terça-feira, 23 de agosto de 2016

NONO E ÚLTIMO DIA: MESÓPOLIS A APARECIDA DO TABOADO

NONO E ÚLTIMO DIA: MESÓPOLIS – APARECIDA DO BONITO – SANTA ALBERTINA – SANTA RITA D’OESTE – SANTA LUZIA – SANTA CLARA D’OESTE – APARECIDA DO TABOADO.

     Dormir em barraca tem a vantagem de acordar e retomar a viagem mais cedo no dia seguinte. Em hotel, comemos bastante no café da manhã, escovamos os dentes, vamos ao banheiro com calma. Se o chuveiro é bom, não resistimos ao banho - ainda mais naquele calorão do noroeste paulista. O resultado é que raramente conseguimos reiniciar a viagem antes das 7h30, quando o sol já vai alto. Na barraca, dormimos e acordamos com as galinhas: as galinhas dormem assim que escurece e acordam com o cantar do galo, de madrugada. Além do mais, às 3h da madrugada, ninguém aguenta mais as pontas dos ossos no chão duro - que isolante térmico e saco de dormir não foram feitos para amaciar ninguém. Não vemos a hora de clarear o dia para ficarmos de pé. A lanterna de cabeça permite desmontar a barraca e arrumar a bagagem ainda no escuro e até preparar algo para comer, que sempre é um sanduiche ou um biscoito, já prontos, portanto. Nem com a roupa perdemos tempo, que em barraca dormimos com a roupa da viagem. Nem lavamos o rosto, que dirá banho. E o resultado foi que vi Mesópolis pela última vez lá do primeiro morro da estrada, com suas luzes ainda acesas, depois de falar bom dia (e ser correspondido) aos primeiros trabalhadores rurais que caminhavam ou iam em bicicletas ou aguardavam os ônibus dos rurais para as fazendas. Já estava no meio do mundo quando o sol apontou no horizonte, não sem antes se anunciar, com o que o caipira chama de barra do dia - aquele céu avermelhado de esperança que se alevanta no oriente.

     Para ser exato, vi o sol nascer já na estradinha de terra em direção à usina, após 5 Km de asfalto na rodovia vicinal para Paranapuã. Num canavial recém-colhido, à esquerda, perto de um caudaloso córrego, o forte jorro que saía de uma mangueira preta de um caminhão-tanque preto subia e descia para se espalhar sobre a cana que começava a rebrotar. A cortina líquida filtrava os tênues raios e ensaiava um arco-iris. Um cheiro de amônia se exalava no ar: a vinhaça, subproduto da industrialização da cana rico em nitrogênio e potássio, dois  nutrientes fundamentais para as plantas: aduba e irriga. A estradinha era acanhada e não passava ninguém. Eu estranhava, porque lá na frente estava uma grande indústria: a Usina Colombo. Em verdade, descobri depois, eu acessava a usina pela porta dos fundos. O acesso principal vinha do outro lado, de Santa Albertina. Passei ao lado do monstro, pela primeira vez passei perto de uma usina de cana. Quando os olhos do monstro me viram, eu já estava saindo do outro lado e já tinha tirado todas as fotografias que desejava. Uma montanha de bagaço de cana obstruía parcialmente a visão do maquinário; uma grande pá-carregadeira moldava a montanha. Uma alta chaminé soltava uma nuvem de vapor (creio que não é fumaça poluente, a julgar pelos arredores, sem fuligem). A produção de etanol ou de açúcar resulta em vários subprodutos, como esse bagaço, que pode alimentar o fogo das caldeiras, ou se transformar em celulose, ou compor rações para o gado; outro subproduto se chama torta de filtro - parecido com terra molhada, rico em fósforo, outro macronutriente para as plantas -: vi ao longo da viagem muitos caminhões basculante descarregando aquilo nos canaviais: excelente adubo;  há ainda a cinza de caldeira, que vem da queima do bagaço, que também pode ser espalhada como adubo ou virar cimento. Não, a cachaça e a rapadura não são subprodutos da cana: são produtos de primeira qualidade que adubam o espírito e os músculos!

     A estrada de terra do acesso principal à usina é permanentemente irrigada, para não levantar poeira. O tráfego de carretas e ônibus e outros veículos é intenso. Minha bicicleta parecia um lambari em meio aos tubarões. ônibus rurais levavam e traziam a mão de obra que trocava de turno, uns sujos e suados, outros sonolentos. Os motoristas, camaradas, me contemplavam com condescendência: no mundo tem doido pra tudo! É muito macio pedalar na terra úmida e lisa.

     Em Santa Albertina tomei café, quero dizer, café da manhã: dois pães com manteiga e um copo grande de leite com café, para espanto da atendente: um ciclista em cruzeiro precisa de muita sustança e nenhuma frescura. A cidade respira aquele progresso já visto em Orindiúva e Ouroeste, trazido pela grande indústria da cana, aquele proporcionado pela concentração dos salários e dos impostos. Mas nenhuma caminhoneta assustava a população com seu ronco e o som no último volume, porque era de manhã e isso só acontece na boca da noite ou nos finais de semana, com a folga da rapaziada. Reabasteci minhas duas garrafas de água (1l e 0,5l) na geladeira da praça e... sim, descobri tarde, em Populina (graças ao rapaz que encontrei lá, que me informou), que é praxe nas cidades da região a prefeitura instalar uma geladeira dentro de um bloco de alvenaria, do qual saem várias torneiras de água gelada e potável: eis uma ideia barata, simpática e útil; após comprar muita água, me fartei nessas fontes artificiais. E não falta, também em toda praça principal, o banheiro público, coisa rara nas grandes cidades.

     Santa Albertina. Albertina é nome de santa? Não conheço nenhum devoto de Santa Albertina. Qual a especialidade de  Albertina? Porque Aparecida é padroeira do Brasil, Rita atua sobre as causas impossíveis, Clara protege a televisão e Luzia protege os olhos. Sendo que Rita e Clara são d'oeste e  Fé é do Sul. Santa Fé do Sul é a principal cidade da microrregião, onde passei de ônibus, quando voltava de Aparecida do Taboado. O sul de todo esse oeste é São Paulo;  Em Aparecida do Bonito não vi nada bonito(nem feio), exceto o céu no fundo da foto que tirei do micro cristo redentor instalado na praça, que fez sucesso no facebook. Enquanto a Aparecida matogrossense se contentou com as taboas abundantes ali no brejo do Paranazão, onde havia um porto e uma balsa, e ficou sendo do Taboado(pensava que taboado era um monte de tábuas...).  Santa Luzia é simples assim porque são três casas, uma igreja e um galpão para festas, distrito de Santa Clara. Último dia da viagem, no extremo noroeste paulista, todas as cidades e vilas  com  santa nos nomes, tudo por causa da Santa Fé; que não é nome de santa e de cujo Sul desconheço o norte.

     Pouco antes de completar os 80 Km pedalados nesse último dia da viagem (26 Km dos quais em estradas de terra), cheguei na Rodovia Euclides da Cunha - SP 320, importante e moderna estrada de pista dupla que corta toda a macrorregião após São José do Rio Preto, até a ponte do Rio Paraná que eu iria cruzar daí a pouco. Tráfego intenso de carros e carretas, mas acostamento largo e bom para bicicletas. Antes da baixada final até a ponte, três árvores, uma boa sombra e, debaixo, uma banca de frutas. Cuja especialidade era pinha e atemoia. Sendo que a atemoia é a mesma coisa que a pinha, só que com uma embalagem mais moderna: a casca é mais fina e talvez por isso sobra mais espaço para maior sustança de massa, mas as sementes e o gosto são idênticos. Pinha eu conhecia, mas atemoia não. O moço me escolheu uma madura, que saboreei ali mesmo. Na hora de pagar, ele disse que não era nada, porque aquela que comi estava muito madura, ia perder mesmo... aí então me lembrei de um episódio da vida do sanfoneiro, cantor e compositor nordestino Luiz Gonzaga que, em visita à terra natal, em Pernambuco, já famoso, pediu a um afinador de sanfona local que ajustasse uma sua sanfona (acordeon); quando foi buscar o instrumento, o afinador disse que não era nada, porque só tinha feito pequenos ajustes...; então o grande artista, vendo a pobreza da casa do afinador, disse-lhe que ele não estava em condições de não cobrar nada por mínimo que fosse seu serviço e deu-lhe um maço de dinheiro. Já eu, com uma nota de cinco, deixei o fruteiro ofendido - não muito, porque, para atenuar sua indignação, comi mais uma deliciosa atemoia madura, que ia estragar mesmo... Nas regiões onde não há exploração turística, somos servidos por gente sem malícia. Mas sempre fico triste quando protagonizo essas cenas de inocência, porque prevejo a ruína dessas pessoas ali na esquina, de onde vem chegando o mundo mercantil.

     Nesse último dia, a paisagem mudara: infinitas pastagens para gado bovino e quase nenhuma cana após Santa Albertina. Acho que pecuária de corte, grandes fazendas, gado para os frigoríficos. E muitas mangueiras. Não plantações de mangueiras para fins comerciais, mas pés de manga espalhados por toda parte, nos quintais, ao redor das casas rurais, e nas margens das estradas, e nas praças e nas calçadas. As mangueiras como árvores ornamentais e de sombra. Aquilo na época da fruta deve ser uma doçura e uma podridão e muito mosquito: as árvores são enormes e produzem muito. A fruta amadurece no pé, ninguém colhe. A fruta cai no chão e apodrece: e aí então é muita mosca pra manga. Mas é pouca gente e muito espaço, acho que não incomoda. Porque as mangueiras, assim como os abacateiros e as jaqueiras, são realmente árvores belas e frondosas, mas os frutos são muito escandalosos e as sementes germinam fácil; se bobear elas invadem e melecam o mundo.

     Enfim o mar doce Paranazão. Nasci e cresci por aqui, mas fui ver esse rio pela primeira vez lá na foz do Iguaçu, do lado argentino. Pense no dobro de um rio enorme: é o Paraná! E a grande passagem, ferrovia por baixo, rodovia por cima: a ponte. Mas lá de dentro do meio do centro dela, não parei, não fotografei, não contemplei os três estados. Não podia parar, eu fugia. Dos fiscais e das furibundas jamantas. No meio da ponte estamos quase equidistantes das terras paulistas, mineiras e matogrossenses. Se eu tivesse coragem de parar ali no cume da ponte e olhasse para o norte, o meu lado direito se voltaria para São Paulo e eu veria, a uns três quilômetros, uma língua de terra entre dois mares que se perdem território a dentro, como se fosse uma ilha; mas não: essa língua de terra é a extremidade oeste do triângulo mineiro; o mar da direita é o Rio Grande e, à sua direita, está o territória paulista; o mar da esquerda é o Rio Paranaíba e, à sua esquerda, está o território matogrossense. Se eu virasse o corpo e olhasse do lado oposto, veria as duas pistas de rolamento e restos do mar doce ao fundo, águas paradas desde a barragem de Ilha Solteira, 50 Km ao sul. Isso se minha visão não fosse obstruída por carretas e caminhões e ônibus entupindo as quatro faixas e, nesse caso, estaria em maus lençóis, porque na ponte não há acostamentos. Por isso eu fugia; para não ser ultrapassado por uma saraivada de caminhões. Um de cada vez, tudo bem, eles desviam, passam na segunda faixa; o problema é se passam dois emparelhados, comigo ali, na risca da primeira faixa, colado ao muro de proteção para não ser varrido pelo vento ou colhido pela ponta de uma carreceria. Por isso é proibido na ponte o tráfego de veículos lentos, como  máquinas agrícolas, veículos de tração animal e bicicletas, além de pedestres. Placas enormes avisam da proibição nas cabeceiras da ponte. Eu não sabia disso, quando, no meio da viagem, planejei atravessá-la. E aí, parado na cabeceira, sentia o coração apertado em ter de abortar meu projeto. Não pelas placas proibitivas, mas de medo do tráfego pesado. São 3.800 metros até o outro lado, avisa outra placa. Já estava desistindo e disposto a voltar para Santa Fé, quando reparei que o trânsito acalmara. Quase sem pensar, embiquei a bicicleta na pista e desembestei ponte adentro na maior velocidade possível, contra um leve aclive na primeira metade e equivalente declive na metade final. Não demorou e uma carreta apontou na entrada da ponte, em minha retaguarda. A margem oposta parecia logo ali, calculei que chegaria do outro lado antes da carreta. Calculei mal, porque a tal margem não se aproximava, por mais que eu me aproximasse dela. Ali no meio, temos a ilusão de que o fim está próximo: é realmente ilusão. Enfim, a carreta passou e eu ainda estava lá no meio. Sorte que nenhum outro veículo vinha emparelhado e o motorista camarada respeitou meu espaço. Não cronometrei, mas devo ter feito meu melhor tempo para os 3800 metros...

     Enfim - e pela primeira vez - eu estava no Mato Grosso. Três mil e oitocentos metros atrás eram 14 horas e ali, na outra margem, o relógio marcava 13 horas. A viagem era grande, dobrava meridianos. Ali em Aparecida do Taboado ninguém respeita essa hora a menos, só os ônibus, na rodoviária, talvez porque vêm lá do fundão do estado, onde a diferença realmente conta. Todo mundo segue o horário de Santa Fé, o horário paulista... Passei entre os caminhões parados no posto fiscal como um mosquito em meio ao gado: ignorado porque insignificante. Nem eu estava preocupado com a fiscalização; com esta, me preocupei só até a metade da ponte: caso os guardas paulistas me alcançassem, eu alegaria já ter atravessado a "fronteira"; se os guardas matogrossenses me encontrassem, eu deveria ser removido para suas margens, para onde eu realmente queria ir... isso contando com a racionalidade de todo mundo, é claro. A rigor, ali é o Mato Grosso do Sul, o estado do pantanal, propaga uma placa. Que eu simplifico para Mato Grosso apenas, em respeito às minhas memórias infantis: meus tios viviam me convidando para uma viagem ao Mato Grosso, em tom provocativo:

- Vamu pro Mato Grosso, muleque!

     Só que a viagem seria a cavalo, atrás ou à frente de uma boiada, numa grande comitiva. Agora velho eu realizava o projeto, meio capenga, no entanto: protagonista do anticlimax da solidão, sem gentes ou animais pra conduzir ou guiar; sem tios e de bicicleta, a antítese do cavalo.

     Por fim, os aperreios para voltar no ônibus, com a bicicleta. Quando o ônibus encostou na plataforma da rodoviária de Aparecida do Taboado e dele desceu um motorista barrigudo e bonachão, sorridente com os passageiros, relaxei: carrego o preconceito de que todas as pessoas bem humoradas são inteligentes e flexíveis. Cheguei, pedi, ele disse não:

- Temos ordens. Bicicleta só embalada e com nota fiscal; a gente atravessa o rio, tava tendo muito roubo, tinha gente que roubava aqui e ia vender em Santa Fé.
- Mas eu tenho cara de ladrão de bicicleta?
- Não tem, tô vendo; e a bicicleta é a cara do senhor, sei que é sua. Mas ordens são ordens... só levo se a moça colocar no bagageiro sob responsabilidade dela.

     Diferente do que eu pensara, aquele bem humorado cumpria estritamente as ordens. Então a mocinha do guichê de passagens, que havia me dito, ao vender o bilhete, que dependia do motorista embarcar a bicicleta, mas que certamente não teria problema, foi obrigada a ligar para a garagem e pedir autorização. Que foi dada, em caráter excepcional!

     Eu faria uma escala em Fernandópolis. E ali a pendenga se repetiu. Só que eu não queria surpresas na hora do embarque: queria a definição na hora de comprar a passagem, doze horas antes. O vendedor do bilhete ligou para a regional de Rio Preto. Não podia. Bicicleta só embalada e com nota fiscal. E a bicicleta ali, encostada no muro, suja de 740 Km de estradas, mais de 200 Km em estradinhas de terra e a nossa casa a 560 Km de distância, tão longe... Então, sob o peso da burocracia e da obtusidade da empresa de ônibus (Itamarati), eu quase impotente ali na frente do guichê, um guarda municipal me toca no ombro e pergunta se a bicicleta era minha, que era proibido, que não podia, que a tirasse dali... Agora estou lembrando que quase virei um sopapo na cara do fulano; faltou pouco, mesmo, porque minhas reservas de paciência psicológica estavam quase no fim. A cidade onde cresci, que chegou a cobrar imposto de bicicleta, tantas havia, bicicletas como moscas no milharal, cuja população, agora, as abandonava e as restringia, em troca das motocicletas, constatei eu depois, pedalando pelas saudosas ruas. Em São Paulo, entramos com as bicicletas nas lojas, elas são bem-vindas, vistas com simpatia. Em Fernandópolis já hostilizavam as bicicletas no tempo em que eu ia para a escola com uma, porque emplacar e taxar bicicleta é, no mínimo uma atitude hostil, para não dizer burra. E o guarda ali, tocando meu ombro, mandando tirar a bicicleta, personalizando a obtusidade da população local. O sangue subiu, mas consegui me controlar e deixei o guarda falando sozinho e continuei minha arenga com o bronco funcionário do guichê:

- Tem alguém com quem eu possa falar? - perguntei.
- Tem o gerente daqui, mas não adianta. O regional já disse não - respondeu o funcionário.
- Quero falar com ele assim mesmo - retruquei.

     Numa salinha simples, o gerente em mangas de camisa logo se interessou por minha aventura, contei-lhe detalhes, falei dos 750 Km de chão que acabara de vencer em nove dias... E então, a ordem da regional de Rio Preto se fez desordem na gerência local de Fernandópolis e a minha bicicleta pôde viajar à vista, inteira, montada, livre e altiva, como bagagem. Sim, eu havia retrucado, com o nulo funcionário do guichê, que a bicicleta não mais era mercadoria: havia rodado muito, estava suja, tinha dono, tinha história; durante a grande viagem recém-finda sequer um pneu furara, mas antes já tivera raios rompidos, pneus trocados, já padecera em oficinas. Tivera nota fiscal também, como toda pessoa usada teve um dia registro de nascimento. Mas agora viajava comigo: com o mesmo status das minhas cuecas, era minha bagagem. Toda ordem só é boa se contiver inteligência, se for legítima, se for justa. E toda ordem parecerá justa enquanto ninguém pedir para falar com a gerência... O destino de toda ordem é, cedo ou tarde, virar desordem. E progresso.
São Paulo, agosto de 2016.

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