terça-feira, 23 de agosto de 2016

SEGUNDO DIA: VILA DO ESTREITO A IGARAPAVA

SEGUNDO DIA: VILA DO ESTREITO – RIFAINA – IGARAPAVA.

     Quando de longe vi que a estradinha de terra ia dar na porteira do quintal da fazenda, me preocupei. Mas não era o fim da linha. Havia outra porteira do outro lado e a estrada continuava. A curralama e os galpões com tratores e implementos agrícolas dum lado, a casa do outro, e os cachorros a guardar tudo; abri a porteira, entrei no quintal, passei, abri a outra porteira – tudo isso sob  o bombardeio dos cachorros – e ninguém apareceu sequer na janela, mas a casa não estava abandonada; havia gente nela; talvez fosse um pouco cedo ainda...às 7h duma 3ªf braba. A estradinha continuava sem nenhum sinal de veículo de rodas; só cascos de gado e areia, nos dois trilhos formados por rodas que supostamente teriam passado ali em remotas eras... Mais à frente uma casa abandonada, ao lado de um matinho, o caminho cada vez mais selvagem e, ufa, um laranjal! Um laranjal sempre parece mais civilizado que um pasto de gado, ao viajante inseguro. Porém, para entrar nesse laranjal, havia uma porteira presa por uma corrente e um cadeado.

     A porteira ainda estava sob o arvoredo que se prolongava do quintal abandonado e a casa, que, não fosse sete horas da manhã, seria mal assombrada... Consultei o GPS do Google em meu celular e a rota indicada era aquela mesma. Logo deduzi se tratar de uma servidão pública em desuso, que os donos do laranjal acharam por bem privatizar por conta própria, dado o praticamente inexistente uso atual. Minha bicicleta pesava uns 20 Kg – ela e a bagagem presa na garupa – nada que não pudesse pular a cerca de arame ao lado, mais baixa do que eu. Foi o que fiz. Atravessei o laranjal por um carreador arenoso de cerca de um quilômetro; nenhuma laranja, nem pra remédio. Ao final do pomar me aguardava, formando um tê, a batida estrada prevista em meu roteiro. Só que, me prendendo do lado de dentro, outra porteira e outro cadeado. Sendo que a porteira era bem alta e a cerca viva ao lado não deixava opção de transpor a bicicleta por cima do arame. Estava eu tentando resolver o dilema quando passou na estrada um carro cujo motorista, me vendo ali dentro, parou um pouco adiante e retrocedeu:

- O que o senhor tá fazendo aí dentro?

     A pergunta foi em tom incisivo e, dados os outros elementos da cena, percebi que eu estava cometendo mais que um delito; um sacrilégio. Ou uma profanação. Estava profanando o território sagrado da Dreyfus.  “A Louis Dreyfus é parte do quarteto de traders "ABCD" que domina a comercialização agrícola global, junto com Archer Daniels Midland, Bunge e Cargill” foi o que encontrei em pesquisa rápida na internet. Eu estava dentro de uma proibidíssima fazenda da Dreyfus, segundo me informou o funcionário no carro. Que era da Dreyfus ele não disse, eu vi pelo carro, identificado com o nome. Esses funcionários - nossos conterrâneos – dessas multinacionais com usinas e fazendas por esses fundões do nosso território são bem insolentes, pra não dizer autoritários, mais ousados – porém mais inocentes – que os antigos capatazes das antigas fazendas dos nossos patrícios coronéis. Em geral mais jovens, com alguma escolaridade, e ainda deslumbrados com o salário três vezes maior que o de seus amigos que não tiveram a mesma sorte, são mais afoitos porque mais inocentes. Não têm noção da violência latente do grande capital sem pátria sobre a terra e a gente local.

- Estou querendo sair, respondi.
- Como o senhor entrou aí? Ele me perguntou.
- Entrei pelo outro lado, estou vindo de Estreito.

     Nessa hora percebi o nó mental na cabeça do rapaz.

- Mas trabalho aqui há 8 anos e nunca vi isso!
- Segundo o mapa, estou numa servidão pública...
- Num tá não. Aí é particular, da fazenda!
- Aí precisamos esclarecer quem tá certo: eu ou você. O mapa diz que é local de passagem.
- Num é não! O senhor precisa sair daí!
- Se você abrir esse cadeado eu saio.
- Num tenho a chave.

     Ele ficou menos tenso quando percebeu que eu queria sair. Se eu quisesse atravessar de volta o pomar, como se estivesse entrando, acho que ele me tiraria no braço. Desceu do carro e segurou a bicicleta que eu lhe passei por cima da alta porteira. Nos despedimos amistosamente e eu segui pela batida e poeirenta estrada pública. Ainda. Porque a tendência é esses fundos transnacionais de capital comprar toda a terra e abolir todos os vizinhos. E estradas vicinais só têm sentido quando há vizinhos... Aí nós, que gostamos de ir por dentro, pelos caminhos locais, submetendo-nos às incertezas de cruzamentos e ramificações diversos e não identificados, caminhando com nossas mochilas ou pedalando, estaremos também desalojados de nosso território.

     Antes de Rifaina há 7Km de vicinal asfaltada; até então foram 25Km em terra. Nesse trecho asfaltado, de repente, trilhos de ferro, perpendiculares à via, do lado direito, entravam num seringal: um curto trecho de via férrea antiga; sem nenhuma explicação. Nenhum sinal do outro lado, onde os trilhos deveriam seguir: apenas a quissassa do pasto abandonado. Trilhos tão sólidos, dormentes tão sólidos, pedriscos tão sólidos, uma mini ferrovia abandonada a céu aberto, ela, seu trajeto alhures, sua história.

     Em Rifaina cheguei na hora do almoço. O self-service à beira da prainha na represa formada pela barragem da usina hidrelétrica de Jaguara servia um peixe gostoso: peixe de mar, me informou a mocinha do serviço. Não do mar de água doce ali em frente. Do mar oceano, tão distante, tão fora de contexto... Mas os barcos e as inúmeras garagens de barcos e os tratores de barcos lembravam bem certas praias de Ubatuba, SP; assim como o bem cuidado calçadão da prainha lembrava os calçadões de inúmeras de nossas cidadezinhas costeiras. Acho que os ricos de Franca, SP, gostam de passar os finais-de-semana ali, em seus iates.

     Entre Rifaina e Igarapava foram 47Km de rodovia asfaltada, mas sem acostamento. A estrada margeia ao longe as águas paradas do Rio Grande. Antes de seguir viagem, fui e voltei na ponte que atravessa o rio, pisando pela primeira vez em terras mineiras. Não demorou e eis uma placa inusitada: indicava o nome de uma fazenda, o nome de seu proprietário e ao lado, na mesma placa, sem maiores explicações, a cruz gamada conhecida como suástica. Fiquei assustado, tive medo até de fotografar – pensei num comando especial, remanescente da 2ª Guerra Mundial, que saísse da sede da fazenda lá embaixo, a 800 metros, em minha perseguição, quando me visse fotografando o símbolo da propaganda inadmissível -, mas, apesar do medo, fotografei a placa. Quando cheguei em casa pesquisei e vi que se tratava de uma suástica invertida, que não tem nada a ver com o símbolo nazista. Como se sabe, o símbolo nazista está proscrito entre nós. Sei lá, essa explicação não me convenceu, ainda estou intrigado.

     A inexistência de acostamentos na faixa asfáltica exige mais atenção. Eu ia na faixa da esquerda, na contramão; quando apontava ao longe um veículo, eu dava uma rápida olhada para trás e, se não viesse ninguém, saía para a direita. O pouco movimento de veículos permitia tal manobra. É um trecho de subidas e descidas muito longas; as descidas fazemos em alta velocidade, rapidamente; isso quer dizer que a maior parte do tempo ficamos nas desgastantes subidas; em comparação com as altas velocidades das descidas, temos a impressão de que vamos lentos demais; enquanto isso, o batimento cardíaco vai lá em cima; em poucas horas estamos exaustos. É por isso que viajar de bicicleta é mais desgastante, fisicamente, que viajar a pé. Faltando uns 10 Km para Igarapava, ali pelas 3 horas da tarde, finalmente um pomar de laranja - porque até então só cana ou pasto de boi. Cerca viva espinhenta e uma porteira com cadeado. Olhei entre as tábuas, nenhuma laranja à vista, pomar recentemente colhido. Contudo, especialista que sou, sei que sempre é possível encontrar alguma escondida. Pulei a porteira e quase quebrei a cara, porque deu trabalho para encontrar três laranjinhas mirradas, após percorrer uns 500 pés de laranja. Sentei na beira da estrada para tomar o café da tarde, quer dizer, chupar as três laranjinhas. Daí a pouco saiu uma moçona lá da porteira, numa moto, e passou por mim devagar, me olhando com escárnio, como se me dissesse que sou morto de fome. Funcionária da fazenda do laranjal. De fato, estava carecendo de sustanças; tanto que cheguei em Igarapava quase desidratado, apesar de não ter passado sede. Aí foi água de coco, coca cola, suco de laranja - nada chegava -, no copo, no canudinho, sem ter de pular porteira, tudo mediante a força da grana.

      Em Igarapava eu tinha um problema sério pra resolver: substituir a minha calça rasgada. Minha velha e querida calça barata, de tecido sintético, comprada nas Casas Pernambucanas e usada em 2004, em minha viagem a pé de São Paulo a Fernandópolis. Rasgara nos primeiros quilômetros de pedalada, ao levantar a perna para montar na bicicleta. Por baixo havia uma bermuda de ciclismo, mas eu me negava a adotar o uniforme clássico dos ciclistas urbanos: nada de capacete, nada de roupas justas. Creio que a população em geral acha antipático o uniforme clássico de ciclista e evito ao máximo, em minhas viagens, provocar antipatias. Mas aquela calça era a única e eu não aceitava outra que não fosse de material semelhante: porque são leves, secam rápido, não acumulam suor, são fáceis de lavar. E eu acreditava que naquelas cidadezinhas sequer havia aquele tipo de calça pra vender. Mas em Igarapava, de 28 mil habitantes, a maior porque passei, havia a possibilidade... O moço da água de coco não soube informar mas daí a pouco chegou sua mulher que me indicou uma loja, a Tend Tudo. E tinha. Só que curta, tamanho único, sem opção de escolha. Fazer o quê?

     Na cidade só encontrei um lugar para jantar, uma porta comum numa esquina, parecendo boteco, com balcão e mesas na frente, chamado Bar Imperial: um desses bares e restaurantes muito comuns em São Paulo, com toalhas de algodão coloridas sobre as mesas e garçom amigo de bigodinho fino. Já era uma grande coisa, porque nessas cidadezinhas é fácil encontrar almoço, mas difícil encontrar jantar. E os hotéis simples normalmente não servem comida além do café da manhã. Em Guaraci só jantei graças à boa vontade da cozinheira, conforme conto mais adiante. Em Riolândia - domingo - quase nem almoço consegui; em Cardoso, o restaurante estava com as portas fechadas, mas aberto... quer dizer, o vigia estava lá dentro sozinho e disse que eu podia entrar e me servir direto nas panelas. Em Mesópolis, não havia nem hotel, que dirá restaurante. E coisa boa é um prato comercial depois de um dia de muita força, de muito suor, de muito gasto: uma travessinha de feijão, outra de arroz, outra de batatas fritas, um bife acebolado, duas folhas de alface, três rodelas de tomate. Se quiser ser perfeito, basta acrescentar um legume cozido... Servem pra sobrar. Mas no meu caso nunca sobrava nada.  Sendo que, para aumentar ainda mais o apetite, o garçom do bigodinho fino era realmente gente boa e me serviu, como aperitivo, uma cachaça da terra que estava numa garrafa de cocacola, de um engenho que ele conhecia e garantia desde criança.

     No Hotel Sílvio dormimos juntos novamente, como na primeira noite, no hotel em Estreito. Pensei que era a praxe, que seria assim a viagem inteira, mas pensei errado. Daí em diante a coitada ficava no quintal ou no estacionamento, ao relento, ou trancada num quartinho. O porteiro do hotel em Estreito não teve outra alternativa senão autorizar que a levasse ao quarto comigo, diante do meu questionamento sobre a segurança de deixá-la no saguão: é que durante a noite eu ficaria sozinho no hotel, ele já tinha me avisado, ia embora às 22h e só voltava no dia seguinte, eu ficava com a chave. Estou falando da bicicleta. Parece engraçada essa conotação quase sexual entre mim e a máquina, mas é sério. Não comigo, mas com alguns ciclistas que conheço. Eu já tive ciumes da minha bicicleta, mas não dessa: daquela que eu tive aos 14 anos de idade, com quem eu ia e vinha da escola. Só meu pai podia usá-la, sem que meu coração ficasse apertado. Ao contrário, ficava feliz quando o via dar uma voltinha, ele parecia mais jovem. Não sei se consegui me libertar totalmente dessa praga emocional que é a mancebia entre homem e máquina, entre homem e objeto. Tem gente que tem ciúme do carro, não o empresta, não deixa ninguém dirigi-lo; muitos não emprestam o alicate, a furadeira. Enfim, com a minha bicicleta sou liberal...

 

2 comentários:

  1. Haha, somos muito parecidos, até na idade: estou na tua frente, 5 anos.

    Achei teu blog pesquisando alguma pedalada entre Igarapava e Rifaina. Já li todos relatos da Foz do Rio Grande. E outros.

    O que me levou a comentar foi que, em 2013, passei (pedalando) por Igarapava e fiquei no mesmo Hotel Sílvio e jantei no Bar Imperial. Nada mudou, só o prefeito e sua corte, pelo jeito.

    Grande abraço. Quando eu aparecer por Sampa pretendo um encontro pessoal.

    Ah, também uso bicicleta simples e bermuda de ciclismo por baixo da bermuda ou calça. Mas que são confortáveis, isso são...

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    1. Olá, Cesar. Quando vier a Sampa, entre em contato. Abraço.

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