terça-feira, 23 de agosto de 2016

GRANDE CRÔNICA DE VIAGEM (grande no tamanho: 40 pg.)

CRÔNICA DA VIAGEM À FOZ DO RIO GRANDE
(Esta é a primeira postagem. Na sequência, outras oito postagens, uma para cada dia)
 
     Prezada(o) leitor(a),

     Um aviso: não vi nada extraordinário. Antes que você insista até o longínquo final e depois venha me acusar de sem-graça, informo-lhe que não encontrei nenhuma alma penada, não vi nenhuma assombração, não recebi nenhuma revelação do além, nenhum disco voador, nenhum fenômeno natural digno de espanto. E olha que passei nuns grotões medonhos em horas de pouca luz onde, certamente, o sobrenatural se manifesta, sem contar os inúmeros cemitérios em que passei na frente. Vi quase nenhuma floresta, mas vi árvores imensas e águas sem fim e vi nascentes e poentes do sol muito lindos e também a lua cheia: nada despertou em mim qualquer abalo místico que pudesse narrar aqui para contagiar você. Talvez tenha visto algo sublime para mim, um canteiro de cebolinha verde num barranco da estrada, perto de Indiaporã, ao lado de um barraco de lona plástica preta. Mas reconheço que é algo ordinário demais para impressionar sua sensibilidade. Recomendo-lhe que, antes de continuar, vá ao mapa, encontre o Rio Grande ali no norte do estado de São Paulo; do outro lado do rio é o estado de Minas Gerais. É o meu universo, nesta longa crônica de viagem. Ora de um lado do rio, ora do outro, passei por 22 cidades e 6 povoados com minha bicicleta, percorrendo 750 Km, sendo 200 deles em estradas de terra. Enfim, não fui atacado por qualquer animal feroz - os cachorros não contam -, não sofri qualquer violência, não encontrei nenhum guru, nenhum artista em potencial; não fiz nenhum novo amigo. Nenhum arranhão, nenhum tombo, sequer um furinho no pneu da bicicleta.  Está avisado(a). Daqui para a frente, a responsabilidade é sua.

     A rigor, a foz do Rio Grande é no Oceano Atlântico, lá ao lado de Buenos Aires, Argentina, no chamado Rio da Prata. Mas eu fui somente até ali em Aparecida do Taboado, começo do Mato Grosso do Sul, onde o Rio Grande se encontra com o Rio Paranaíba para formar o grande Rio Paraná.
     Tecnicamente, a foz de um rio é o local em que suas águas desaguam num rio maior, ou num lago, ou no mar. A foz do Rio Grande seria, realmente, ali entre Santa Clara d’Oeste, município do lado paulista, e Aparecida do Taboado, município do lado de Mato Grosso do Sul, caso o outro rio, o Paranaíba, fosse maior, fosse o rio principal.

     É até possível que o Paranaíba seja maior que o Grande, porém nunca se pôde chegar a essa conclusão no olhômetro, dado que os dois grandes rios possuem vazões semelhantes no encontro. O Paranaíba é superior ao Grande no critério distância da nascente e no tamanho da bacia hidrográfica que drena. Sua nascente não é aquela que consta nos mapas – mais próxima que a do Rio Grande -, mas a do Rio Pipiripau, a nordeste de Brasília DF, ou a do Rio Corumbá, no pé da Serra dos Pireneus, fundão de Goiás.

     Essa dúvida poderia ser facilmente esclarecida, pelos critérios do IBGE, caso o local da junção dos dois rios não tivesse sido inundado pelo lago formado pela barragem da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, mais abaixo. É que o IBGE mede a profundidade do meio dos rios que se encontram. Aquele que for mais fundo é o principal. Esse local mais fundo no meio dos rios é chamado de talvegue, pelos técnicos. É aquele ponto no fundo do vale em que as encostas se encontram.  Agora, com as águas paradas, é provável que o acúmulo de sedimentos tenha igualado o fundo de ambos os rios.

     A propósito, adiciono aqui a informação de que também a nascente do Rio São Francisco não é aquela que consta nos mapas, mas a do Rio Samburá, no município de Medeiros, MG, segundo os técnicos da CODEVASF, Anais XI SBSR, Belo Horizonte, Brasil, 05-120 abril 2003 p. 393-400. Dessas polêmicas e descobertas surgiram as expressões nascente histórica – que consta nos mapas – e nascente geográfica – ou real, segundo os critérios técnicos.

     Alguém poderia sugerir como título do meu relato Viagem à nascente do Rio Paraná, um rio maior, mais conhecido, um rio internacional, além do termo “nascente” ter um apelo turístico mais forte que o termo “foz”, suponho. Mas não estaria correto, pelos critérios de determinação da nascente, acima expostos. O grande Rio Paraná nasce, ou nos fundões de Goiás, ou no alto do Mirantão, Serra da Mantiqueira. O Rio Paraná nada mais é que a continuação do rio principal entre os dois que se encontram ali perto de Rubinéa, SP, com outro nome. Coisa tão difícil de se saber ainda quando a mata virgem envolvia os leitos livres e intocados de ambos que o descobridor preferiu dar um novo nome ao curso resultante. Se bem que há relatos de que, nos primeiros tempos, o grande rio formado pela junção do Paranaíba e Grande era chamado de Rio Grande-Paraná...

          Portanto, minha viagem poderia ser melhor definida com o seguinte nome: Viagem ao encontro entre os rios Grande e Paranaíba. Mas optei por manter a inapropriada expressão “foz do Rio Grande” para se opor ao “nascente do Rio Grande” da minha viagem do ano passado. Ano passado, fiz viagem semelhante ao longo do Rio Grande, começando do mesmo ponto – Franca –SP, porém rio acima, em direção à nascente.

     De fato, em 18 de julho de 2016, embarquei num ônibus da Cometa no Terminal Rodoviário Tietê, às 7h e desembarquei em Franca, SP, às 12h30. Em maio de 2015 eu fizera a mesma coisa, com uma importante diferença: dessa vez, ao invés da mochila cargueira de andarilho, eu levava no bagageiro do ônibus a minha bicicleta. E se naquela eu subi o rio até sua nascente, dessa vez eu o desceria até seu encontro com o Paranaíba.

     O ponto escolhido do rio, ano passado, para começar a subir, foi aquele em que suas águas começam a dividir os territórios dos estados de SP e MG. Eu iria caminhar rio acima, portanto, somente no trecho em que o rio corre exclusivamente em território mineiro. Neste ano, eu deveria começar do mesmo ponto, porém pedalando no sentido contrário, a maior parte em território paulista e apenas parte da viagem em território mineiro.

     Antes, preciso agradecer à natureza, pela saúde, e às injunções sociais e algum acaso, pelo dinheiro, sem os quais eu não teria uma viagem confortável e sem sobressaltos. Ainda, à natureza, por algum parafuso a menos na cabeça - de nascença - sem o qual ela funciona mais solta, livre para me meter nessas laudatórias roubadas... mas tudo bem planejado, bem informado, até onde esses projetos alternativos permitem.  Sendo que aquele corpo saudável é deveras perecível e, quero dizer, não é de ferro... gosta de chuveiro quente (de preferência com ducha e aquecimento central...), gosta de colchão macio, lençóis limpos, cobertor, travesseiro, toalhas cheirosas, café da manhã com ovos mexidos e muitas frutas, luz elétrica, tomada para carregar o celular, vaso sanitário, ventilador para secar a roupa, lavatório para escovar os dentes... Portanto, a viagem sequer teria acontecido - e os assuntos continuariam adormecidos -, menos ainda segura, sem esse intelecto cheio de furos não preenchidos e, por isso, instável, inquieto. Pelo corpo, eu teria ido a uma agência de viagens e pagado aos profissionais para pensarem e planejarem tudo, comprarem passagens, reservarem hotéis, contratarem guias locais que me conduziriam são e salvo aos lugares mais vistosos... Pelo corpo eu não deixaria por menos: hotéis no mínimo 4 estrelas, viagens de avião e, Europa, que meu corpo é eurocentrista;  até minhas refeições seriam previamente planejadas e pagas... Contudo, se é o corpo que vai, é a alma que leva. E toda alma carece de motivo. E minha alma não se abala - quero dizer, não abala meu corpo - por causa do papa, do Vaticano, dos museus de Paris, das pirâmides do Egito, das muralhas da China, do Tâmisa, das colinas de Jericó, das lojas de Miami... Minha alma é excessivamente elitista: ela pensa em caminhadas e pedaladas solitárias, sem roteiros prévios, por vilas perdidas nos cafundós, de paisagens nunca registradas em cartões postais, das quais não adianta se gabar de ter visitado, porque não vai despertar a inveja de nenhum outro turista: meu corpo sofre. E, considerando que não sei produzir bons vídeos para contar a história, peço às musas especialistas que me indiquem uma prima, talvez, especialista em geografia, sociologia ou sintaxe, para me acompanhar e me inspirar a encontrar e alinhavar bem as palavras e, assim, narrar fielmente o que vi, vivi e senti.

     Mas, afinal, qual era a minha? Por que entrar e passear por aquelas cidadezinhas minúsculas, das quais ninguém ouviu falar a 100 Km de distância? Por que abordar de maneira tão vagarosa e por dentro, na praça quase sempre única, aquelas localidades tão banais? E por que de bicicleta? Não seria mais eficaz e seguro, e menos cansativo, ir de carro? Tento responder de trás pra frente: você vai de elevador, de escada rolante, de carro, de ônibus - em S.Paulo tem gente que pega o ônibus num ponto e desce no ponto seguinte, a 400 metros de distância - para evitar cansaço e, ao fim de tudo, acaba cansado de carregar a própria pança. Aos 37 anos de idade eu descobri um pote de ouro no final do arco-iris e desde então não largo esse pote: faço atividade física intensa quase todo dia, faça chuva, faça sol, faça férias... Porque não dá para pagarmos para alguém levar a nossa pança e todas as banhas que se vão acumulando e nos soterrando. Sendo que a velocidade da viagem faz toda a diferença: o olhar é vagaroso e carece de tempo para entender; a 100 Km/h a gente vê tudo e não entende nada. E essas cidadezinhas insignificantes são ignoradas pelos próprios vizinhos. Eu sou a prova disso: nasci e cresci ali naquele mundo e não conhecia nada daquilo; nem a monumental ponte sobre o Paraná eu conhecia, tendo vivido tanto tempo a 100 Km de distância. Enfim, eu queria mostrar o meu mundo a mim mesmo e aos meus conterrâneos. Suar e respirar e ver a própria gente que me pariu, sem nenhum vidro fumê no meio, sem nenhuma proteção contra o vento e a poeira e o povo dos lugares. E, se possível, transmitir tal visão aos meus amigos e familiares e conterrâneos em geral, com a eloquência do suor escorrendo sobre a pele suja do pó formador.

     Em Franca, almocei e, por volta das 13h30 comecei a pedalar em direção à Vila do Estreito, a 57 Km de distância. Na garupa, seis quilos de bagagem, incluindo barraca, saco de dormir e isolante térmico: o tronco, vestido com camisetas de cores estridentes, livre para suar e ser visto pelos motoristas. A bicicleta, simples, de 21 marchas, dessas urbanas de pneus finos e aros grandes, que comprei numa oferta por 900 reais há um ano. Um litro e meio de água em garrafinhas. A Vila do Estreito, construída para abrigar os funcionários da Hidrelétrica do Estreito, está no território do município de Pedregulho, SP e era dali que começaria a descer o rio.

     Rodovia em obras, passei por Cristais Paulista, SP, subi e desci uma pequena serra. Antes, devo registrar que a saída de Franca foi por estrada de terra de alguns quilômetros. A temperatura estava amena, a região é alta, está em média a 1000 metros de altitude em relação ao nível do mar. A vila do Estreito é região de segurança nacional, por causa da hidrelétrica. Para entrar, somente com a autorização de um morador local. No meu caso, o morador local que me autorizou foi escolhido pelo próprio porteiro: o dono do hotel... eu ainda enfrentaria outras ordens ridículas na viagem.

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