terça-feira, 23 de agosto de 2016

OITAVO DIA: CARDOSO A MESÓPOLIS

OITAVO DIA: CARDOSO – SÃO JOÃO DO MARINHEIRO – MIRA ESTRELA – INDIAPORÃ – OUROESTE – POPULINA – MESÓPOLIS (ufa!).

     Sim, tudo num único dia: 91 Km. Tudo estrada vicinal asfaltada. Asfalto de boa qualidade, porém nenhum acostamento. Ainda bem que a intensidade do tráfego é baixa. Saí de Cardoso às 8h e cheguei a Mesópolis às 16h. Descontando a parada do almoço, deu quase sete horas de efetiva pedalada. Velocidade média de cerca de 14 Km/h. Sim, preciso descontar as paradas rápidas para fotografar as igrejas das praças principais de todas essas cidades. Essa sucessão de cidades num único dia embaralha a cabeça do viajante: em média, a cada 15 quilômetros uma cidade, ou seja, uma cidade a cada 1 hora. Porque, diferente de quem viaja de carro, em alta velocidade, com os vidros escuros levantados, o ciclista entra na cidade, vai devagar, com o corpo inteiro à mostra, para, fotografa, compra água ou lanche ou almoça, pede informações, vê de perto a população, é visto por ela... Dez dias depois, o cronista se confunde: em qual cidade eu vi aquele sujeito esquisito, aquela padaria diferente, aquela praça original?

     Mas de Mira Estrela não esqueço a quantidade de placas informativas sobre direções de localidades. Dentro do perímetro urbano, em plena rua principal, muitas placas. Elas não teriam chamado minha atenção se fossem do tipo e tamanho comuns, como tantas outras que encontrei em outras cidades: mas as placas de Mira Estrela são dignas de qualquer rodovia de pista dupla e velocidade de 110 Km/h; são daquelas que ficam sobre a rua, sustentadas por um poste curvo fixado na calçada, como se veem nas rodovias de maior movimento e velocidade. Será que o prefeito era acionista da fábrica de placas e postes? Ou será que aquela megalomania foi discutida entre os vereadores e aprovada pela população, como um artifício para iludir o forasteiro de que aquela é uma grande cidade de 3 mil habitantes? Mas o pudim da padaria da esquina da praça é muito bom e o atendimento é perfeito. Em Mira Estrela garanto que você não se perde.

     Impressionante a quantidade de animais mortos na estrada. Domésticos e selvagens. Entre os animais domésticos, os cães são as maiores vítimas, mas há também muitos gatos. Perto de Icém vi uma vaca morta na beira da estrada. Em outra viagem, a pé, perto de Tanabi, SP, vi um porco enorme. E vi também um urubu morto. Urubu é animal doméstico ou selvagem? Entre os animais selvagens, muitos pequenos, de difícil identificação. Muitos tatus, porque são inconfundíveis as suas carapaças. E perto de Cardoso vi um tamanduá-bandeira morto no meio da pista. O tamanduá-bandeira é um mamífero de grande porte, para os padrões brasileiros. Era um tamanduá adulto, creio que pesava mais de 50 Kg. Todos esses animais apodrecem no local, sem ninguém recolher ou enterrar. Quando há urubus, eles fazem o serviço de limpeza... mas é preciso esclarecer que há regiões em que não há urubus. Entretanto, suponho que essa matança é insignificante perto daquela promovida pela agricultura mecanizada de larga escala: aquela que não deixa uma árvore em pé em centenas de hectares, impedindo a escala no voo das aves; que ara a terra até o barranco do córrego, destruindo a mata ciliar; que pulveriza todo tipo de veneno de avião! Gente, “pulveriza todo tipo de veneno de avião” merece ponto de exclamação: é a eliminação massificada de toda a fauna e a flora que não interessam naquele específico momento e lugar àquela específica pessoa. O veneno de avião é a melhor metáfora para uma máxima da moda: viva o presente! E para uma máxima antiga, mas vigente: o futuro a deus pertence. Porque provocar uma nuvem de inseticida para matar uma lagarta e, com ela, matar toda a cadeia de insetos e infinitos organismos vivos responsáveis pelo equilíbrio ecológico, será certamente objeto de estudo dos historiadores do futuro. Mas não poderia terminar esse parágrafo, que fala da morte de animais, sem mencionar a quantidade de cruzes na beira da estrada. Próximo a Altair, vi três cruzes bem juntinhas. Vi mais de dez duplas de cruzes em diferentes pontos. Em quase todas as curvas ou cruzamentos localizados nas lombadas – que dificultam a visibilidade dos motoristas – há ao menos uma cruz. Ao menos a cruz significa que o corpo não virou comida de urubu, foi recolhido, e o morto não foi esquecido...

     Pouco antes da entrada para Indiaporã tive uma grata surpresa. Uma placa regular, colocada por quem administra a estrada, em cores vermelha e branca, dizia:”CUIDADO, Trabalhadores rurais acampados a 200 mts à margem da pista”. Normalmente esses marginais são considerados marginais... e tratados sem nenhuma condescendência. São marginais, porque estão à margem da vida, sem casa, sem terra, sem emprego, sem reconhecimento. Sem assistência à saúde, à educação: sem direitos; sem cidadania. Sem água, sem banheiro, sem eletricidade. Sem paredes sólidas. São marginais porque ocupam as margens das estradas para morar. São marginais porque questionam e contestam o sistema fundiário do país. Porém, o povo estabelecido da região os trata como marginais, no sentido de bandidos, vagabundos, baderneiros. Sei de gente que possui um sitiozinho de dez hectares e têm medo de ser desapropriado pelo governo por pressão dos sem terra. Em geral, todos os organismos do poder local – prefeitura, câmara, fórum, delegacia de polícia, igreja, sindicato, escola, maçonaria, Rotary club, rádios, jornais, clubes, comerciantes, fazendeiros, industriais, desprezam esses marginais das estradas – os sem terra. Mas a placa de Indiaporã indica que alguém aí, nessa relação de reacionários, considera esses marginais como “trabalhadores rurais acampados”. Isso é um alento. Isso me comove.

     Em Ouroeste, parei para almoçar. É um dos mais novos municípios da região e um dos mais progressistas, segundo os critérios locais de comércio movimentado. Há duas explicações: a Usina de cana da Bunge e a Usina de Hidreletricidade de Água Vermelha. A Bunge também é dona da usina de cana de Orindiúva, lembram-se? Ambas carreiam muitos recursos para o município, sob a forma de impostos e outras ajudas interessadas, além de favorecer enormemente aquele fenômeno já discutido em parágrafo anterior, que é o de concentração de salários mais elevados que os praticados pela economia tradicional e o surgimento de uma classe média local, com todas as implicações de consumo e costumes que isso acarreta. Antes havia plantação de algodão, milho, arroz, feijão, tomate, manga, banana, laranja. Havia criação de gado leiteiro, porcos, galinhas, carneiros. A diferença de renda entre sitiantes e demais trabalhadores rurais era insignificante. Poucos fazendeiros e comerciantes podiam comprar suntuosas caminhonetas e entupir a casa de modernosa parafernália. A classe média era representada por pouquíssimos funcionários públicos. Veio a usina de etanol e arrendou a terra toda. Agora só tem cana. Os sitiantes mudaram-se para a cidade. A usina tem um só dono e precisa da hierarquia para funcionar: um faz, três fiscalizam, dois controlam e um superintende. Quem faz ganha 1, quem fiscaliza ganha 3, quem controla ganha 10 e quem superintende ganha 30. Tais diferenças eram impensáveis no regime anterior. Talvez isso explique a diminuição do compadrio. Talvez explique o desaparecimento das Folias de Reis, as rodas de viola... Talvez isso explique certas ocorrências policiais que têm se avolumado ultimamente na delegacia local...

     Almocei e fui sentar na praça, num banco sombreado ao lado da igreja, para consultar o celular e minhas anotações, visando o planejamento do restante da viagem daquele dia. A bicicleta do lado... Uma mulher se aproximou: não era uma mulher comum ali da cidade, via-se pelo jeito de andar e pelo vestuário. Bem vestida, mas sem exagero, andar resoluto mas suave, soube que não era dali quando ela se dirigiu a mim com seu celular, pedindo que tirasse uma fotografia dela na praça, para ficar de lembrança da cidade. Mas também soube que ela não era da cidade pelo simples fato dela ter se dirigido a mim. As mulheres locais não se dirigem a estranhos, a menos que sejam putas (o termo prostituta é desconhecido na região), ou que sejam muito jovens, ingênuas. Ela não era muito jovem nem ingênua nem puta: mas não era santa... Até porque as putas só atuam na “zona”, nessas cidadezinhas (Zona do Meretrício). Pediu que esperasse ela passar batom, ajeitou a roupa, penteou os cabelos..., pouco se lixando para meu olhar de escárnio. Escolheu com cuidado o cenário de fundo, tirei várias fotografias, ela não sossegou enquanto uma delas não a satisfez: queria ficar bonita na foto. E eu solícito e bem comportado, não toquei na mulher. Um fotógrafo tem o direito de ajeitar a modelo, erguer seu queixo, endireitar o nariz, revolver os cabelos, ajeitar o colarinho... Enfim, satisfeita, ela saiu leve e tranquila como chegou, pela rua principal, e fez tiauzinho quando eu a ultrapassei de bicicleta, em direção a Populina. Enquanto este senhor quase machista via a mulher se afastar, com seu andar de gata mansa, pensava... sei lá, acho que não pensava nada. Agora é que penso: é possível mulheres assim, independentes e seguras, no extremo noroeste paulista?

     Pouco antes de ultrapassar o limite de município entre Ouroeste e Populina, passei sobre a Ferrovia Norte-Sul. O trecho está pronto, à espera dos trens. Sou facilmente impressionado pelos rios e pelas estradas de ferro. Em Populina, após passar a viagem inteira comprando água, descobri um equipamento urbano que é usual em quase todas as cidades da região: a água potável gelada na praça: um bloco grande de alvenaria abriga um refrigerador invisível e, dele, jorram várias torneiras. Quem me informou foi um jovem mecânico da usina, que aguardava o ônibus na praça, para voltar para casa. Formado em administração, com vários cursos de especialização, continua no trabalho sujo e braçal de mecânico porque não consegue ganhar como administrador o que ganha como mecânico da usina. No tempo da escravidão, essa região era inexplorada pelos europeus, mas os desbravadores que chegaram depois trouxeram o preconceito que imperava no regime escravocrata contra todo trabalho braçal. Todos sonham em trabalhar num escritório, com ar condicionado, de camisa fina, gravata... Entretanto, o jovem vestia o uniforme de operário da usina. Nessas cidades de usina, o que mais se vê pela rua é gente vestindo esse uniforme. É muito parecido com esses usados pelos trabalhadores da  Congás, da Eletropaulo: calça e camisa de algodão grosseiro e forte, com faixas refletivas envolvendo pernas e tronco. Só que, me pareceu, esse uniforme é motivo de inveja da população local, que quase todos gostariam de envergar um. Então, quem pode, usa-o para ir e vir, como certos jalecos brancos com estetoscópio no pescoço, aqui entre nós, na cidade grande...

     E eis novo acampamento de sem terras. Eu já havia entrado no território de Mesópolis quando o vi, num terreno na beira da estrada. Mas estes não eram marginais, da margem da estrada. Estavam num terreno bem delimitado, fora dela. Havia até postes de eletricidade no “loteamento” de barracos. Muitos cobertos com telhas de amianto, várias caixas d’água. Também várias bandeiras do NMTA na ponta de altos bambus. Uma placa grande identificava-o: “Acampamento Alto Alegre Mesópolis SP.  NMTA. Luta por justiça no campo e igualdade social – Frente de Jales”. E na placa também havia o logotipo do Novo Movimento de Trabalhadores Rurais Acampados e Assentados. E havia ainda outro logotipo menor, em que se podia ler “Sintraf Noroeste Paulista” e “Agricultura Familiar”. Com esse acampamento, podemos aprender que os sem terras vão muito além  do MST – Movimento dos Sem Terra. MST é apenas a organização mais poderosa e mais conhecida. Mas há vários outros movimentos, patrocinados por outros diversos interesses, como esse de Jales. O “SINTRAF” deve conter as palavras Sindicato e Familiar, suponho. As benfeitorias nos barracos e o terreno devem ter sido financiados pelo... imposto sindical? Acho que isso explica o “bom comportamento” de não invadir a faixa pública da estrada, ao contrário dos acampamentos de Colômbia e Indiaporã. Estes, registre-se, não exibiam qualquer placa, qualquer bandeira: significa dizer que também não eram do MST, que sempre faz questão de desfraldar sua bandeira. Podemos aprender mais: há muita gente sem terra querendo terra que não está para brincadeira, porque há muito latifúndio, em pleno Estado de São Paulo. Mas, por favor, ó você proprietário de uma fazendola de 100 hectares de terra: não vá dar o vexame de pensar que é latifundiário e se juntar a eles para combater esse povo barraqueiro!

     Finalmente, entrei em Mesópolis, minha meta naquele dia. Não, passei por fora, quando vi já estava saindo do perímetro urbano, voltei do outro lado até a praça, da qual havia passado ao lado na entrada e não percebido. Cidadinha de 2 mil habitantes... não, não havia hotel ou pousada ou qualquer coisa parecida. Em Populina havia...  Só que eu vinha de Populina e retroceder jamais! E a senhora que me informava me inquiria com os olhos: como é que eu iria me virar? E lá da frente da casa dela continuava me espreitando, comodamente escarrapachado sobre o bem cuidado gramado da praça, ao lado do banheiro público. Como é que eu podia ficar assim tão à vontade sabendo que não tinha onde dormir naquela noite? Ela não podia imaginar que aquele rolo sob a mochila na garupa da bicicleta eram uma barraca, uma esteira isolante-térmico e um saco de dormir. Ela não podia imaginar que um senhor de idade, civilizado, poderia ter a ousadia de armar aqueles apetrechos e dormir ali na cidade dela. Porque a gente só imagina ou deduz aquilo que está em nosso horizonte, ou que já nos insinuou alguma vez. Quase tudo que pensamos ou sonhamos ou criamos nada mais é que a condensação de nuvens esparsas de realidade a nos envolver: então, provocamos a faísca – involuntariamente, quase sempre – e a criatura explode. Mas nunca passou pelos céus de Mesópolis um ciclista viajante em busca de pouso e, se passou, não portava a determinação de passar a noite ali, com ou sem hotel.

     Homens conversavam na calçada, o sol já se punha. Parei, expliquei-lhes minha situação. Eu nunca tenho a solução completa, nessas ocasiões, que já enfrentei inúmeras vezes, no meu tempo de andarilho. Minha única certeza é que vou passar a noite ali, de uma forma ou de outra. Então converso com as pessoas locais, informo, conto alguma coisa da viagem. Isso desperta simpatia, vontade de ajudar. Faço perguntas, induzo respostas. Sempre alguém aparece com alguma sugestão. Nenhuma até hoje foi a de oferecer um espaço da própria casa...

- Por que você não vai na prefeitura?

     Fui. Eram 16h30, tudo fechado. Mas ao lado estava o bonito gramado do campo de futebol, onde minha barraca se arrumaria muito bem. Apenas o gramado e as traves dos gols, sem mais nada, à guisa de estádio municipal. O gramado sem nenhuma falha, nem embaixo das traves. Sinal de que ali pouca gente joga bola. Porque, ao menos embaixo das traves, não há gramado que resista a vinte e dois jovens fominhas de bola. Nem precisa tanto, meia dúzia de cada lado já dá boas peladas. Com tanto jogo virtual e atleta de sofá, acho que 2 mil habitantes já não conseguem formar um time de futebol. Então fui ao posto da polícia militar. Nessas pequenas cidades não há delegacia, as pendengas são resolvidas por dois PMs e uma viatura, abrigados numa pequena casa. O policial me atendeu descalço, atrás das grades de ferro que separavam a casa da rua. Jovem, menos de 25 anos de idade, contei-lhe do meu desejo de armar a barraca – eu já não estava mais levantando dados para formar uma solução, mas querendo resolver a questão prática de onde armar a barraca – quando ele, antes que eu sugerisse o campo de futebol, disse, quase ordenou, que eu acampasse ali atrás do posto policial, num galpão cimentado e coberto, com luz e lavatório e até tomada para carregar o celular. O local era muito bom, mas confesso que fiquei um pouco frustrado por não ter acampado ao léu, naquele gramado bonito ao lado da prefeitura.

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