QUINTO DIA: ACABANDO DE CHEGAR EM GUARACI.
Terra moída, terra em pó, pó fino – finíssimo -, como se um espírito de porco tivesse esparramado chocolate em pó pela estrada. Não, não é areia. É argila. Argila seca triturada por moendas de pesados 34 pneus, que moem a terra dia e noite. O solo seria firme, duro, parecido com uma camada de concreto asfáltico, só que avermelhada, se passasse somente caminhões normais. Mas passam muitas e muitas carretas de cana, dia e noite – que a colheita funciona dia e noite sem parar. O que chamamos de carreta é, na verdade, um conjunto de duas carretas e um cavalo que as traciona (cavalo mecânico, aquele caminhão sem carroceria...). A carreta de trás possui 4 eixos, com 4 pneus cada eixo; a carreta da frente possui 2 eixos com 4 pneus cada eixo; e o cavalo mecânico possui 2 eixos de 4 pneus cada e 1 eixo – o dianteiro – de 2 pneus. São 34 pneus num bólido de 30 metros de não sei quantas toneladas. Quando passa, a terra treme. O ciclista sofre com a argila suspensa, que congestiona as vias respiratórias e embaça a vista, e sofre com a argila moída espalhada na pista, que não deixa a bicicleta andar. No plano e até na descida, muitas vezes tive de descer e empurrar. E aquilo amarra tanto a rodagem do pneu fino das bicicletas, que é pesado até para empurrar. E enquanto empurro, o tênis afunda naquele formidável colchão de pó, e terra moída em forma de pequenas nuvens rasteiras entram pelas canelas e vão tingindo a pele pelas frestas e microfrestas, até onde dá...
Parece que há um protocolo, firmado não sei por quem, em que as usinas de cana se comprometem a regar a estrada, para que a poeira não se levante. Só vi isso lá na frente, em Santa Albertina, em alguns trechos usados pela Usina Colombo. Nesse trecho entre Colômbia e Guaraci, não vi isso não. Vi muitas nuvens se levantando ao longe e se movendo em minha direção, à medida que a carreta avançava. Então eu olhava desanimado para o colchão de argila e auscultava o vento, para escolher o lado da estrada oposto a ele. Só que às 5h da tarde, naquelas paragens, não costuma ter vento. É uma hora de leseira, como muitos costumam dizer. Entre 5 e 6h da tarde, em julho, o sol se põe, tingindo de vermelho o céu e o ar. Sim, dá pra tingir o ar carregado de argila suspensa. Sendo que a argila já é meio alaranjada. Seria bonito, se não fosse terrível, aquela nuvem que sufoca e suja e não se dissipa nunca.
Então pense num cidadão abilolado nesse mundo, perdido na malha fina de estradas vicinais, tendo de enfrentar um dilema em cada bifurcação, uma suspeita em cada saída de fazenda e ninguém para perguntar. Porque é um mundo naturalmente deserto, de poucas casas, de pouca gente. Andamos quilômetros e quilômetros sem ver ninguém, sem encontrar nenhum carro. Nessas situações, as carretas são até bem-vindas, porque podemos pará-las para pedir informação. Mas há momentos em que realmente precisamos e não aparece ninguém.
Dormi dentro da barraca, no meio desse mundo, na borda de um capão de mato, sobre um capinzal alto que tornou a noite sobre o isolante térmico mais macia. Nas proximidades, cerca de 200 m, alguém instalou umas 10 colmeias para explorar o mel das abelhas. Ao lado, um carreador pouco frequentado e um canavial baixo. E no céu, a lua cheia clareava tudo, aquela claridade leitosa que dá um tom especial à paisagem – uma paisagem lunar, poderíamos dizer. As árvores e os postes e as gentes e os bichos ficam diferentes de quando iluminados pelo sol, embora bem visíveis. Uma imaginação fértil consegue ver fantasmas. Enamorados ficam mais lânguidos. E um ciclista cansado dorme feito uma anta, apesar da lambança dos grilos e dos sapos. Porque bem perto nascia um corguinho, confirmei no outro dia, o que só enriquece mais a sinfonia de insetos de toda ordem e invisíveis pequenos animais e aves que conversam, cantam e gritam o tempo todo em toda mata.
Na barraca a gente dorme cedo, mas acorda cedo, também. Muito cedo. E levantamos acampamento o mais rápido possível, antes que clareie o dia. Não se perde tempo com banheiro, troca de roupas, etc. Só comi um dos dois sanduíches de pão com mortadela que havia reservado e, usando a lanterna de cabeça, saí pedalando no lusco-fusco da manhã. O oriente já se tingia de vermelho. Eu estava perto de um bairro chamado Brejinho em que há uma igreja e uma venda e duas casas. Eu seguia a rota sugerida pelo GPS do Google. Então passou uma carreta e o condutor mostrou muita segurança para informar que o caminho não era aquele. Eu acreditei, e minha crença acrescentou andanças perdidas de uns 20 Km a mais. Em verdade, eu temia que o Google me colocasse numa fria maior ainda que aquela lá da proibida fazenda de laranja da Dreyfus, conforme já narrei anteriormente. É claro que essa rota abandonada poderia conter, à frente, largas possibilidades de me perder também, como me perdi na nova rota que assumi, por sugestão do motorista da carreta.
Você quer que eu diga, afinal, qual o caminho certo? Eu lhe respondo: impossível. Nem olhando no mapa tenho certeza. Por fim, me vi empurrando a bicicleta sobre um canavial recém colhido, em meio a colhedeiras, tratores, carretas, e respectivos trabalhadores. Uma equipe consertava um monstro emperrado parecido com uma colhedeira. Me aproximei e pedi informações. Um dos mecânicos, baixinho, simpático, foi logo dizendo:
- Vixe! Cê tá aqui na bêra do Rio Grande. Cê tem di vortá!
Mas nessa hora eu ainda tinha um sanduíche de mortadela pra queimar, e mais de meia garrafa d’água daquelas de um litro e meio. E ainda estava descansado. Ainda bem, porque o baque foi duro. Ele deu algumas dicas nada seguras e eu continuei o meu processo de tentativas e erros e, posteriormente, concluí que foi ali que comecei a ir para o lado certo. Um problema de quem está perdido é que nossos sentidos vão assumindo posições à nossa revelia: por exemplo, vamos numa estrada e, lá na frente, onde ela desaparece, achamos que ela vira para a esquerda; chegando lá, vemos, decepcionados, que a estrada vira para a direita... Algo que, ora me consolava, ora me desolava, era a posição do sol; porque eu, no geral, viajava do leste para o oeste; então, quando no micromundo de um lance de estrada, após uma curva, eu dava com o sol na cara, viajando contra ele, ou seja, para leste, já que estava na parte da manhã, ficava desanimado; o contrário acontecia quando o sol batia em minha nuca. Numa malha de estradas vicinais tão extensa quanto essa que descrevo, a posição do sol ajuda quase nada, porque a lógica de tais estradas é ziguezaguear para desviar de rios e brejos e morros...ao invés de construir pontes e aterros e cortes que as tornariam mais retas e objetivas. Normalmente elas vão, planas, margeando um córrego e, lá na frente, aproveitam-se de um local mais seco, cruzam o vale, voltando do outro lado, ao sabor das conveniências dos sítios e fazendas a serem atendidos. Nunca usei bússola, mas acho que elas só ajudam no mar ou no deserto, onde não há trilhas batidas e devemos sempre andar em linha reta.
Até que enfim, num cruzamento, encontrei uma placa informativa. Está claro que placa informativa naquele mundo é coisa rara. E tal placa informava a direção de meia dúzia de localidades, dentre as quais estava aquela à qual me destinava: Guaraci. Ou seja, serviço completo. Na hora eu comemorei, dizendo que acabava de me achar: pura ilusão. Mais à frente e após algumas bifurcações mudas (aquelas sem nenhuma placa ou dica), descubro que aquela estrada vai em direção ao Prata. O Prata é um bairro à beira do Rio Grande, longe de Guaraci. Na bifurcação seguinte, escolhi a esquerda, pois meus sentidos – aqueles que descrevi acima – diziam que a direita ia para o Prata. E depois de muito andar nesse ramal, encontro um filho de deus que me diz que eu deveria voltar, pegar o caminho da direita... que neste eu estou voltando pra Barretos... Só que lá atrás, perto do Brejinho, eu já havia caído no conto do “voltando pra Barretos” e fui dar na beira do rio num local sem saída e muito acima do desejado. Então inquiri melhor o informante que me disse que por onde eu estava indo também dava, só que era mais longe, mas eu chegaria no asfalto para Guaraci. Ele queria que eu voltasse, mas não voltei não. Após 40Km de terra em pó, a palavra asfalto falou mais alto.
Porque eu, definitivamente, não estava andando. Estava pedalando. Quero dizer, há uma confusão em mim: pedalo, mas tenho mentalidade de andarilho. E as implicações práticas de tal confusão são significativas, em determinadas situações. Na saída de Miguelópolis eu havia passado por dilema semelhante ao descrito no parágrafo anterior. Havia o asfalto e havia um atalho em terra. Meu informante recomendou que, embora mais longe, eu fosse pelo asfalto, porque na terra havia muita poeira. Quando lhe perguntei quanto a mais teria de andar, ele me disse: 18 Km. Ora, 18Km são significativos até para um motorizado. Escolhi o atalho em terra na hora e depois descobri que pelo asfalto a distância era quase a mesma. Mas não me arrependi, porque a estrada em terra era boa e comi poeira pouca apenas duas vezes. Não era o caso que comecei a descrever acima, para chegar a Guaraci. Ali a alternativa em terra significava descer e empurrar a bicicleta muitas vezes no plano, por causa do piso em pó. A diferença de velocidade entre as alternativas terra/asfalto estava na casa dos 1:5. Ao tempo que andava 1Km na terra, andaria 5Km no asfalto. E naquela hora em que o sol já ia alto e a minha água já havia acabado, o que eu mais desejava era avistar a torre da igreja de Guaraci.
Chegando no Guaraci, me deparo com a placa “Perímetro Urbano”. No trevo da entrada para o bairro do Pedregal, um loteamento isolado à beira da represa. Tudo bem. Só que o trevo passou, não vi bairro nenhum, e a zona rural continuava. Bem lá na frente, outra placa “Perímetro Urbano”: era por causa de um loteamento novo, que, por enquanto, só tem as ruas e os postes. Mais zona rural. Finalmente, o perímetro urbano, acompanhado, óbvio, de outra placa “Perímetro Urbano”. Eita necessidade de urbanidade! Eita vontade de ser urbano! Ora, meu povo: vamo dexá de sê besta. É uma cidadinha de 10 mil habitantes. Lá do seu centro você vê as vaquinhas pastando logo ali, pra qualquer lado que se olhe. Aquilo ali não vai ter perímetro urbano nunca, minha gente, por mais placas que se plante. É um burgo rural, pronto. O espírito reinante é o do humano do campo, gente com a botina suja de terra. Não necessariamente rude, não necessariamente bronca. Mas sempre sem aquela fineza vazia do ser urbano. Tenho comigo que o sujeito rural leva vantagem nessa comparação, por que não conheço nada mais triste de tolerar que um tipo finório farto de boas maneiras. Contudo, o povo dali de Guaraci e similares move batalhões para se passar por citadino, toda hora dando ensejo ao ridículo.
A nova moda em Guaraci, agora, é a lagoa. É: há uma lagoa natural que a cidade começa a envolver. Coisa de uns 3 hectares, em formato oval. Construíram uma avenida asfaltada e caprichada em volta e há terrenos vazios, quase todos, à espera da elite guaraciense. Há até um edifício de 4 ou 5 andares em construção. Logo será bem chique dizer que tem um apartamento em Guaraci, na Lagoa... enfim, lembra uma certa lagoa numa certa zona sul de uma cidade maravilhosa... aquela do poeta Bandeira. A divisão em classes sociais nesses pequenos burgos rurais é mais cruel do que nas grandes cidades, porque são quase todos pobres, mas uns são mais pobres que outros...Estão muito próximos, todos conhecem todos – a fundo – e, entretanto, dividem-se como se a desigualdade fosse a razão da existência.
Mas, já deduziram, em Guaraci cheguei cedo porém cansado por dentro e esculhambado por fora. Minha pele e minhas roupas denunciavam os dois dias perdidos naquele escanteio de rio onde sol, suor e terra em pó no piso e no ar reinaram sobre o viajante. Num reservado interno do hotel eu aguardava a mocinha arrumar meu quarto, quando a vi entrar num cômodo que parecia uma lavanderia e comandar modernas máquinas. Então concebi a heresia de fazer meu rico dinheirinho trabalhar por mim e pagar para lavar minha roupa do corpo, que montava em quatro peças. E o fiz, pela primeira vez na vida. Acho que não devemos delegar a ninguém as tarefas mais corriqueiras da nossa vida. Se não delegamos a ninguém as tarefas de fazer amor e jogar bola, de fazer ginástica, de tomar banho; então não devemos permitir que outro senão nós mesmos lavem nossa roupa, cozinhem nossa comida, limpem nossa casa. Contudo, quanto mais existe o rico dinheirinho, maior a possibilidade de pecado. E mesmo a mocinha me avisando que era sete reais a peça – que achei um absurdo de caro – não recuei. Meu corpo antes de mim já havia delegado aquela tarefa, não era mais possível realizá-la eu próprio. E é assim que começa a corrupção: com pequenas concessões. Sei bem da minha pequenez diante do carro desembestado da história. Se nada acontecer para mudar seu rumo, daqui a pouco só nos restará o movimento dos olhos, a comandar falsas janelas de pixels que nos mostram realidades imaginadas... por gente de fora. Porque já é realidade o sexo virtual e o atleta de sofá; as entregas de comida em domicílio e pratos, talheres e roupas descartáveis. Tudo já conspira para o desmovimento, o lixo e a gordura. Enfim, acabei achando barato o preço da minha imobilidade. É bem tentador saber da possibilidade da nossa roupa passar do sujo para o limpo enquanto dormimos...
Em Guaraci, visitei por dentro a igreja matriz, onde fui batizado, crismado e casado. Então coloquei na balança os meus múltiplos e pesados cabedais. Então, que bom, se hoje nego tudo isso e não odeio ninguém. Constato, aliviado, que a negação dos rituais consagrados não gerou qualquer sentimento negativo. Continuo me sentindo em casa ali dentro daquela igreja. É o meu povo. Um povo que me impregnou de sua íntima e verdadeira essência, que é a de adotar regras somente para alterá-las. Por exemplo: fui jantar no restaurante Guaraci, a moça só estava fazendo marmitas; avisei a ela que estava no hotel ao lado, que queria jantar, mas, sendo assim, eu levaria uma marmita. Ela então me perguntou se eu não aceitaria um prato feito, para comer ali, porém fecharia a porta, para que ninguém a acusasse de atender um e não atender outros... Sim, parece um povo simplório. Mas as aparências enganam... Por trás daquele povo que vai à missa e conta os pecados ao padre estão pessoas pragmáticas e manhosas: mas não mafiosas! Diria que as balizas principais desse povo são simplicidade e objetividade e isso implica um sentimento de igualdade e pertencimento muito grande, apesar das camadas superficiais de pequenas aristocracias locais. Essas aristocracias locais são como brincadeira de criança, perto daquelas que se veem nas zonas urbanas de verdade, as grandes cidades. Para mim, o fato de negar algumas tradicionais práticas dessa gente e continuar me identificando com ela é o maior indício de que o que realmente conta, o que realmente importa, está invisível abaixo da camada de verniz do bom-mocismo reinante.
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