terça-feira, 23 de agosto de 2016

SÉTIMO DIA: ORINDIÚVA A CARDOSO

SÉTIMO DIA: ORINDIÚVA – PAULO DE FARIA – RIOLÂNDIA – CARDOSO.

     De repente um vulto ao longe começou a se insinuar entre as folhas afiadas das canas. Era coisa do homem, construída, parecia... mais outro vulto igual e mais outro. Três vultos ao longe, três torres parecidas com essas do jogo de xadrez, e então já adivinhei os muros e a quarta torre e a cerca elétrica sobre os muros, e os muros de concreto à prova de britadeira e bomba e os vigias, e cada vigia com uma carabina em punho... E já imaginei o rei e a rainha e o bispo. Agora, longe da cena, confundo a ordem das lembranças que me assaltaram então, enquanto vislumbrava sobre o canavial balouçante o castelo inexpugnável: me foge a ordem em que os peões entraram em minhas suposições. Mas lembro que eles foram pouco a pouco invadindo o tabuleiro e quando cheguei mais perto, coisa de 300 metros, que é a distância menor entre a fortaleza e a estrada, eu imaginava o interior invisível do presídio tomado pelos peões, porém imobilizados: sem esperança de qualquer avanço: jamais chegariam ao final do tabuleiro, jamais seriam nobres; sem esperança de qualquer vitória, impossibilitados de qualquer movimento, como se o quadrilátero murado delimitasse e cerceasse uma única casa do imenso tabuleiro, do qual eu era uma peça, no qual eu me movimentava.

     Eu havia tomado um atalho em terra na saída de Orindiúva, que ia dar na rodovia lá na frente, coisa de 10 Km, em direção a Paulo de Faria. Saí cedo, era domingo, a cidade dormia. Na estrada de terra não passava ninguém e havia pouca terra em pó e areia que atrapalhasse os pneus da bicicleta. Era cedo, mas já fazia calor, como de praxe no norte do estado, quase todos os dias do ano. A rodovia se aproximava e, após ela, sob o sol baixo, eu adivinhava a baixada do Rio Grande de verdade, de água corrente ali naquele trecho. Foi quando vi o presídio. Não estava avisado, por isso levei um susto. Não de medo, mas de desgosto. Creio que o desgosto assusta, sim, em algumas situações. Creio que a visão de um presídio no meio do nada, na zona rural, é uma dessas situações. O presídio fica na beira da rodovia, creio, a julgar pelo traçado confluente dela com a estradinha em que eu estava, pois ambas se encontraram mais à frente, uns 2 Km. Não sei, porém, se quem passa na rodovia de carro vê o enorme quadrilátero. E, apesar de parecer estar mais perto da zona urbana de Orindiúva, talvez ali já seja território do município de Paulo de Faria. E o presídio pode ainda estar em construção – os sites da administração penitenciária do estado informam que há um CDP – Centro de Detenção Provisória no Km 528 da SP-322 com capacidade para cerca de 850 presos, município de Paulo de Faria. No mapa do Google a área é um verde canavial. Se você, ó viajante-pesquisador, for depender do mapa do Google, você está mal arranjado...

     Cheguei em Paulo de Faria a tempo de pegar o povo saindo da missa das oito. Parada rápida para a foto clássica da fachada da igreja matriz. A Rodovia da Laranja – SP-322 – termina logo mais. Seu prolongamento asfaltado, de 4 Km, vai dar no Rio Grande – a tradicional prainha que quase todo município próximo ao Rio Grande tem. A balsa estava no seco, em manutenção. Ali há um porto e uma balsa, com travessia para o município mineiro de Itapagipe. Dois senhores, sentados nas raízes de uma sete-copas, conversavam. Lamentei com eles que não poderia atravessar.

- A gente leva o senhor – falou baixinho um deles, me apontando as canoas na água a vinte metros de onde estávamos.
- E eu sô doido de entrá numa canoa dessa – respondi sorrindo.
- A gente leva em segurança – assegurou ele, sério e baixo.

    Fiquei sem jeito e respondi que não queria atravessar não, só queria conhecer e já ia voltar. Voltei os quatro quilômetros – e aí já se foram oito de desvio – e continuei a viagem para Riolândia, na rodovia que faz um ângulo de noventa graus com a SP-322 em que eu transitava desde Ribeiro dos Santos, no dia anterior. Se até então eu havia me dirigido ao norte, agora eu me dirigia ao oeste. A novidade é que a partir daí a estrada não tem acostamentos. Sorte que o movimento também não é grande. Ia na faixa da esquerda, na contramão. Quando vinha um veículo ao meu encontro, eu mudava para a faixa da direita, caso não viesse outro veículo no mesmo sentido. Raramente dois veículos se cruzavam junto comigo. Quando isso acontecia, era obrigado a parar fora da pista.

     A subidona era forte e longa, para os padrões do ameno relevo da região, de longos trechos planos e leves ondulações. Enfim, dobrei o cume do morro: aí é só alegria. Alegria que se repete com intervalos regulares, na rodovias que, grosso modo, são compostas de subidas e descidas de igual distância e declividade. No cume da lombada a gente descansa e põe na banguela e seja o que deus quiser. Porque a bicicleta adquire grande velocidade. Se o asfalto estiver bom, não tem problema. Porém, se lá embaixo, no auge do embalo, houver um buraco ou uma lombada, ou qualquer irregularidade significativa no piso, o perigo de desestabilização é grande. E cair de bicicleta em alta velocidade não é bom negócio... Enfim, são e salvo na baixada, começa de novo e infinitas vezes a árdua e lenta pedalada para vencer outra subida. A frequência cardíaca vai lá em cima. O esforço zero da descida passa rápido; o esforço máximo da subida não acaba nunca. Daí porque viajar de bicicleta é mais cansativo que viajar a pé. O andarilho caminha sempre no mesmo ritmo, a 5Km/h; a frequência cardíaca varia pouco – elevando-se moderadamente nas subidas e atingindo níveis mais fortes apenas naquelas poucas mais íngremes. Seis horas de pedalada cansam mais que 10 horas de caminhada.

     Era hora do almoço quando entrei em Riolândia. Antes de se emancipar e se tornar município, a povoação se chamava Viadinho do Porto. Porque havia e ainda há um porto com balsa, no Rio Grande. Naquele tempo, era rio de verdade, de águas correntes; agora não é mais rio, é represa: águas paradas desde a barragem de Água Vermelha, no município de Ouroeste, quase cem quilômetros rio abaixo. Não é a terra do rio: é a terra da represa. Só que a represa é enorme, banha muitos municípios, não é de ninguém. Mas a cidade poderia ser a terra da represa: represolândia. Sendo que, aos domingos, ninguém almoça no comércio. Mas onde há turistas, há almoço comercial, mesmo aos domingos. Quando já estava quase perdendo a esperança, um senhor me sugeriu o hotel. Também achei boa a ideia e fui lá. O hotel recebe turistas de São Paulo, principalmente aos sábados e domingos, dias de visitas nos dois presídios que há no município. Portanto, havia almoço sim. Os turistas fretam ônibus, havia dois parados em frente. Sim, em Riolândia conheci mais uma modalidade turística: turismo de visitantes de presídios. Os familiares que moram longe e aproveitam o final de semana para visitar seus parentes presos. Fazem-no com frequência, já são íntimos dos funcionários do hotel.

     Não era incomum comer num lugar e tomar a sobremesa em outro. Claro que eu não o fazia deliberadamente, porque creio que não sou controlado pela comida, mas, se a oportunidade se apresentava, eu aproveitava, já que tudo que comesse ainda era pouco diante do gasto calórico da viagem. E o norte-noroeste paulista é a terra das sorveterias. Em todas cidades, em volta da praça há três, quatro sorveterias. A moça gordinha não atendia ninguém, ainda era muito cedo para tomar sorvete. Mais tarde as mesas seriam todas ocupadas, tomar sorvete naquela terra é programa independente e de gente grande. Por que não? Entrei. Quando eu era adolescente, entendia bem de sorvete: sabores e maneiras de se tomar sorvete; mas agora sou um vexame, penso que há apenas dois sabores: os cremosos e os não cremosos. Realmente, em São Paulo não tomo sorvete nunca. O sorvete – esses cremosos – é uma bomba calórica mais destrutiva que o refrigerante; se o refrigerante tem muito açúcar, o sorvete tem muito açúcar e muita gordura: tudo de rápida assimilação, desses que vão direto pras banhas de sobrepeso. E terrivelmente saborosos, as pessoas comem montanhas daquilo. Então perguntei à mocinha:

- Se você fosse tomar um sorvete agora, qual escolheria?

     Fiz a pergunta disposto a pedir o que ela escolhesse. Mas ela escolheu sorvete de doce de leite. Ora, eu gosto de doce de leite, mas sorvete de doce de leite seria elevar ao quadrado o açúcar e a gordura que todo bom sorvete cremoso excede. Então escolhi uma bola de ameixa e uma bola de maracujá, sem creme, mais leve... porém estupefato com o tamanho das bolas. Tudo bem, se o pudim-creme de Icém não fez mal, essas duas excessivas bolas de sorvete também não fariam. Sendo que naquele mundo o que conta é a quantidade. E o sorvete servido vem de Votuporanga. Pensei nesse sorvete italiano servido em lambretas, que está fazendo sucesso em São Paulo: não me venham com qualidade e sabor especial: em se tratando de sorvete, todos são deliciosos, o que conta é a quantidade. Claro que não sou guloso...claro que não sou fino.

     Assim bem alimentado, peguei um atalho para sair na rodovia para Cardoso lá na frente. Cardoso era meu destino final naquele dia, em que viajei 92 Km. E não é que a estradinha passava na frente dos dois presídios! Só que eu estava bronco, ocupado com a digestão de tanta comida, e prevenido: já havia me misturado com os turistas, já sabia que Riolândia é a terra do turismo de cadeias, todo o desgosto estava soterrado pelo almoço e as duas bolas de sorvete: quem sabe não tenha sido esse o motivo da minha autoagressão alimentar? Passei reto, saí na rodovia, passei sobre um braço da represa que avança sobre o antigo leito do Rio Turvo, nem parei, nem fotografei. Ali havia muitos turistas-pescadores. Enfim entrei em Cardoso e fui direto para o Hotel Pedrim. Direto não, ia passando, o primeiro hotel que vi entrei: Hotel Pedrim. Pude usar o tanque para lavar a roupa e comer banana e maçã à vontade; as bananas e maçãs que sobraram do café da manhã. Enfim, o hotel mais barato da viagem (R$40,00); o hotel mais simpático da viagem: com canto seguro para guardar a bicicleta. Em Cardoso, Hotel Pedrim. Bonzim. Além de tudo, lembra meu netim.

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