terça-feira, 23 de agosto de 2016

SEXTO DIA: GUARACI A ORINDIÚVA

SEXTO DIA: GUARACI – RIBEIRO DOS SANTOS – ALTAIR – ICÉM – ORINDIÚVA.

     Guaraci ficava longe do Rio Grande, coisa de 10 Km ou mais. Então fizeram uma barragem muito alta a jusante, na altura de Fronteira, MG, e Icém, SP, onde o rio era conhecido por Marimbondo, talvez em referência ao zunido que as águas faziam ao passarem apertadas entre margens muito estreitas. E um córrego afluente, convenientemente posicionado, trouxe o Rio Grande para perto de Guaraci. Isso ocorreu em várias cidades ao longo do rio, como Miguelópolis, Cardoso e Mira Estrela, por exemplo. Então tome prainha, loteamento, especulação turística e imobiliária. E nenhum rio. E muita água parada. E peixes de mar nos restaurantes, como o que comi em Rifaina, à beira da represa... Esse fenômeno das águas represadas subirem e irem longe, inundando tudo, é típico da região, com seu relevo ameno, ondulado, quase plano. O inocente corguinho ainda corria uns 10 Km até desaguar no grande rio, no tempo da água corrente. Mas corria devagar, formando poços - onde se nadava e se pescava -, por causa da pouca declividade da região. Qual comum mortal poderia imaginar que um grande muro lá longe, nem tão alto assim, poderia transformar aquele vale do corguinho num mar de água doce? Foi o que consideraram, incrédulos, os caipiras com suas casas de barro construídas na beira do corgo, quando os funcionários de Furnas Centrais Elétricas vieram lhes comunicar que teriam de abandonar a terra, que seria inundada. Isso no tempo da construção da hidrelétrica. Em compensação, dividiram o que sobrou da terra de beira-lago em minúsculos pedaços e os venderam para construção de ranchos, onde outros caipiras passam os finais de semana a se empanturrarem de cerveja e carne: de vaca !

     Nesse sexto dia de viagem, subi antiga estrada, em terra, paralela ao tal afluente conveniente de Guaraci. Porém, no sentido contrário ao das águas paradas. O córrego nasce lá perto da rodovia e de Ribeiro dos Santos, povoado distrito de Olímpia, SP, onde tenho história e parentes. Quando criança, morei na cabeceira desse córrego. A estradinha me era familiar. 13 quilômetros. Eram 8h da manhã de um sábado e meus tios aposentados ainda estavam dormindo. O portão de ferro estava aberto e entrei, para bater palma – a campainha de caipira. Não existe campainha naquele mundo. A cachorra enorme e saudável me olhou, muda, me recebendo como amigo. Acho que ela soube reconhecer os traços familiares do dono. Esse irmão de meu pai me tentava, quando criança, a ir aventurar-se no longínquo e misterioso e pouco explorado Mato Grosso, a cavalo, e não se conformava em me ver seguindo seu conselho, tantos anos passados, mas, de bicicleta! Ora, não tem nada mais broxante para um boiadeiro frustrado que uma bicicleta. Então ele, após ligar para minha irmã, para se certificar de que seu sobrinho não fugira de um internato especializado, concordou em tomar café e comer biscoitos comigo, juntamente com minha tia, que já aceitava minha normalidade desde que me viu todo troncho, de barbas brancas e sorriso escancarado. É claro que eu não tinha o endereço dos meus tios – eles moram ali há pouco tempo, vindos do sítio – mas o primeiro senhor que encontrei não somente os conhecia como me informou o lugar exato em que eles moravam. Vá me procurar em São Paulo sem o meu endereço bem escrito e bem detalhado...

     Meu destino naquele dia era Orindiúva. Porém, teria de atravessar longa e detalhada história antes: Altair e Icém. Essas duas cidades faziam parte da rota entre minha casa e a casa dos meus avós maternos, que eu, quando criança, fazia junto com meus pais e irmãos de trem e de ônibus. Minha família paterna se desenvolveu aí nesse eixo, num tempo em que não havia a rodovia da laranja – porque nascia em Bebedouro, terra da laranja -, mas havia a estrada de ferro de bitola estreita e maria-fumaça, ramal que saía de Bebedouro e ia até Palestina. Depois, início dos anos 1960, vi as máquinas abrirem essa rodovia, nas proximidades do município de Severínia, que se você olhar no mapa vai ver que fica em linha com Bebedouro e Paulo de Faria, seu trajeto completo. Tal rodovia veio para substituir a ferrovia, que foi desativada poucos anos depois. Então, vejam que privilégio, fui um menino de esperar trem em estação, marias-fumaças esbaforidas que me assustavam, vagões de madeira, faíscas da lenha queimada nas locomotivas entrando pelas janelas dos vagões e provocando pequenos buracos na roupa de quem era atingido; e vi as motoscrappers rasgando a terra – cortando nos morros para despejar nos vales – e construindo a rodovia. Porque hoje nenhum menino vê a abertura de um caminho novo: vê, quando muito, a chegada do asfalto num caminho velho.

     Pois bem, várias equipes realizavam melhorias na rodovia, enquanto eu ia tranquilo por excelentes acostamentos. Altair está 3Km distante da rodovia, coisa que para um ciclista cansado faz diferença: 3 pra ir, 3 pra voltar. Fotografei a igreja e continuei a viagem. Icém é o nome atual de antigo povoado chamado Água Doce. Ali almocei bem e ainda comi um delicioso pudim de coco como sobremesa, na padaria onde parei para comprar água. Pura gulodice, pensei que ia passar mal. Mas meu estômago conseguiu digerir tudo, e meu fígado não entrou em pane com tanta sacarose... Acho que ali consegui repor meu estoque de açúcar e um pouco mais... lembrando que eu já vinha abusando das coca-colas açucaradas que, apesar de tanto – dizem que levam mais de 10 colheres de sopa de açúcar por meio litro – parece que não repunham em carboidrato simplório a energia gasta.

     Orindiúva é a terra dos meus avós maternos. Conheço-a desde criança. Aliás, na última vez que havia estado na cidade eu ainda era criança. Ali, coisa de duas vezes por ano, eu me integrava à turma de meu tio caçula, pouco mais velho que eu, e vivia a diferente rotina dos moleques da vila, e conhecia outros mitos e outras lendas que todo grupo de crianças forja, e conhecia novas regras do futebol, e novas expressões chulas, e ia ao cinema ver Hércules, Maciste e Giuliano Gemma: deuses gregos, gladiadores romanos e mocinhos e bandidos do oeste norte-americano à italiana (westerns spaghetti). Acontece que, enquanto estive ausente, instalaram uma Usina de Cana no município... E como todo equipamento avançado do capitalismo – tal indústria criou vários empregos bem remunerados e forjou uma classe média na vila. Enquanto isso, os impostos gerados pela comercialização da cana de toda a região e a produção de etanol e talvez, açúcar, eram canalizados para a prefeitura da cidade, cujo prefeito tal usina ajudava a eleger... Enfim, a cidade até que não cresceu tanto, mas construíram outra por cima da antiga. As casas antigas foram drasticamente reformadas ou demolidas, praças foram totalmente remodeladas; investiu-se em escolas e lazer para a população. Com o aumento da circulação de dinheiro, o comércio se expandiu e se sofisticou, a especulação imobiliária se implantou e a violência urbana de pequenos furtos explodiu, para desassossego dos antigos moradores e raiva daqueles que não se beneficiam nem indiretamente do progresso etanólico. Porque antes havia dois ou três fazendeiros ricos e todos os demais eram pobres. Agora há a famosa classe média, que gera consumismo de um lado e inconformismo do lado da expressiva parcela da população que continua não podendo comprar.  E vejam como é sintomático o nome do hotel em que me hospedei na cidade: Exclusiva Palace Hotel. É claro que foi a maior diária que paguei durante toda a viagem.

     O certo é que me perdi em Orindiúva. Não consegui achar o centro, por minha própria conta, como fazia nas demais cidades de igual porte e nunca dantes visitadas. É interessante como os preconceitos limitam nossa capacidade visual e nossa razão. Eu tinha uma cidade na cabeça, e dela me lembrava muito bem: a praça da matriz, o campo de futebol, a rua do centro telefônico, as colinas adjacentes, o cemitério, a inclinação do terreno... Porém, como já dito, veio a nova realidade sócio-econômica da usina de etanol e soterrou meus conceitos. Conceitos que me dirigiam, entre  ruas que pareciam mais estreitas sob casas muito mais altas. Continua uma cidade pequena, de menos de 10 mil habitantes. Se eu entrasse ali zerado – sem nenhum prévio conceito sobre a cidade – eu andaria por ela facilmente e encontraria o centro sem dificuldade, como fiz em Igarapava e Miguelópolis, por exemplo, cidades mais que duas vezes maiores. E, enquanto andava, boquiaberto com a mudança, ia vendo as placas indicativas dos bairros. É, a cidade minúscula já se divide em bairros, parece que isso ajuda na comercialização dos imóveis. E me assustando com as enormes e barulhentas caminhonetas e seus sistemas de som no mais alto volume, que em todos os tempos e lugares sempre haverá pessoas com necessidades especiais de serem notadas; e se, para tal, outrora, usavam de fogosos cavalos e arreios paramentados com brilhantes metais e tilintantes argolas, hoje usam o que é oferecido e chancelado pela indústria do consumo: para tanto, há TV, smartphone e até outdoor na cidade.

      Ainda na noite de sábado, visitei a beira do Rio Grande, levado pelo Celso, grande amigo dos tempos de república em S.Paulo, que estava passando férias lá na sua Orindiúva natal. Um grande trecho de rio de verdade, que sobrou entre todas as represas. Uns 30 Km de água corrente, entre a barragem de Marimbondo e o remanso da represa de Água Vermelha, rio abaixo. Um rio enorme e compacto de 700 metros de largura e muita sustança de águas resolutas, correnteza discreta mas consistente, indicativos de um canal não só largo mas profundo, com mata ciliar de ambos os lados, sendo que do lado mineiro tal mata é mais preservada. Do lado paulista, uma confusão de casas de veraneio, restaurantes e pequenos barcos, numa arquitetura distributiva muito parecida com algumas ruas tortas e vielas das praias de Ubatuba. Tais casas são chamadas de rancho, sendo que ali é verão o ano inteiro e mais um pouco. A caótica distribuição dos terrenos e do sistema viário não se explica pelas deformações e obstáculos do terreno, como em muitas praias do litoral norte paulista, mas pelo histórico de ocupação, creio. Antes desse costume de levar a família toda para a beira do rio, e passar o final de semana na boa-vida, muitos caipiras iam pescar à noite, somente homens machos... Tanta macheza foi, com o tempo, carecendo de algum conforto; então construíam ranchos de verdade, com varas cortadas ali mesmo, e cobertos de capim. Nesses ranchos, os mais fracos ou menos pescadores se abrigavam nas madrugadas úmidas e cheias de olhos de bichos à espreita e mosquitos por todo lado. Eram poucos, em terras de ninguém. Tal ocupação não carecia de racionalidade, falta essa que resultou na muvuca atual.

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