci. Na bifurcação seguinte, escolhi a esquerda, pois meus sentidos – aqueles que descrevi acima – diziam que a direita ia para o Prata. E depois de muito andar nesse ramal, encontro um filho de deus que me diz que eu deveria voltar, pegar o caminho da direita... que neste eu estou voltando pra Barretos... Só que lá atrás, perto do Brejinho, eu já havia caído no conto do “voltando pra Barretos” e fui dar na beira do rio num local sem saída e muito acima do desejado. Então inquiri melhor o informante que me disse que por onde eu estava indo também dava, só que era mais longe, mas eu chegaria no asfalto para Guaraci. Ele queria que eu voltasse, mas não voltei não. Após 40Km de terra em pó, a palavra asfalto falou mais alto.
Porque eu, definitivamente, não estava andando. Estava pedalando. Quero dizer, há uma confusão em mim: pedalo, mas tenho mentalidade de andarilho. E as implicações práticas de tal confusão são significativas, em determinadas situações. Na saída de Miguelópolis eu havia passado por dilema semelhante ao descrito no parágrafo anterior. Havia o asfalto e havia um atalho em terra. Meu informante recomendou que, embora mais longe, eu fosse pelo asfalto, porque na terra havia muita poeira. Quando lhe perguntei quanto a mais teria de andar, ele me disse: 18 Km. Ora, 18Km são significativos até para um motorizado. Escolhi o atalho em terra na hora e depois descobri que pelo asfalto a distância era quase a mesma. Mas não me arrependi, porque a estrada em terra era boa e comi poeira pouca apenas duas vezes. Não era o caso que comecei a descrever acima, para chegar a Guaraci. Ali a alternativa em terra significava descer e empurrar a bicicleta muitas vezes no plano, por causa do piso em pó. A diferença de velocidade entre as alternativas terra/asfalto estava na casa dos 1:5. Ao tempo que andava 1Km na terra, andaria 5Km no asfalto. E naquela hora em que o sol já ia alto e a minha água já havia acabado, o que eu mais desejava era avistar a torre da igreja de Guaraci.
Chegando no Guaraci, me deparo com a placa “Perímetro Urbano”. No trevo da entrada para o bairro do Pedregal, um loteamento isolado à beira da represa. Tudo bem. Só que o trevo passou, não vi bairro nenhum, e a zona rural continuava. Bem lá na frente, outra placa “Perímetro Urbano”: era por causa de um loteamento novo, que, por enquanto, só tem as ruas e os postes. Mais zona rural. Finalmente, o perímetro urbano, acompanhado, óbvio, de outra placa “Perímetro Urbano”. Eita necessidade de urbanidade! Eita vontade de ser urbano! Ora, meu povo: vamo dexá de sê besta. É uma cidadinha de 10 mil habitantes. Lá do seu centro você vê as vaquinhas pastando logo ali, pra qualquer lado que se olhe. Aquilo ali não vai ter perímetro urbano nunca, minha gente, por mais placas que se plante. É um burgo rural, pronto. O espírito reinante é o do humano do campo, gente com a botina suja de terra. Não necessariamente rude, não necessariamente bronca. Mas sempre sem aquela fineza vazia do ser urbano. Tenho comigo que o sujeito rural leva vantagem nessa comparação, por que não conheço nada mais triste de tolerar que um tipo finório farto de boas maneiras. Contudo, o povo dali de Guaraci e similares move batalhões para se passar por citadino, toda hora dando ensejo ao ridículo.
A nova moda em Guaraci, agora, é a lagoa. É: há uma lagoa natural que a cidade começa a envolver. Coisa de uns 3 hectares, em formato oval. Construíram uma avenida asfaltada e caprichada em volta e há terrenos vazios, quase todos, à espera da elite guaraciense. Há até um edifício de 4 ou 5 andares em construção. Logo será bem chique dizer que tem um apartamento em Guaraci, na Lagoa... enfim, lembra uma certa lagoa numa certa zona sul de uma cidade maravilhosa... aquela do poeta Bandeira. A divisão em classes sociais nesses pequenos burgos rurais é mais cruel do que nas grandes cidades, porque são quase todos pobres, mas uns são mais pobres que outros...Estão muito próximos, todos conhecem todos – a fundo – e, entretanto, dividem-se como se a desigualdade fosse a razão da existência.
Mas, já deduziram, em Guaraci cheguei cedo porém cansado por dentro e esculhambado por fora. Minha pele e minhas roupas denunciavam os dois dias perdidos naquele escanteio de rio onde sol, suor e terra em pó no piso e no ar reinaram sobre o viajante. Num reservado interno do hotel eu aguardava a mocinha arrumar meu quarto, quando a vi entrar num cômodo que parecia uma lavanderia e comandar modernas máquinas. Então concebi a heresia de fazer meu rico dinheirinho trabalhar por mim e pagar para lavar minha roupa do corpo, que montava em quatro peças. E o fiz, pela primeira vez na vida. Acho que não devemos delegar a ninguém as tarefas mais corriqueiras da nossa vida. Se não delegamos a ninguém as tarefas de fazer amor e jogar bola, de fazer ginástica, de tomar banho; então não devemos permitir que outro senão nós mesmos lavem nossa roupa, cozinhem nossa comida, limpem nossa casa. Contudo, quanto mais existe o rico dinheirinho, maior a possibilidade de pecado. E mesmo a mocinha me avisando que era sete reais a peça – que achei um absurdo de caro – não recuei. Meu corpo antes de mim já havia delegado aquela tarefa, não era mais possível realizá-la eu próprio. E é assim que começa a corrupção: com pequenas concessões. Sei bem da minha pequenez diante do carro desembestado da história. Se nada acontecer para mudar seu rumo, daqui a pouco só nos restará o movimento dos olhos, a comandar falsas janelas de pixels que nos mostram realidades imaginadas... por gente de fora. Porque já é realidade o sexo virtual e o atleta de sofá; as entregas de comida em domicílio e pratos, talheres e roupas descartáveis. Tudo já conspira para o desmovimento, o lixo e a gordura. Enfim, acabei achando barato o preço da minha imobilidade. É bem tentador saber da possibilidade da nossa roupa passar do sujo para o limpo enquanto dormimos...
Em Guaraci, visitei por dentro a igreja matriz, onde fui batizado, crismado e casado. Então coloquei na balança os meus múltiplos e pesados cabedais. Então, que bom, se hoje nego tudo isso e não odeio ninguém. Constato, aliviado, que a negação dos rituais consagrados não gerou qualquer sentimento negativo. Continuo me sentindo em casa ali dentro daquela igreja. É o meu povo. Um povo que me impregnou de sua íntima e verdadeira essência, que é a de adotar regras somente para alterá-las. Por exemplo: fui jantar no restaurante Guaraci, a moça só estava fazendo marmitas; avisei a ela que estava no hotel ao lado, que queria jantar, mas, sendo assim, eu levaria uma marmita. Ela então me perguntou se eu não aceitaria um prato feito, para comer ali, porém fecharia a porta, para que ninguém a acusasse de atender um e não atender outros... Sim, parece um povo simplório. Mas as aparências enganam... Por trás daquele povo que vai à missa e conta os pecados ao padre estão pessoas pragmáticas e manhosas: mas não mafiosas! Diria que as balizas principais desse povo são simplicidade e objetividade e isso implica um sentimento de igualdade e pertencimento muito grande, apesar das camadas superficiais de pequenas aristocracias locais. Essas aristocracias locais são como brincadeira de criança, perto daquelas que se veem nas zonas urbanas de verdade, as grandes cidades. Para mim, o fato de negar algumas tradicionais práticas dessa gente e continuar me identificando com ela é o maior indício de que o que realmente conta, o que realmente importa, está invisível abaixo da camada de verniz do bom-mocismo reinante.
SEXTO DIA: GUARACI A ORINDIÚVA
SEXTO DIA: GUARACI – RIBEIRO DOS SANTOS – ALTAIR – ICÉM – ORINDIÚVA.
Guaraci ficava longe do Rio Grande, coisa de 10 Km ou mais. Então fizeram uma barragem muito alta a jusante, na altura de Fronteira, MG, e Icém, SP, onde o rio era conhecido por Marimbondo, talvez em referência ao zunido que as águas faziam ao passarem apertadas entre margens muito estreitas. E um córrego afluente, convenientemente posicionado, trouxe o Rio Grande para perto de Guaraci. Isso ocorreu em várias cidades ao longo do rio, como Miguelópolis, Cardoso e Mira Estrela, por exemplo. Então tome prainha, loteamento, especulação turística e imobiliária. E nenhum rio. E muita água parada. E peixes de mar nos restaurantes, como o que comi em Rifaina, à beira da represa... Esse fenômeno das águas represadas subirem e irem longe, inundando tudo, é típico da região, com seu relevo ameno, ondulado, quase plano. O inocente corguinho ainda corria uns 10 Km até desaguar no grande rio, no tempo da água corrente. Mas corria devagar, formando poços - onde se nadava e se pescava -, por causa da pouca declividade da região. Qual comum mortal poderia imaginar que um grande muro lá longe, nem tão alto assim, poderia transformar aquele vale do corguinho num mar de água doce? Foi o que consideraram, incrédulos, os caipiras com suas casas de barro construídas na beira do corgo, quando os funcionários de Furnas Centrais Elétricas vieram lhes comunicar que teriam de abandonar a terra, que seria inundada. Isso no tempo da construção da hidrelétrica. Em compensação, dividiram o que sobrou da terra de beira-lago em minúsculos pedaços e os venderam para construção de ranchos, onde outros caipiras passam os finais de semana a se empanturrarem de cerveja e carne: de vaca !
Nesse sexto dia de viagem, subi antiga estrada, em terra, paralela ao tal afluente conveniente de Guaraci. Porém, no sentido contrário ao das águas paradas. O córrego nasce lá perto da rodovia e de Ribeiro dos Santos, povoado distrito de Olímpia, SP, onde tenho história e parentes. Quando criança, morei na cabeceira desse córrego. A estradinha me era familiar. 13 quilômetros. Eram 8h da manhã de um sábado e meus tios aposentados ainda estavam dormindo. O portão de ferro estava aberto e entrei, para bater palma – a campainha de caipira. Não existe campainha naquele mundo. A cachorra enorme e saudável me olhou, muda, me recebendo como amigo. Acho que ela soube reconhecer os traços familiares do dono. Esse irmão de meu pai me tentava, quando criança, a ir aventurar-se no longínquo e misterioso e pouco explorado Mato Grosso, a cavalo, e não se conformava em me ver seguindo seu conselho, tantos anos passados, mas, de bicicleta! Ora, não tem nada mais broxante para um boiadeiro frustrado que uma bicicleta. Então ele, após ligar para minha irmã, para se certificar de que seu sobrinho não fugira de um internato especializado, concordou em tomar café e comer biscoitos comigo, juntamente com minha tia, que já aceitava minha normalidade desde que me viu todo troncho, de barbas brancas e sorriso escancarado. É claro que eu não tinha o endereço dos meus tios – eles moram ali há pouco tempo, vindos do sítio – mas o primeiro senhor que encontrei não somente os conhecia como me informou o lugar exato em que eles moravam. Vá me procurar em São Paulo sem o meu endereço bem escrito e bem detalhado...
Meu destino naquele dia era Orindiúva. Porém, teria de atravessar longa e detalhada história antes: Altair e Icém. Essas duas cidades faziam parte da rota entre minha casa e a casa dos meus avós maternos, que eu, quando criança, fazia junto com meus pais e irmãos de trem e de ônibus. Minha família paterna se desenvolveu aí nesse eixo, num tempo em que não havia a rodovia da laranja – porque nascia em Bebedouro, terra da laranja -, mas havia a estrada de ferro de bitola estreita e maria-fumaça, ramal que saía de Bebedouro e ia até Palestina. Depois, início dos anos 1960, vi as máquinas abrirem essa rodovia, nas proximidades do município de Severínia, que se você olhar no mapa vai ver que fica em linha com Bebedouro e Paulo de Faria, seu trajeto completo. Tal rodovia veio para substituir a ferrovia, que foi desativada poucos anos depois. Então, vejam que privilégio, fui um menino de esperar trem em estação, marias-fumaças esbaforidas que me assustavam, vagões de madeira, faíscas da lenha queimada nas locomotivas entrando pelas janelas dos vagões e provocando pequenos buracos na roupa de quem era atingido; e vi as motoscrappers rasgando a terra – cortando nos morros para despejar nos vales – e construindo a rodovia. Porque hoje nenhum menino vê a abertura de um caminho novo: vê, quando muito, a chegada do asfalto num caminho velho.
Pois bem, várias equipes realizavam melhorias na rodovia, enquanto eu ia tranquilo por excelentes acostamentos. Altair está 3Km distante da rodovia, coisa que para um ciclista cansado faz diferença: 3 pra ir, 3 pra voltar. Fotografei a igreja e continuei a viagem. Icém é o nome atual de antigo povoado chamado Água Doce. Ali almocei bem e ainda comi um delicioso pudim de coco como sobremesa, na padaria onde parei para comprar água. Pura gulodice, pensei que ia passar mal. Mas meu estômago conseguiu digerir tudo, e meu fígado não entrou em pane com tanta sacarose... Acho que ali consegui repor meu estoque de açúcar e um pouco mais... lembrando que eu já vinha abusando das coca-colas açucaradas que, apesar de tanto – dizem que levam mais de 10 colheres de sopa de açúcar por meio litro – parece que não repunham em carboidrato simplório a energia gasta.
Orindiúva é a terra dos meus avós maternos. Conheço-a desde criança. Aliás, na última vez que havia estado na cidade eu ainda era criança. Ali, coisa de duas vezes por ano, eu me integrava à turma de meu tio caçula, pouco mais velho que eu, e vivia a diferente rotina dos moleques da vila, e conhecia outros mitos e outras lendas que todo grupo de crianças forja, e conhecia novas regras do futebol, e novas expressões chulas, e ia ao cinema ver Hércules, Maciste e Giuliano Gemma: deuses gregos, gladiadores romanos e mocinhos e bandidos do oeste norte-americano à italiana (westerns spaghetti). Acontece que, enquanto estive ausente, instalaram uma Usina de Cana no município... E como todo equipamento avançado do capitalismo – tal indústria criou vários empregos bem remunerados e forjou uma classe média na vila. Enquanto isso, os impostos gerados pela comercialização da cana de toda a região e a produção de etanol e talvez, açúcar, eram canalizados para a prefeitura da cidade, cujo prefeito tal usina ajudava a eleger... Enfim, a cidade até que não cresceu tanto, mas construíram outra por cima da antiga. As casas antigas foram drasticamente reformadas ou demolidas, praças foram totalmente remodeladas; investiu-se em escolas e lazer para a população. Com o aumento da circulação de dinheiro, o comércio se expandiu e se sofisticou, a especulação imobiliária se implantou e a violência urbana de pequenos furtos explodiu, para desassossego dos antigos moradores e raiva daqueles que não se beneficiam nem indiretamente do progresso etanólico. Porque antes havia dois ou três fazendeiros ricos e todos os demais eram pobres. Agora há a famosa classe média, que gera consumismo de um lado e inconformismo do lado da expressiva parcela da população que continua não podendo comprar. E vejam como é sintomático o nome do hotel em que me hospedei na cidade: Exclusiva Palace Hotel. É claro que foi a maior diária que paguei durante toda a viagem.
O certo é que me perdi em Orindiúva. Não consegui achar o centro, por minha própria conta, como fazia nas demais cidades de igual porte e nunca dantes visitadas. É interessante como os preconceitos limitam nossa capacidade visual e nossa razão. Eu tinha uma cidade na cabeça, e dela me lembrava muito bem: a praça da matriz, o campo de futebol, a rua do centro telefônico, as colinas adjacentes, o cemitério, a inclinação do terreno... Porém, como já dito, veio a nova realidade sócio-econômica da usina de etanol e soterrou meus conceitos. Conceitos que me dirigiam, entre ruas que pareciam mais estreitas sob casas muito mais altas. Continua uma cidade pequena, de menos de 10 mil habitantes. Se eu entrasse ali zerado – sem nenhum prévio conceito sobre a cidade – eu andaria por ela facilmente e encontraria o centro sem dificuldade, como fiz em Igarapava e Miguelópolis, por exemplo, cidades mais que duas vezes maiores. E, enquanto andava, boquiaberto com a mudança, ia vendo as placas indicativas dos bairros. É, a cidade minúscula já se divide em bairros, parece que isso ajuda na comercialização dos imóveis. E me assustando com as enormes e barulhentas caminhonetas e seus sistemas de som no mais alto volume, que em todos os tempos e lugares sempre haverá pessoas com necessidades especiais de serem notadas; e se, para tal, outrora, usavam de fogosos cavalos e arreios paramentados com brilhantes metais e tilintantes argolas, hoje usam o que é oferecido e chancelado pela indústria do consumo: para tanto, há TV, smartphone e até outdoor na cidade.
Ainda na noite de sábado, visitei a beira do Rio Grande, levado pelo Celso, grande amigo dos tempos de república em S.Paulo, que estava passando férias lá na sua Orindiúva natal. Um grande trecho de rio de verdade, que sobrou entre todas as represas. Uns 30 Km de água corrente, entre a barragem de Marimbondo e o remanso da represa de Água Vermelha, rio abaixo. Um rio enorme e compacto de 700 metros de largura e muita sustança de águas resolutas, correnteza discreta mas consistente, indicativos de um canal não só largo mas profundo, com mata ciliar de ambos os lados, sendo que do lado mineiro tal mata é mais preservada. Do lado paulista, uma confusão de casas de veraneio, restaurantes e pequenos barcos, numa arquitetura distributiva muito parecida com algumas ruas tortas e vielas das praias de Ubatuba. Tais casas são chamadas de rancho, sendo que ali é verão o ano inteiro e mais um pouco. A caótica distribuição dos terrenos e do sistema viário não se explica pelas deformações e obstáculos do terreno, como em muitas praias do litoral norte paulista, mas pelo histórico de ocupação, creio. Antes desse costume de levar a família toda para a beira do rio, e passar o final de semana na boa-vida, muitos caipiras iam pescar à noite, somente homens machos... Tanta macheza foi, com o tempo, carecendo de algum conforto; então construíam ranchos de verdade, com varas cortadas ali mesmo, e cobertos de capim. Nesses ranchos, os mais fracos ou menos pescadores se abrigavam nas madrugadas úmidas e cheias de olhos de bichos à espreita e mosquitos por todo lado. Eram poucos, em terras de ninguém. Tal ocupação não carecia de racionalidade, falta essa que resultou na muvuca atual.
Guaraci ficava longe do Rio Grande, coisa de 10 Km ou mais. Então fizeram uma barragem muito alta a jusante, na altura de Fronteira, MG, e Icém, SP, onde o rio era conhecido por Marimbondo, talvez em referência ao zunido que as águas faziam ao passarem apertadas entre margens muito estreitas. E um córrego afluente, convenientemente posicionado, trouxe o Rio Grande para perto de Guaraci. Isso ocorreu em várias cidades ao longo do rio, como Miguelópolis, Cardoso e Mira Estrela, por exemplo. Então tome prainha, loteamento, especulação turística e imobiliária. E nenhum rio. E muita água parada. E peixes de mar nos restaurantes, como o que comi em Rifaina, à beira da represa... Esse fenômeno das águas represadas subirem e irem longe, inundando tudo, é típico da região, com seu relevo ameno, ondulado, quase plano. O inocente corguinho ainda corria uns 10 Km até desaguar no grande rio, no tempo da água corrente. Mas corria devagar, formando poços - onde se nadava e se pescava -, por causa da pouca declividade da região. Qual comum mortal poderia imaginar que um grande muro lá longe, nem tão alto assim, poderia transformar aquele vale do corguinho num mar de água doce? Foi o que consideraram, incrédulos, os caipiras com suas casas de barro construídas na beira do corgo, quando os funcionários de Furnas Centrais Elétricas vieram lhes comunicar que teriam de abandonar a terra, que seria inundada. Isso no tempo da construção da hidrelétrica. Em compensação, dividiram o que sobrou da terra de beira-lago em minúsculos pedaços e os venderam para construção de ranchos, onde outros caipiras passam os finais de semana a se empanturrarem de cerveja e carne: de vaca !
Nesse sexto dia de viagem, subi antiga estrada, em terra, paralela ao tal afluente conveniente de Guaraci. Porém, no sentido contrário ao das águas paradas. O córrego nasce lá perto da rodovia e de Ribeiro dos Santos, povoado distrito de Olímpia, SP, onde tenho história e parentes. Quando criança, morei na cabeceira desse córrego. A estradinha me era familiar. 13 quilômetros. Eram 8h da manhã de um sábado e meus tios aposentados ainda estavam dormindo. O portão de ferro estava aberto e entrei, para bater palma – a campainha de caipira. Não existe campainha naquele mundo. A cachorra enorme e saudável me olhou, muda, me recebendo como amigo. Acho que ela soube reconhecer os traços familiares do dono. Esse irmão de meu pai me tentava, quando criança, a ir aventurar-se no longínquo e misterioso e pouco explorado Mato Grosso, a cavalo, e não se conformava em me ver seguindo seu conselho, tantos anos passados, mas, de bicicleta! Ora, não tem nada mais broxante para um boiadeiro frustrado que uma bicicleta. Então ele, após ligar para minha irmã, para se certificar de que seu sobrinho não fugira de um internato especializado, concordou em tomar café e comer biscoitos comigo, juntamente com minha tia, que já aceitava minha normalidade desde que me viu todo troncho, de barbas brancas e sorriso escancarado. É claro que eu não tinha o endereço dos meus tios – eles moram ali há pouco tempo, vindos do sítio – mas o primeiro senhor que encontrei não somente os conhecia como me informou o lugar exato em que eles moravam. Vá me procurar em São Paulo sem o meu endereço bem escrito e bem detalhado...
Meu destino naquele dia era Orindiúva. Porém, teria de atravessar longa e detalhada história antes: Altair e Icém. Essas duas cidades faziam parte da rota entre minha casa e a casa dos meus avós maternos, que eu, quando criança, fazia junto com meus pais e irmãos de trem e de ônibus. Minha família paterna se desenvolveu aí nesse eixo, num tempo em que não havia a rodovia da laranja – porque nascia em Bebedouro, terra da laranja -, mas havia a estrada de ferro de bitola estreita e maria-fumaça, ramal que saía de Bebedouro e ia até Palestina. Depois, início dos anos 1960, vi as máquinas abrirem essa rodovia, nas proximidades do município de Severínia, que se você olhar no mapa vai ver que fica em linha com Bebedouro e Paulo de Faria, seu trajeto completo. Tal rodovia veio para substituir a ferrovia, que foi desativada poucos anos depois. Então, vejam que privilégio, fui um menino de esperar trem em estação, marias-fumaças esbaforidas que me assustavam, vagões de madeira, faíscas da lenha queimada nas locomotivas entrando pelas janelas dos vagões e provocando pequenos buracos na roupa de quem era atingido; e vi as motoscrappers rasgando a terra – cortando nos morros para despejar nos vales – e construindo a rodovia. Porque hoje nenhum menino vê a abertura de um caminho novo: vê, quando muito, a chegada do asfalto num caminho velho.
Pois bem, várias equipes realizavam melhorias na rodovia, enquanto eu ia tranquilo por excelentes acostamentos. Altair está 3Km distante da rodovia, coisa que para um ciclista cansado faz diferença: 3 pra ir, 3 pra voltar. Fotografei a igreja e continuei a viagem. Icém é o nome atual de antigo povoado chamado Água Doce. Ali almocei bem e ainda comi um delicioso pudim de coco como sobremesa, na padaria onde parei para comprar água. Pura gulodice, pensei que ia passar mal. Mas meu estômago conseguiu digerir tudo, e meu fígado não entrou em pane com tanta sacarose... Acho que ali consegui repor meu estoque de açúcar e um pouco mais... lembrando que eu já vinha abusando das coca-colas açucaradas que, apesar de tanto – dizem que levam mais de 10 colheres de sopa de açúcar por meio litro – parece que não repunham em carboidrato simplório a energia gasta.
Orindiúva é a terra dos meus avós maternos. Conheço-a desde criança. Aliás, na última vez que havia estado na cidade eu ainda era criança. Ali, coisa de duas vezes por ano, eu me integrava à turma de meu tio caçula, pouco mais velho que eu, e vivia a diferente rotina dos moleques da vila, e conhecia outros mitos e outras lendas que todo grupo de crianças forja, e conhecia novas regras do futebol, e novas expressões chulas, e ia ao cinema ver Hércules, Maciste e Giuliano Gemma: deuses gregos, gladiadores romanos e mocinhos e bandidos do oeste norte-americano à italiana (westerns spaghetti). Acontece que, enquanto estive ausente, instalaram uma Usina de Cana no município... E como todo equipamento avançado do capitalismo – tal indústria criou vários empregos bem remunerados e forjou uma classe média na vila. Enquanto isso, os impostos gerados pela comercialização da cana de toda a região e a produção de etanol e talvez, açúcar, eram canalizados para a prefeitura da cidade, cujo prefeito tal usina ajudava a eleger... Enfim, a cidade até que não cresceu tanto, mas construíram outra por cima da antiga. As casas antigas foram drasticamente reformadas ou demolidas, praças foram totalmente remodeladas; investiu-se em escolas e lazer para a população. Com o aumento da circulação de dinheiro, o comércio se expandiu e se sofisticou, a especulação imobiliária se implantou e a violência urbana de pequenos furtos explodiu, para desassossego dos antigos moradores e raiva daqueles que não se beneficiam nem indiretamente do progresso etanólico. Porque antes havia dois ou três fazendeiros ricos e todos os demais eram pobres. Agora há a famosa classe média, que gera consumismo de um lado e inconformismo do lado da expressiva parcela da população que continua não podendo comprar. E vejam como é sintomático o nome do hotel em que me hospedei na cidade: Exclusiva Palace Hotel. É claro que foi a maior diária que paguei durante toda a viagem.
O certo é que me perdi em Orindiúva. Não consegui achar o centro, por minha própria conta, como fazia nas demais cidades de igual porte e nunca dantes visitadas. É interessante como os preconceitos limitam nossa capacidade visual e nossa razão. Eu tinha uma cidade na cabeça, e dela me lembrava muito bem: a praça da matriz, o campo de futebol, a rua do centro telefônico, as colinas adjacentes, o cemitério, a inclinação do terreno... Porém, como já dito, veio a nova realidade sócio-econômica da usina de etanol e soterrou meus conceitos. Conceitos que me dirigiam, entre ruas que pareciam mais estreitas sob casas muito mais altas. Continua uma cidade pequena, de menos de 10 mil habitantes. Se eu entrasse ali zerado – sem nenhum prévio conceito sobre a cidade – eu andaria por ela facilmente e encontraria o centro sem dificuldade, como fiz em Igarapava e Miguelópolis, por exemplo, cidades mais que duas vezes maiores. E, enquanto andava, boquiaberto com a mudança, ia vendo as placas indicativas dos bairros. É, a cidade minúscula já se divide em bairros, parece que isso ajuda na comercialização dos imóveis. E me assustando com as enormes e barulhentas caminhonetas e seus sistemas de som no mais alto volume, que em todos os tempos e lugares sempre haverá pessoas com necessidades especiais de serem notadas; e se, para tal, outrora, usavam de fogosos cavalos e arreios paramentados com brilhantes metais e tilintantes argolas, hoje usam o que é oferecido e chancelado pela indústria do consumo: para tanto, há TV, smartphone e até outdoor na cidade.
Ainda na noite de sábado, visitei a beira do Rio Grande, levado pelo Celso, grande amigo dos tempos de república em S.Paulo, que estava passando férias lá na sua Orindiúva natal. Um grande trecho de rio de verdade, que sobrou entre todas as represas. Uns 30 Km de água corrente, entre a barragem de Marimbondo e o remanso da represa de Água Vermelha, rio abaixo. Um rio enorme e compacto de 700 metros de largura e muita sustança de águas resolutas, correnteza discreta mas consistente, indicativos de um canal não só largo mas profundo, com mata ciliar de ambos os lados, sendo que do lado mineiro tal mata é mais preservada. Do lado paulista, uma confusão de casas de veraneio, restaurantes e pequenos barcos, numa arquitetura distributiva muito parecida com algumas ruas tortas e vielas das praias de Ubatuba. Tais casas são chamadas de rancho, sendo que ali é verão o ano inteiro e mais um pouco. A caótica distribuição dos terrenos e do sistema viário não se explica pelas deformações e obstáculos do terreno, como em muitas praias do litoral norte paulista, mas pelo histórico de ocupação, creio. Antes desse costume de levar a família toda para a beira do rio, e passar o final de semana na boa-vida, muitos caipiras iam pescar à noite, somente homens machos... Tanta macheza foi, com o tempo, carecendo de algum conforto; então construíam ranchos de verdade, com varas cortadas ali mesmo, e cobertos de capim. Nesses ranchos, os mais fracos ou menos pescadores se abrigavam nas madrugadas úmidas e cheias de olhos de bichos à espreita e mosquitos por todo lado. Eram poucos, em terras de ninguém. Tal ocupação não carecia de racionalidade, falta essa que resultou na muvuca atual.
SÉTIMO DIA: ORINDIÚVA A CARDOSO
SÉTIMO DIA: ORINDIÚVA – PAULO DE FARIA – RIOLÂNDIA – CARDOSO.
De repente um vulto ao longe começou a se insinuar entre as folhas afiadas das canas. Era coisa do homem, construída, parecia... mais outro vulto igual e mais outro. Três vultos ao longe, três torres parecidas com essas do jogo de xadrez, e então já adivinhei os muros e a quarta torre e a cerca elétrica sobre os muros, e os muros de concreto à prova de britadeira e bomba e os vigias, e cada vigia com uma carabina em punho... E já imaginei o rei e a rainha e o bispo. Agora, longe da cena, confundo a ordem das lembranças que me assaltaram então, enquanto vislumbrava sobre o canavial balouçante o castelo inexpugnável: me foge a ordem em que os peões entraram em minhas suposições. Mas lembro que eles foram pouco a pouco invadindo o tabuleiro e quando cheguei mais perto, coisa de 300 metros, que é a distância menor entre a fortaleza e a estrada, eu imaginava o interior invisível do presídio tomado pelos peões, porém imobilizados: sem esperança de qualquer avanço: jamais chegariam ao final do tabuleiro, jamais seriam nobres; sem esperança de qualquer vitória, impossibilitados de qualquer movimento, como se o quadrilátero murado delimitasse e cerceasse uma única casa do imenso tabuleiro, do qual eu era uma peça, no qual eu me movimentava.
Eu havia tomado um atalho em terra na saída de Orindiúva, que ia dar na rodovia lá na frente, coisa de 10 Km, em direção a Paulo de Faria. Saí cedo, era domingo, a cidade dormia. Na estrada de terra não passava ninguém e havia pouca terra em pó e areia que atrapalhasse os pneus da bicicleta. Era cedo, mas já fazia calor, como de praxe no norte do estado, quase todos os dias do ano. A rodovia se aproximava e, após ela, sob o sol baixo, eu adivinhava a baixada do Rio Grande de verdade, de água corrente ali naquele trecho. Foi quando vi o presídio. Não estava avisado, por isso levei um susto. Não de medo, mas de desgosto. Creio que o desgosto assusta, sim, em algumas situações. Creio que a visão de um presídio no meio do nada, na zona rural, é uma dessas situações. O presídio fica na beira da rodovia, creio, a julgar pelo traçado confluente dela com a estradinha em que eu estava, pois ambas se encontraram mais à frente, uns 2 Km. Não sei, porém, se quem passa na rodovia de carro vê o enorme quadrilátero. E, apesar de parecer estar mais perto da zona urbana de Orindiúva, talvez ali já seja território do município de Paulo de Faria. E o presídio pode ainda estar em construção – os sites da administração penitenciária do estado informam que há um CDP – Centro de Detenção Provisória no Km 528 da SP-322 com capacidade para cerca de 850 presos, município de Paulo de Faria. No mapa do Google a área é um verde canavial. Se você, ó viajante-pesquisador, for depender do mapa do Google, você está mal arranjado...
Cheguei em Paulo de Faria a tempo de pegar o povo saindo da missa das oito. Parada rápida para a foto clássica da fachada da igreja matriz. A Rodovia da Laranja – SP-322 – termina logo mais. Seu prolongamento asfaltado, de 4 Km, vai dar no Rio Grande – a tradicional prainha que quase todo município próximo ao Rio Grande tem. A balsa estava no seco, em manutenção. Ali há um porto e uma balsa, com travessia para o município mineiro de Itapagipe. Dois senhores, sentados nas raízes de uma sete-copas, conversavam. Lamentei com eles que não poderia atravessar.
- A gente leva o senhor – falou baixinho um deles, me apontando as canoas na água a vinte metros de onde estávamos.
- E eu sô doido de entrá numa canoa dessa – respondi sorrindo.
- A gente leva em segurança – assegurou ele, sério e baixo.
Fiquei sem jeito e respondi que não queria atravessar não, só queria conhecer e já ia voltar. Voltei os quatro quilômetros – e aí já se foram oito de desvio – e continuei a viagem para Riolândia, na rodovia que faz um ângulo de noventa graus com a SP-322 em que eu transitava desde Ribeiro dos Santos, no dia anterior. Se até então eu havia me dirigido ao norte, agora eu me dirigia ao oeste. A novidade é que a partir daí a estrada não tem acostamentos. Sorte que o movimento também não é grande. Ia na faixa da esquerda, na contramão. Quando vinha um veículo ao meu encontro, eu mudava para a faixa da direita, caso não viesse outro veículo no mesmo sentido. Raramente dois veículos se cruzavam junto comigo. Quando isso acontecia, era obrigado a parar fora da pista.
A subidona era forte e longa, para os padrões do ameno relevo da região, de longos trechos planos e leves ondulações. Enfim, dobrei o cume do morro: aí é só alegria. Alegria que se repete com intervalos regulares, na rodovias que, grosso modo, são compostas de subidas e descidas de igual distância e declividade. No cume da lombada a gente descansa e põe na banguela e seja o que deus quiser. Porque a bicicleta adquire grande velocidade. Se o asfalto estiver bom, não tem problema. Porém, se lá embaixo, no auge do embalo, houver um buraco ou uma lombada, ou qualquer irregularidade significativa no piso, o perigo de desestabilização é grande. E cair de bicicleta em alta velocidade não é bom negócio... Enfim, são e salvo na baixada, começa de novo e infinitas vezes a árdua e lenta pedalada para vencer outra subida. A frequência cardíaca vai lá em cima. O esforço zero da descida passa rápido; o esforço máximo da subida não acaba nunca. Daí porque viajar de bicicleta é mais cansativo que viajar a pé. O andarilho caminha sempre no mesmo ritmo, a 5Km/h; a frequência cardíaca varia pouco – elevando-se moderadamente nas subidas e atingindo níveis mais fortes apenas naquelas poucas mais íngremes. Seis horas de pedalada cansam mais que 10 horas de caminhada.
Era hora do almoço quando entrei em Riolândia. Antes de se emancipar e se tornar município, a povoação se chamava Viadinho do Porto. Porque havia e ainda há um porto com balsa, no Rio Grande. Naquele tempo, era rio de verdade, de águas correntes; agora não é mais rio, é represa: águas paradas desde a barragem de Água Vermelha, no município de Ouroeste, quase cem quilômetros rio abaixo. Não é a terra do rio: é a terra da represa. Só que a represa é enorme, banha muitos municípios, não é de ninguém. Mas a cidade poderia ser a terra da represa: represolândia. Sendo que, aos domingos, ninguém almoça no comércio. Mas onde há turistas, há almoço comercial, mesmo aos domingos. Quando já estava quase perdendo a esperança, um senhor me sugeriu o hotel. Também achei boa a ideia e fui lá. O hotel recebe turistas de São Paulo, principalmente aos sábados e domingos, dias de visitas nos dois presídios que há no município. Portanto, havia almoço sim. Os turistas fretam ônibus, havia dois parados em frente. Sim, em Riolândia conheci mais uma modalidade turística: turismo de visitantes de presídios. Os familiares que moram longe e aproveitam o final de semana para visitar seus parentes presos. Fazem-no com frequência, já são íntimos dos funcionários do hotel.
Não era incomum comer num lugar e tomar a sobremesa em outro. Claro que eu não o fazia deliberadamente, porque creio que não sou controlado pela comida, mas, se a oportunidade se apresentava, eu aproveitava, já que tudo que comesse ainda era pouco diante do gasto calórico da viagem. E o norte-noroeste paulista é a terra das sorveterias. Em todas cidades, em volta da praça há três, quatro sorveterias. A moça gordinha não atendia ninguém, ainda era muito cedo para tomar sorvete. Mais tarde as mesas seriam todas ocupadas, tomar sorvete naquela terra é programa independente e de gente grande. Por que não? Entrei. Quando eu era adolescente, entendia bem de sorvete: sabores e maneiras de se tomar sorvete; mas agora sou um vexame, penso que há apenas dois sabores: os cremosos e os não cremosos. Realmente, em São Paulo não tomo sorvete nunca. O sorvete – esses cremosos – é uma bomba calórica mais destrutiva que o refrigerante; se o refrigerante tem muito açúcar, o sorvete tem muito açúcar e muita gordura: tudo de rápida assimilação, desses que vão direto pras banhas de sobrepeso. E terrivelmente saborosos, as pessoas comem montanhas daquilo. Então perguntei à mocinha:
- Se você fosse tomar um sorvete agora, qual escolheria?
Fiz a pergunta disposto a pedir o que ela escolhesse. Mas ela escolheu sorvete de doce de leite. Ora, eu gosto de doce de leite, mas sorvete de doce de leite seria elevar ao quadrado o açúcar e a gordura que todo bom sorvete cremoso excede. Então escolhi uma bola de ameixa e uma bola de maracujá, sem creme, mais leve... porém estupefato com o tamanho das bolas. Tudo bem, se o pudim-creme de Icém não fez mal, essas duas excessivas bolas de sorvete também não fariam. Sendo que naquele mundo o que conta é a quantidade. E o sorvete servido vem de Votuporanga. Pensei nesse sorvete italiano servido em lambretas, que está fazendo sucesso em São Paulo: não me venham com qualidade e sabor especial: em se tratando de sorvete, todos são deliciosos, o que conta é a quantidade. Claro que não sou guloso...claro que não sou fino.
Assim bem alimentado, peguei um atalho para sair na rodovia para Cardoso lá na frente. Cardoso era meu destino final naquele dia, em que viajei 92 Km. E não é que a estradinha passava na frente dos dois presídios! Só que eu estava bronco, ocupado com a digestão de tanta comida, e prevenido: já havia me misturado com os turistas, já sabia que Riolândia é a terra do turismo de cadeias, todo o desgosto estava soterrado pelo almoço e as duas bolas de sorvete: quem sabe não tenha sido esse o motivo da minha autoagressão alimentar? Passei reto, saí na rodovia, passei sobre um braço da represa que avança sobre o antigo leito do Rio Turvo, nem parei, nem fotografei. Ali havia muitos turistas-pescadores. Enfim entrei em Cardoso e fui direto para o Hotel Pedrim. Direto não, ia passando, o primeiro hotel que vi entrei: Hotel Pedrim. Pude usar o tanque para lavar a roupa e comer banana e maçã à vontade; as bananas e maçãs que sobraram do café da manhã. Enfim, o hotel mais barato da viagem (R$40,00); o hotel mais simpático da viagem: com canto seguro para guardar a bicicleta. Em Cardoso, Hotel Pedrim. Bonzim. Além de tudo, lembra meu netim.
De repente um vulto ao longe começou a se insinuar entre as folhas afiadas das canas. Era coisa do homem, construída, parecia... mais outro vulto igual e mais outro. Três vultos ao longe, três torres parecidas com essas do jogo de xadrez, e então já adivinhei os muros e a quarta torre e a cerca elétrica sobre os muros, e os muros de concreto à prova de britadeira e bomba e os vigias, e cada vigia com uma carabina em punho... E já imaginei o rei e a rainha e o bispo. Agora, longe da cena, confundo a ordem das lembranças que me assaltaram então, enquanto vislumbrava sobre o canavial balouçante o castelo inexpugnável: me foge a ordem em que os peões entraram em minhas suposições. Mas lembro que eles foram pouco a pouco invadindo o tabuleiro e quando cheguei mais perto, coisa de 300 metros, que é a distância menor entre a fortaleza e a estrada, eu imaginava o interior invisível do presídio tomado pelos peões, porém imobilizados: sem esperança de qualquer avanço: jamais chegariam ao final do tabuleiro, jamais seriam nobres; sem esperança de qualquer vitória, impossibilitados de qualquer movimento, como se o quadrilátero murado delimitasse e cerceasse uma única casa do imenso tabuleiro, do qual eu era uma peça, no qual eu me movimentava.
Eu havia tomado um atalho em terra na saída de Orindiúva, que ia dar na rodovia lá na frente, coisa de 10 Km, em direção a Paulo de Faria. Saí cedo, era domingo, a cidade dormia. Na estrada de terra não passava ninguém e havia pouca terra em pó e areia que atrapalhasse os pneus da bicicleta. Era cedo, mas já fazia calor, como de praxe no norte do estado, quase todos os dias do ano. A rodovia se aproximava e, após ela, sob o sol baixo, eu adivinhava a baixada do Rio Grande de verdade, de água corrente ali naquele trecho. Foi quando vi o presídio. Não estava avisado, por isso levei um susto. Não de medo, mas de desgosto. Creio que o desgosto assusta, sim, em algumas situações. Creio que a visão de um presídio no meio do nada, na zona rural, é uma dessas situações. O presídio fica na beira da rodovia, creio, a julgar pelo traçado confluente dela com a estradinha em que eu estava, pois ambas se encontraram mais à frente, uns 2 Km. Não sei, porém, se quem passa na rodovia de carro vê o enorme quadrilátero. E, apesar de parecer estar mais perto da zona urbana de Orindiúva, talvez ali já seja território do município de Paulo de Faria. E o presídio pode ainda estar em construção – os sites da administração penitenciária do estado informam que há um CDP – Centro de Detenção Provisória no Km 528 da SP-322 com capacidade para cerca de 850 presos, município de Paulo de Faria. No mapa do Google a área é um verde canavial. Se você, ó viajante-pesquisador, for depender do mapa do Google, você está mal arranjado...
Cheguei em Paulo de Faria a tempo de pegar o povo saindo da missa das oito. Parada rápida para a foto clássica da fachada da igreja matriz. A Rodovia da Laranja – SP-322 – termina logo mais. Seu prolongamento asfaltado, de 4 Km, vai dar no Rio Grande – a tradicional prainha que quase todo município próximo ao Rio Grande tem. A balsa estava no seco, em manutenção. Ali há um porto e uma balsa, com travessia para o município mineiro de Itapagipe. Dois senhores, sentados nas raízes de uma sete-copas, conversavam. Lamentei com eles que não poderia atravessar.
- A gente leva o senhor – falou baixinho um deles, me apontando as canoas na água a vinte metros de onde estávamos.
- E eu sô doido de entrá numa canoa dessa – respondi sorrindo.
- A gente leva em segurança – assegurou ele, sério e baixo.
Fiquei sem jeito e respondi que não queria atravessar não, só queria conhecer e já ia voltar. Voltei os quatro quilômetros – e aí já se foram oito de desvio – e continuei a viagem para Riolândia, na rodovia que faz um ângulo de noventa graus com a SP-322 em que eu transitava desde Ribeiro dos Santos, no dia anterior. Se até então eu havia me dirigido ao norte, agora eu me dirigia ao oeste. A novidade é que a partir daí a estrada não tem acostamentos. Sorte que o movimento também não é grande. Ia na faixa da esquerda, na contramão. Quando vinha um veículo ao meu encontro, eu mudava para a faixa da direita, caso não viesse outro veículo no mesmo sentido. Raramente dois veículos se cruzavam junto comigo. Quando isso acontecia, era obrigado a parar fora da pista.
A subidona era forte e longa, para os padrões do ameno relevo da região, de longos trechos planos e leves ondulações. Enfim, dobrei o cume do morro: aí é só alegria. Alegria que se repete com intervalos regulares, na rodovias que, grosso modo, são compostas de subidas e descidas de igual distância e declividade. No cume da lombada a gente descansa e põe na banguela e seja o que deus quiser. Porque a bicicleta adquire grande velocidade. Se o asfalto estiver bom, não tem problema. Porém, se lá embaixo, no auge do embalo, houver um buraco ou uma lombada, ou qualquer irregularidade significativa no piso, o perigo de desestabilização é grande. E cair de bicicleta em alta velocidade não é bom negócio... Enfim, são e salvo na baixada, começa de novo e infinitas vezes a árdua e lenta pedalada para vencer outra subida. A frequência cardíaca vai lá em cima. O esforço zero da descida passa rápido; o esforço máximo da subida não acaba nunca. Daí porque viajar de bicicleta é mais cansativo que viajar a pé. O andarilho caminha sempre no mesmo ritmo, a 5Km/h; a frequência cardíaca varia pouco – elevando-se moderadamente nas subidas e atingindo níveis mais fortes apenas naquelas poucas mais íngremes. Seis horas de pedalada cansam mais que 10 horas de caminhada.
Era hora do almoço quando entrei em Riolândia. Antes de se emancipar e se tornar município, a povoação se chamava Viadinho do Porto. Porque havia e ainda há um porto com balsa, no Rio Grande. Naquele tempo, era rio de verdade, de águas correntes; agora não é mais rio, é represa: águas paradas desde a barragem de Água Vermelha, no município de Ouroeste, quase cem quilômetros rio abaixo. Não é a terra do rio: é a terra da represa. Só que a represa é enorme, banha muitos municípios, não é de ninguém. Mas a cidade poderia ser a terra da represa: represolândia. Sendo que, aos domingos, ninguém almoça no comércio. Mas onde há turistas, há almoço comercial, mesmo aos domingos. Quando já estava quase perdendo a esperança, um senhor me sugeriu o hotel. Também achei boa a ideia e fui lá. O hotel recebe turistas de São Paulo, principalmente aos sábados e domingos, dias de visitas nos dois presídios que há no município. Portanto, havia almoço sim. Os turistas fretam ônibus, havia dois parados em frente. Sim, em Riolândia conheci mais uma modalidade turística: turismo de visitantes de presídios. Os familiares que moram longe e aproveitam o final de semana para visitar seus parentes presos. Fazem-no com frequência, já são íntimos dos funcionários do hotel.
Não era incomum comer num lugar e tomar a sobremesa em outro. Claro que eu não o fazia deliberadamente, porque creio que não sou controlado pela comida, mas, se a oportunidade se apresentava, eu aproveitava, já que tudo que comesse ainda era pouco diante do gasto calórico da viagem. E o norte-noroeste paulista é a terra das sorveterias. Em todas cidades, em volta da praça há três, quatro sorveterias. A moça gordinha não atendia ninguém, ainda era muito cedo para tomar sorvete. Mais tarde as mesas seriam todas ocupadas, tomar sorvete naquela terra é programa independente e de gente grande. Por que não? Entrei. Quando eu era adolescente, entendia bem de sorvete: sabores e maneiras de se tomar sorvete; mas agora sou um vexame, penso que há apenas dois sabores: os cremosos e os não cremosos. Realmente, em São Paulo não tomo sorvete nunca. O sorvete – esses cremosos – é uma bomba calórica mais destrutiva que o refrigerante; se o refrigerante tem muito açúcar, o sorvete tem muito açúcar e muita gordura: tudo de rápida assimilação, desses que vão direto pras banhas de sobrepeso. E terrivelmente saborosos, as pessoas comem montanhas daquilo. Então perguntei à mocinha:
- Se você fosse tomar um sorvete agora, qual escolheria?
Fiz a pergunta disposto a pedir o que ela escolhesse. Mas ela escolheu sorvete de doce de leite. Ora, eu gosto de doce de leite, mas sorvete de doce de leite seria elevar ao quadrado o açúcar e a gordura que todo bom sorvete cremoso excede. Então escolhi uma bola de ameixa e uma bola de maracujá, sem creme, mais leve... porém estupefato com o tamanho das bolas. Tudo bem, se o pudim-creme de Icém não fez mal, essas duas excessivas bolas de sorvete também não fariam. Sendo que naquele mundo o que conta é a quantidade. E o sorvete servido vem de Votuporanga. Pensei nesse sorvete italiano servido em lambretas, que está fazendo sucesso em São Paulo: não me venham com qualidade e sabor especial: em se tratando de sorvete, todos são deliciosos, o que conta é a quantidade. Claro que não sou guloso...claro que não sou fino.
Assim bem alimentado, peguei um atalho para sair na rodovia para Cardoso lá na frente. Cardoso era meu destino final naquele dia, em que viajei 92 Km. E não é que a estradinha passava na frente dos dois presídios! Só que eu estava bronco, ocupado com a digestão de tanta comida, e prevenido: já havia me misturado com os turistas, já sabia que Riolândia é a terra do turismo de cadeias, todo o desgosto estava soterrado pelo almoço e as duas bolas de sorvete: quem sabe não tenha sido esse o motivo da minha autoagressão alimentar? Passei reto, saí na rodovia, passei sobre um braço da represa que avança sobre o antigo leito do Rio Turvo, nem parei, nem fotografei. Ali havia muitos turistas-pescadores. Enfim entrei em Cardoso e fui direto para o Hotel Pedrim. Direto não, ia passando, o primeiro hotel que vi entrei: Hotel Pedrim. Pude usar o tanque para lavar a roupa e comer banana e maçã à vontade; as bananas e maçãs que sobraram do café da manhã. Enfim, o hotel mais barato da viagem (R$40,00); o hotel mais simpático da viagem: com canto seguro para guardar a bicicleta. Em Cardoso, Hotel Pedrim. Bonzim. Além de tudo, lembra meu netim.
OITAVO DIA: CARDOSO A MESÓPOLIS
OITAVO DIA: CARDOSO – SÃO JOÃO DO MARINHEIRO – MIRA ESTRELA – INDIAPORÃ – OUROESTE – POPULINA – MESÓPOLIS (ufa!).
Sim, tudo num único dia: 91 Km. Tudo estrada vicinal asfaltada. Asfalto de boa qualidade, porém nenhum acostamento. Ainda bem que a intensidade do tráfego é baixa. Saí de Cardoso às 8h e cheguei a Mesópolis às 16h. Descontando a parada do almoço, deu quase sete horas de efetiva pedalada. Velocidade média de cerca de 14 Km/h. Sim, preciso descontar as paradas rápidas para fotografar as igrejas das praças principais de todas essas cidades. Essa sucessão de cidades num único dia embaralha a cabeça do viajante: em média, a cada 15 quilômetros uma cidade, ou seja, uma cidade a cada 1 hora. Porque, diferente de quem viaja de carro, em alta velocidade, com os vidros escuros levantados, o ciclista entra na cidade, vai devagar, com o corpo inteiro à mostra, para, fotografa, compra água ou lanche ou almoça, pede informações, vê de perto a população, é visto por ela... Dez dias depois, o cronista se confunde: em qual cidade eu vi aquele sujeito esquisito, aquela padaria diferente, aquela praça original?
Mas de Mira Estrela não esqueço a quantidade de placas informativas sobre direções de localidades. Dentro do perímetro urbano, em plena rua principal, muitas placas. Elas não teriam chamado minha atenção se fossem do tipo e tamanho comuns, como tantas outras que encontrei em outras cidades: mas as placas de Mira Estrela são dignas de qualquer rodovia de pista dupla e velocidade de 110 Km/h; são daquelas que ficam sobre a rua, sustentadas por um poste curvo fixado na calçada, como se veem nas rodovias de maior movimento e velocidade. Será que o prefeito era acionista da fábrica de placas e postes? Ou será que aquela megalomania foi discutida entre os vereadores e aprovada pela população, como um artifício para iludir o forasteiro de que aquela é uma grande cidade de 3 mil habitantes? Mas o pudim da padaria da esquina da praça é muito bom e o atendimento é perfeito. Em Mira Estrela garanto que você não se perde.
Impressionante a quantidade de animais mortos na estrada. Domésticos e selvagens. Entre os animais domésticos, os cães são as maiores vítimas, mas há também muitos gatos. Perto de Icém vi uma vaca morta na beira da estrada. Em outra viagem, a pé, perto de Tanabi, SP, vi um porco enorme. E vi também um urubu morto. Urubu é animal doméstico ou selvagem? Entre os animais selvagens, muitos pequenos, de difícil identificação. Muitos tatus, porque são inconfundíveis as suas carapaças. E perto de Cardoso vi um tamanduá-bandeira morto no meio da pista. O tamanduá-bandeira é um mamífero de grande porte, para os padrões brasileiros. Era um tamanduá adulto, creio que pesava mais de 50 Kg. Todos esses animais apodrecem no local, sem ninguém recolher ou enterrar. Quando há urubus, eles fazem o serviço de limpeza... mas é preciso esclarecer que há regiões em que não há urubus. Entretanto, suponho que essa matança é insignificante perto daquela promovida pela agricultura mecanizada de larga escala: aquela que não deixa uma árvore em pé em centenas de hectares, impedindo a escala no voo das aves; que ara a terra até o barranco do córrego, destruindo a mata ciliar; que pulveriza todo tipo de veneno de avião! Gente, “pulveriza todo tipo de veneno de avião” merece ponto de exclamação: é a eliminação massificada de toda a fauna e a flora que não interessam naquele específico momento e lugar àquela específica pessoa. O veneno de avião é a melhor metáfora para uma máxima da moda: viva o presente! E para uma máxima antiga, mas vigente: o futuro a deus pertence. Porque provocar uma nuvem de inseticida para matar uma lagarta e, com ela, matar toda a cadeia de insetos e infinitos organismos vivos responsáveis pelo equilíbrio ecológico, será certamente objeto de estudo dos historiadores do futuro. Mas não poderia terminar esse parágrafo, que fala da morte de animais, sem mencionar a quantidade de cruzes na beira da estrada. Próximo a Altair, vi três cruzes bem juntinhas. Vi mais de dez duplas de cruzes em diferentes pontos. Em quase todas as curvas ou cruzamentos localizados nas lombadas – que dificultam a visibilidade dos motoristas – há ao menos uma cruz. Ao menos a cruz significa que o corpo não virou comida de urubu, foi recolhido, e o morto não foi esquecido...
Pouco antes da entrada para Indiaporã tive uma grata surpresa. Uma placa regular, colocada por quem administra a estrada, em cores vermelha e branca, dizia:”CUIDADO, Trabalhadores rurais acampados a 200 mts à margem da pista”. Normalmente esses marginais são considerados marginais... e tratados sem nenhuma condescendência. São marginais, porque estão à margem da vida, sem casa, sem terra, sem emprego, sem reconhecimento. Sem assistência à saúde, à educação: sem direitos; sem cidadania. Sem água, sem banheiro, sem eletricidade. Sem paredes sólidas. São marginais porque ocupam as margens das estradas para morar. São marginais porque questionam e contestam o sistema fundiário do país. Porém, o povo estabelecido da região os trata como marginais, no sentido de bandidos, vagabundos, baderneiros. Sei de gente que possui um sitiozinho de dez hectares e têm medo de ser desapropriado pelo governo por pressão dos sem terra. Em geral, todos os organismos do poder local – prefeitura, câmara, fórum, delegacia de polícia, igreja, sindicato, escola, maçonaria, Rotary club, rádios, jornais, clubes, comerciantes, fazendeiros, industriais, desprezam esses marginais das estradas – os sem terra. Mas a placa de Indiaporã indica que alguém aí, nessa relação de reacionários, considera esses marginais como “trabalhadores rurais acampados”. Isso é um alento. Isso me comove.
Em Ouroeste, parei para almoçar. É um dos mais novos municípios da região e um dos mais progressistas, segundo os critérios locais de comércio movimentado. Há duas explicações: a Usina de cana da Bunge e a Usina de Hidreletricidade de Água Vermelha. A Bunge também é dona da usina de cana de Orindiúva, lembram-se? Ambas carreiam muitos recursos para o município, sob a forma de impostos e outras ajudas interessadas, além de favorecer enormemente aquele fenômeno já discutido em parágrafo anterior, que é o de concentração de salários mais elevados que os praticados pela economia tradicional e o surgimento de uma classe média local, com todas as implicações de consumo e costumes que isso acarreta. Antes havia plantação de algodão, milho, arroz, feijão, tomate, manga, banana, laranja. Havia criação de gado leiteiro, porcos, galinhas, carneiros. A diferença de renda entre sitiantes e demais trabalhadores rurais era insignificante. Poucos fazendeiros e comerciantes podiam comprar suntuosas caminhonetas e entupir a casa de modernosa parafernália. A classe média era representada por pouquíssimos funcionários públicos. Veio a usina de etanol e arrendou a terra toda. Agora só tem cana. Os sitiantes mudaram-se para a cidade. A usina tem um só dono e precisa da hierarquia para funcionar: um faz, três fiscalizam, dois controlam e um superintende. Quem faz ganha 1, quem fiscaliza ganha 3, quem controla ganha 10 e quem superintende ganha 30. Tais diferenças eram impensáveis no regime anterior. Talvez isso explique a diminuição do compadrio. Talvez explique o desaparecimento das Folias de Reis, as rodas de viola... Talvez isso explique certas ocorrências policiais que têm se avolumado ultimamente na delegacia local...
Almocei e fui sentar na praça, num banco sombreado ao lado da igreja, para consultar o celular e minhas anotações, visando o planejamento do restante da viagem daquele dia. A bicicleta do lado... Uma mulher se aproximou: não era uma mulher comum ali da cidade, via-se pelo jeito de andar e pelo vestuário. Bem vestida, mas sem exagero, andar resoluto mas suave, soube que não era dali quando ela se dirigiu a mim com seu celular, pedindo que tirasse uma fotografia dela na praça, para ficar de lembrança da cidade. Mas também soube que ela não era da cidade pelo simples fato dela ter se dirigido a mim. As mulheres locais não se dirigem a estranhos, a menos que sejam putas (o termo prostituta é desconhecido na região), ou que sejam muito jovens, ingênuas. Ela não era muito jovem nem ingênua nem puta: mas não era santa... Até porque as putas só atuam na “zona”, nessas cidadezinhas (Zona do Meretrício). Pediu que esperasse ela passar batom, ajeitou a roupa, penteou os cabelos..., pouco se lixando para meu olhar de escárnio. Escolheu com cuidado o cenário de fundo, tirei várias fotografias, ela não sossegou enquanto uma delas não a satisfez: queria ficar bonita na foto. E eu solícito e bem comportado, não toquei na mulher. Um fotógrafo tem o direito de ajeitar a modelo, erguer seu queixo, endireitar o nariz, revolver os cabelos, ajeitar o colarinho... Enfim, satisfeita, ela saiu leve e tranquila como chegou, pela rua principal, e fez tiauzinho quando eu a ultrapassei de bicicleta, em direção a Populina. Enquanto este senhor quase machista via a mulher se afastar, com seu andar de gata mansa, pensava... sei lá, acho que não pensava nada. Agora é que penso: é possível mulheres assim, independentes e seguras, no extremo noroeste paulista?
Pouco antes de ultrapassar o limite de município entre Ouroeste e Populina, passei sobre a Ferrovia Norte-Sul. O trecho está pronto, à espera dos trens. Sou facilmente impressionado pelos rios e pelas estradas de ferro. Em Populina, após passar a viagem inteira comprando água, descobri um equipamento urbano que é usual em quase todas as cidades da região: a água potável gelada na praça: um bloco grande de alvenaria abriga um refrigerador invisível e, dele, jorram várias torneiras. Quem me informou foi um jovem mecânico da usina, que aguardava o ônibus na praça, para voltar para casa. Formado em administração, com vários cursos de especialização, continua no trabalho sujo e braçal de mecânico porque não consegue ganhar como administrador o que ganha como mecânico da usina. No tempo da escravidão, essa região era inexplorada pelos europeus, mas os desbravadores que chegaram depois trouxeram o preconceito que imperava no regime escravocrata contra todo trabalho braçal. Todos sonham em trabalhar num escritório, com ar condicionado, de camisa fina, gravata... Entretanto, o jovem vestia o uniforme de operário da usina. Nessas cidades de usina, o que mais se vê pela rua é gente vestindo esse uniforme. É muito parecido com esses usados pelos trabalhadores da Congás, da Eletropaulo: calça e camisa de algodão grosseiro e forte, com faixas refletivas envolvendo pernas e tronco. Só que, me pareceu, esse uniforme é motivo de inveja da população local, que quase todos gostariam de envergar um. Então, quem pode, usa-o para ir e vir, como certos jalecos brancos com estetoscópio no pescoço, aqui entre nós, na cidade grande...
E eis novo acampamento de sem terras. Eu já havia entrado no território de Mesópolis quando o vi, num terreno na beira da estrada. Mas estes não eram marginais, da margem da estrada. Estavam num terreno bem delimitado, fora dela. Havia até postes de eletricidade no “loteamento” de barracos. Muitos cobertos com telhas de amianto, várias caixas d’água. Também várias bandeiras do NMTA na ponta de altos bambus. Uma placa grande identificava-o: “Acampamento Alto Alegre Mesópolis SP. NMTA. Luta por justiça no campo e igualdade social – Frente de Jales”. E na placa também havia o logotipo do Novo Movimento de Trabalhadores Rurais Acampados e Assentados. E havia ainda outro logotipo menor, em que se podia ler “Sintraf Noroeste Paulista” e “Agricultura Familiar”. Com esse acampamento, podemos aprender que os sem terras vão muito além do MST – Movimento dos Sem Terra. MST é apenas a organização mais poderosa e mais conhecida. Mas há vários outros movimentos, patrocinados por outros diversos interesses, como esse de Jales. O “SINTRAF” deve conter as palavras Sindicato e Familiar, suponho. As benfeitorias nos barracos e o terreno devem ter sido financiados pelo... imposto sindical? Acho que isso explica o “bom comportamento” de não invadir a faixa pública da estrada, ao contrário dos acampamentos de Colômbia e Indiaporã. Estes, registre-se, não exibiam qualquer placa, qualquer bandeira: significa dizer que também não eram do MST, que sempre faz questão de desfraldar sua bandeira. Podemos aprender mais: há muita gente sem terra querendo terra que não está para brincadeira, porque há muito latifúndio, em pleno Estado de São Paulo. Mas, por favor, ó você proprietário de uma fazendola de 100 hectares de terra: não vá dar o vexame de pensar que é latifundiário e se juntar a eles para combater esse povo barraqueiro!
Finalmente, entrei em Mesópolis, minha meta naquele dia. Não, passei por fora, quando vi já estava saindo do perímetro urbano, voltei do outro lado até a praça, da qual havia passado ao lado na entrada e não percebido. Cidadinha de 2 mil habitantes... não, não havia hotel ou pousada ou qualquer coisa parecida. Em Populina havia... Só que eu vinha de Populina e retroceder jamais! E a senhora que me informava me inquiria com os olhos: como é que eu iria me virar? E lá da frente da casa dela continuava me espreitando, comodamente escarrapachado sobre o bem cuidado gramado da praça, ao lado do banheiro público. Como é que eu podia ficar assim tão à vontade sabendo que não tinha onde dormir naquela noite? Ela não podia imaginar que aquele rolo sob a mochila na garupa da bicicleta eram uma barraca, uma esteira isolante-térmico e um saco de dormir. Ela não podia imaginar que um senhor de idade, civilizado, poderia ter a ousadia de armar aqueles apetrechos e dormir ali na cidade dela. Porque a gente só imagina ou deduz aquilo que está em nosso horizonte, ou que já nos insinuou alguma vez. Quase tudo que pensamos ou sonhamos ou criamos nada mais é que a condensação de nuvens esparsas de realidade a nos envolver: então, provocamos a faísca – involuntariamente, quase sempre – e a criatura explode. Mas nunca passou pelos céus de Mesópolis um ciclista viajante em busca de pouso e, se passou, não portava a determinação de passar a noite ali, com ou sem hotel.
Homens conversavam na calçada, o sol já se punha. Parei, expliquei-lhes minha situação. Eu nunca tenho a solução completa, nessas ocasiões, que já enfrentei inúmeras vezes, no meu tempo de andarilho. Minha única certeza é que vou passar a noite ali, de uma forma ou de outra. Então converso com as pessoas locais, informo, conto alguma coisa da viagem. Isso desperta simpatia, vontade de ajudar. Faço perguntas, induzo respostas. Sempre alguém aparece com alguma sugestão. Nenhuma até hoje foi a de oferecer um espaço da própria casa...
- Por que você não vai na prefeitura?
Fui. Eram 16h30, tudo fechado. Mas ao lado estava o bonito gramado do campo de futebol, onde minha barraca se arrumaria muito bem. Apenas o gramado e as traves dos gols, sem mais nada, à guisa de estádio municipal. O gramado sem nenhuma falha, nem embaixo das traves. Sinal de que ali pouca gente joga bola. Porque, ao menos embaixo das traves, não há gramado que resista a vinte e dois jovens fominhas de bola. Nem precisa tanto, meia dúzia de cada lado já dá boas peladas. Com tanto jogo virtual e atleta de sofá, acho que 2 mil habitantes já não conseguem formar um time de futebol. Então fui ao posto da polícia militar. Nessas pequenas cidades não há delegacia, as pendengas são resolvidas por dois PMs e uma viatura, abrigados numa pequena casa. O policial me atendeu descalço, atrás das grades de ferro que separavam a casa da rua. Jovem, menos de 25 anos de idade, contei-lhe do meu desejo de armar a barraca – eu já não estava mais levantando dados para formar uma solução, mas querendo resolver a questão prática de onde armar a barraca – quando ele, antes que eu sugerisse o campo de futebol, disse, quase ordenou, que eu acampasse ali atrás do posto policial, num galpão cimentado e coberto, com luz e lavatório e até tomada para carregar o celular. O local era muito bom, mas confesso que fiquei um pouco frustrado por não ter acampado ao léu, naquele gramado bonito ao lado da prefeitura.
Sim, tudo num único dia: 91 Km. Tudo estrada vicinal asfaltada. Asfalto de boa qualidade, porém nenhum acostamento. Ainda bem que a intensidade do tráfego é baixa. Saí de Cardoso às 8h e cheguei a Mesópolis às 16h. Descontando a parada do almoço, deu quase sete horas de efetiva pedalada. Velocidade média de cerca de 14 Km/h. Sim, preciso descontar as paradas rápidas para fotografar as igrejas das praças principais de todas essas cidades. Essa sucessão de cidades num único dia embaralha a cabeça do viajante: em média, a cada 15 quilômetros uma cidade, ou seja, uma cidade a cada 1 hora. Porque, diferente de quem viaja de carro, em alta velocidade, com os vidros escuros levantados, o ciclista entra na cidade, vai devagar, com o corpo inteiro à mostra, para, fotografa, compra água ou lanche ou almoça, pede informações, vê de perto a população, é visto por ela... Dez dias depois, o cronista se confunde: em qual cidade eu vi aquele sujeito esquisito, aquela padaria diferente, aquela praça original?
Mas de Mira Estrela não esqueço a quantidade de placas informativas sobre direções de localidades. Dentro do perímetro urbano, em plena rua principal, muitas placas. Elas não teriam chamado minha atenção se fossem do tipo e tamanho comuns, como tantas outras que encontrei em outras cidades: mas as placas de Mira Estrela são dignas de qualquer rodovia de pista dupla e velocidade de 110 Km/h; são daquelas que ficam sobre a rua, sustentadas por um poste curvo fixado na calçada, como se veem nas rodovias de maior movimento e velocidade. Será que o prefeito era acionista da fábrica de placas e postes? Ou será que aquela megalomania foi discutida entre os vereadores e aprovada pela população, como um artifício para iludir o forasteiro de que aquela é uma grande cidade de 3 mil habitantes? Mas o pudim da padaria da esquina da praça é muito bom e o atendimento é perfeito. Em Mira Estrela garanto que você não se perde.
Impressionante a quantidade de animais mortos na estrada. Domésticos e selvagens. Entre os animais domésticos, os cães são as maiores vítimas, mas há também muitos gatos. Perto de Icém vi uma vaca morta na beira da estrada. Em outra viagem, a pé, perto de Tanabi, SP, vi um porco enorme. E vi também um urubu morto. Urubu é animal doméstico ou selvagem? Entre os animais selvagens, muitos pequenos, de difícil identificação. Muitos tatus, porque são inconfundíveis as suas carapaças. E perto de Cardoso vi um tamanduá-bandeira morto no meio da pista. O tamanduá-bandeira é um mamífero de grande porte, para os padrões brasileiros. Era um tamanduá adulto, creio que pesava mais de 50 Kg. Todos esses animais apodrecem no local, sem ninguém recolher ou enterrar. Quando há urubus, eles fazem o serviço de limpeza... mas é preciso esclarecer que há regiões em que não há urubus. Entretanto, suponho que essa matança é insignificante perto daquela promovida pela agricultura mecanizada de larga escala: aquela que não deixa uma árvore em pé em centenas de hectares, impedindo a escala no voo das aves; que ara a terra até o barranco do córrego, destruindo a mata ciliar; que pulveriza todo tipo de veneno de avião! Gente, “pulveriza todo tipo de veneno de avião” merece ponto de exclamação: é a eliminação massificada de toda a fauna e a flora que não interessam naquele específico momento e lugar àquela específica pessoa. O veneno de avião é a melhor metáfora para uma máxima da moda: viva o presente! E para uma máxima antiga, mas vigente: o futuro a deus pertence. Porque provocar uma nuvem de inseticida para matar uma lagarta e, com ela, matar toda a cadeia de insetos e infinitos organismos vivos responsáveis pelo equilíbrio ecológico, será certamente objeto de estudo dos historiadores do futuro. Mas não poderia terminar esse parágrafo, que fala da morte de animais, sem mencionar a quantidade de cruzes na beira da estrada. Próximo a Altair, vi três cruzes bem juntinhas. Vi mais de dez duplas de cruzes em diferentes pontos. Em quase todas as curvas ou cruzamentos localizados nas lombadas – que dificultam a visibilidade dos motoristas – há ao menos uma cruz. Ao menos a cruz significa que o corpo não virou comida de urubu, foi recolhido, e o morto não foi esquecido...
Pouco antes da entrada para Indiaporã tive uma grata surpresa. Uma placa regular, colocada por quem administra a estrada, em cores vermelha e branca, dizia:”CUIDADO, Trabalhadores rurais acampados a 200 mts à margem da pista”. Normalmente esses marginais são considerados marginais... e tratados sem nenhuma condescendência. São marginais, porque estão à margem da vida, sem casa, sem terra, sem emprego, sem reconhecimento. Sem assistência à saúde, à educação: sem direitos; sem cidadania. Sem água, sem banheiro, sem eletricidade. Sem paredes sólidas. São marginais porque ocupam as margens das estradas para morar. São marginais porque questionam e contestam o sistema fundiário do país. Porém, o povo estabelecido da região os trata como marginais, no sentido de bandidos, vagabundos, baderneiros. Sei de gente que possui um sitiozinho de dez hectares e têm medo de ser desapropriado pelo governo por pressão dos sem terra. Em geral, todos os organismos do poder local – prefeitura, câmara, fórum, delegacia de polícia, igreja, sindicato, escola, maçonaria, Rotary club, rádios, jornais, clubes, comerciantes, fazendeiros, industriais, desprezam esses marginais das estradas – os sem terra. Mas a placa de Indiaporã indica que alguém aí, nessa relação de reacionários, considera esses marginais como “trabalhadores rurais acampados”. Isso é um alento. Isso me comove.
Em Ouroeste, parei para almoçar. É um dos mais novos municípios da região e um dos mais progressistas, segundo os critérios locais de comércio movimentado. Há duas explicações: a Usina de cana da Bunge e a Usina de Hidreletricidade de Água Vermelha. A Bunge também é dona da usina de cana de Orindiúva, lembram-se? Ambas carreiam muitos recursos para o município, sob a forma de impostos e outras ajudas interessadas, além de favorecer enormemente aquele fenômeno já discutido em parágrafo anterior, que é o de concentração de salários mais elevados que os praticados pela economia tradicional e o surgimento de uma classe média local, com todas as implicações de consumo e costumes que isso acarreta. Antes havia plantação de algodão, milho, arroz, feijão, tomate, manga, banana, laranja. Havia criação de gado leiteiro, porcos, galinhas, carneiros. A diferença de renda entre sitiantes e demais trabalhadores rurais era insignificante. Poucos fazendeiros e comerciantes podiam comprar suntuosas caminhonetas e entupir a casa de modernosa parafernália. A classe média era representada por pouquíssimos funcionários públicos. Veio a usina de etanol e arrendou a terra toda. Agora só tem cana. Os sitiantes mudaram-se para a cidade. A usina tem um só dono e precisa da hierarquia para funcionar: um faz, três fiscalizam, dois controlam e um superintende. Quem faz ganha 1, quem fiscaliza ganha 3, quem controla ganha 10 e quem superintende ganha 30. Tais diferenças eram impensáveis no regime anterior. Talvez isso explique a diminuição do compadrio. Talvez explique o desaparecimento das Folias de Reis, as rodas de viola... Talvez isso explique certas ocorrências policiais que têm se avolumado ultimamente na delegacia local...
Almocei e fui sentar na praça, num banco sombreado ao lado da igreja, para consultar o celular e minhas anotações, visando o planejamento do restante da viagem daquele dia. A bicicleta do lado... Uma mulher se aproximou: não era uma mulher comum ali da cidade, via-se pelo jeito de andar e pelo vestuário. Bem vestida, mas sem exagero, andar resoluto mas suave, soube que não era dali quando ela se dirigiu a mim com seu celular, pedindo que tirasse uma fotografia dela na praça, para ficar de lembrança da cidade. Mas também soube que ela não era da cidade pelo simples fato dela ter se dirigido a mim. As mulheres locais não se dirigem a estranhos, a menos que sejam putas (o termo prostituta é desconhecido na região), ou que sejam muito jovens, ingênuas. Ela não era muito jovem nem ingênua nem puta: mas não era santa... Até porque as putas só atuam na “zona”, nessas cidadezinhas (Zona do Meretrício). Pediu que esperasse ela passar batom, ajeitou a roupa, penteou os cabelos..., pouco se lixando para meu olhar de escárnio. Escolheu com cuidado o cenário de fundo, tirei várias fotografias, ela não sossegou enquanto uma delas não a satisfez: queria ficar bonita na foto. E eu solícito e bem comportado, não toquei na mulher. Um fotógrafo tem o direito de ajeitar a modelo, erguer seu queixo, endireitar o nariz, revolver os cabelos, ajeitar o colarinho... Enfim, satisfeita, ela saiu leve e tranquila como chegou, pela rua principal, e fez tiauzinho quando eu a ultrapassei de bicicleta, em direção a Populina. Enquanto este senhor quase machista via a mulher se afastar, com seu andar de gata mansa, pensava... sei lá, acho que não pensava nada. Agora é que penso: é possível mulheres assim, independentes e seguras, no extremo noroeste paulista?
Pouco antes de ultrapassar o limite de município entre Ouroeste e Populina, passei sobre a Ferrovia Norte-Sul. O trecho está pronto, à espera dos trens. Sou facilmente impressionado pelos rios e pelas estradas de ferro. Em Populina, após passar a viagem inteira comprando água, descobri um equipamento urbano que é usual em quase todas as cidades da região: a água potável gelada na praça: um bloco grande de alvenaria abriga um refrigerador invisível e, dele, jorram várias torneiras. Quem me informou foi um jovem mecânico da usina, que aguardava o ônibus na praça, para voltar para casa. Formado em administração, com vários cursos de especialização, continua no trabalho sujo e braçal de mecânico porque não consegue ganhar como administrador o que ganha como mecânico da usina. No tempo da escravidão, essa região era inexplorada pelos europeus, mas os desbravadores que chegaram depois trouxeram o preconceito que imperava no regime escravocrata contra todo trabalho braçal. Todos sonham em trabalhar num escritório, com ar condicionado, de camisa fina, gravata... Entretanto, o jovem vestia o uniforme de operário da usina. Nessas cidades de usina, o que mais se vê pela rua é gente vestindo esse uniforme. É muito parecido com esses usados pelos trabalhadores da Congás, da Eletropaulo: calça e camisa de algodão grosseiro e forte, com faixas refletivas envolvendo pernas e tronco. Só que, me pareceu, esse uniforme é motivo de inveja da população local, que quase todos gostariam de envergar um. Então, quem pode, usa-o para ir e vir, como certos jalecos brancos com estetoscópio no pescoço, aqui entre nós, na cidade grande...
E eis novo acampamento de sem terras. Eu já havia entrado no território de Mesópolis quando o vi, num terreno na beira da estrada. Mas estes não eram marginais, da margem da estrada. Estavam num terreno bem delimitado, fora dela. Havia até postes de eletricidade no “loteamento” de barracos. Muitos cobertos com telhas de amianto, várias caixas d’água. Também várias bandeiras do NMTA na ponta de altos bambus. Uma placa grande identificava-o: “Acampamento Alto Alegre Mesópolis SP. NMTA. Luta por justiça no campo e igualdade social – Frente de Jales”. E na placa também havia o logotipo do Novo Movimento de Trabalhadores Rurais Acampados e Assentados. E havia ainda outro logotipo menor, em que se podia ler “Sintraf Noroeste Paulista” e “Agricultura Familiar”. Com esse acampamento, podemos aprender que os sem terras vão muito além do MST – Movimento dos Sem Terra. MST é apenas a organização mais poderosa e mais conhecida. Mas há vários outros movimentos, patrocinados por outros diversos interesses, como esse de Jales. O “SINTRAF” deve conter as palavras Sindicato e Familiar, suponho. As benfeitorias nos barracos e o terreno devem ter sido financiados pelo... imposto sindical? Acho que isso explica o “bom comportamento” de não invadir a faixa pública da estrada, ao contrário dos acampamentos de Colômbia e Indiaporã. Estes, registre-se, não exibiam qualquer placa, qualquer bandeira: significa dizer que também não eram do MST, que sempre faz questão de desfraldar sua bandeira. Podemos aprender mais: há muita gente sem terra querendo terra que não está para brincadeira, porque há muito latifúndio, em pleno Estado de São Paulo. Mas, por favor, ó você proprietário de uma fazendola de 100 hectares de terra: não vá dar o vexame de pensar que é latifundiário e se juntar a eles para combater esse povo barraqueiro!
Finalmente, entrei em Mesópolis, minha meta naquele dia. Não, passei por fora, quando vi já estava saindo do perímetro urbano, voltei do outro lado até a praça, da qual havia passado ao lado na entrada e não percebido. Cidadinha de 2 mil habitantes... não, não havia hotel ou pousada ou qualquer coisa parecida. Em Populina havia... Só que eu vinha de Populina e retroceder jamais! E a senhora que me informava me inquiria com os olhos: como é que eu iria me virar? E lá da frente da casa dela continuava me espreitando, comodamente escarrapachado sobre o bem cuidado gramado da praça, ao lado do banheiro público. Como é que eu podia ficar assim tão à vontade sabendo que não tinha onde dormir naquela noite? Ela não podia imaginar que aquele rolo sob a mochila na garupa da bicicleta eram uma barraca, uma esteira isolante-térmico e um saco de dormir. Ela não podia imaginar que um senhor de idade, civilizado, poderia ter a ousadia de armar aqueles apetrechos e dormir ali na cidade dela. Porque a gente só imagina ou deduz aquilo que está em nosso horizonte, ou que já nos insinuou alguma vez. Quase tudo que pensamos ou sonhamos ou criamos nada mais é que a condensação de nuvens esparsas de realidade a nos envolver: então, provocamos a faísca – involuntariamente, quase sempre – e a criatura explode. Mas nunca passou pelos céus de Mesópolis um ciclista viajante em busca de pouso e, se passou, não portava a determinação de passar a noite ali, com ou sem hotel.
Homens conversavam na calçada, o sol já se punha. Parei, expliquei-lhes minha situação. Eu nunca tenho a solução completa, nessas ocasiões, que já enfrentei inúmeras vezes, no meu tempo de andarilho. Minha única certeza é que vou passar a noite ali, de uma forma ou de outra. Então converso com as pessoas locais, informo, conto alguma coisa da viagem. Isso desperta simpatia, vontade de ajudar. Faço perguntas, induzo respostas. Sempre alguém aparece com alguma sugestão. Nenhuma até hoje foi a de oferecer um espaço da própria casa...
- Por que você não vai na prefeitura?
Fui. Eram 16h30, tudo fechado. Mas ao lado estava o bonito gramado do campo de futebol, onde minha barraca se arrumaria muito bem. Apenas o gramado e as traves dos gols, sem mais nada, à guisa de estádio municipal. O gramado sem nenhuma falha, nem embaixo das traves. Sinal de que ali pouca gente joga bola. Porque, ao menos embaixo das traves, não há gramado que resista a vinte e dois jovens fominhas de bola. Nem precisa tanto, meia dúzia de cada lado já dá boas peladas. Com tanto jogo virtual e atleta de sofá, acho que 2 mil habitantes já não conseguem formar um time de futebol. Então fui ao posto da polícia militar. Nessas pequenas cidades não há delegacia, as pendengas são resolvidas por dois PMs e uma viatura, abrigados numa pequena casa. O policial me atendeu descalço, atrás das grades de ferro que separavam a casa da rua. Jovem, menos de 25 anos de idade, contei-lhe do meu desejo de armar a barraca – eu já não estava mais levantando dados para formar uma solução, mas querendo resolver a questão prática de onde armar a barraca – quando ele, antes que eu sugerisse o campo de futebol, disse, quase ordenou, que eu acampasse ali atrás do posto policial, num galpão cimentado e coberto, com luz e lavatório e até tomada para carregar o celular. O local era muito bom, mas confesso que fiquei um pouco frustrado por não ter acampado ao léu, naquele gramado bonito ao lado da prefeitura.
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