TERCEIRO DIA: IGARAPAVA – MIGUELÓPOLIS – CONCEIÇÃO DAS ALAGOAS.
De repente me vi perdido no meio do nada, ou melhor, no meio da terra arada de antigo canavial. O trecho de confusas estradas vicinais de 42 Km entre Igarapava e Miguelópolis era um dos que mais me preocupavam na fase de planejamento da viagem, só perdendo para o trecho entre Colômbia e Guaraci, de 80 Km, mais à frente. E agora, no local, eu estava mais preocupado ainda, porque, primeiro, estava perdido e, segundo, não mais confiava no GPS do Google e seu sistema de rotas para bicicleta, que me havia colocado numa fria lá na fazenda proibida da Dreyfus, conforme relatei acima e, terceiro, o GPS continuava indicando minha localização, mas o mapa off-line por trás não ajudava com suas imagens borradas.
Nesses caminhos entre canaviais – há canaviais de todo tipo: na terra nua em reforma, brotando da terra, de pequeno porte, de médio porte, canaviais em ponto de colheita, canaviais recém-colhidos -, não podemos adotar o critério de seguir o caminho mais batido. É que a parafernália de colhedeiras, tratores, carretas e caminhões utilizados na colheita da cana pode transformar uma variante do caminho na mais transitada no prazo de meia hora. E essas variações bruscas podem ocorrer várias vezes ao dia no rumo do nosso destino. Da mesma forma, e no sentido contrário, um trator que esteja gradeando uma terra, ao passar pra lá e pra cá transversalmente sobre a estrada, apaga os rastros e dá a sensação, ao longe, de que o caminho não existe ou é insignificante.
Porém, a reforma ou a colheita dos canaviais, se nos desorientam, também significam gente próxima, que pode nos informar. E desconfio que há um duende protetor dos viajantes perdidos, porque quando eu me encontrava no meio do nada, olhando ao longe sem ver qualquer referência significativa – perder-se em campo aberto, de larga visão, é mais desanimador que se perder num beco ou numa grota de pouca visibilidade –, eis que aponta no fundo da terra um carrinho, que veio cambaleando pelas lombadas até mim, e dentro estava um senhor de boa vontade, chefe da turma cujo trabalho de replantar a cana eu vinha assistindo a algum tempo. Um senhor sério, desses que ri por dentro, que desaprova por dentro, que aplaude por dentro...um rosto de poucas emoções aparentes. Creio que ele nem desceria do carro se me visse desesperado. Só que eu estava perdido, mas esperançado, quero dizer, confiante. Ele desceu do carro e me mostrou, ao longe, dando como referência indefectíveis capões de mato ou talhões de cana, o caminho que eu deveria seguir até encontrar a vicinal asfaltada de 7Km, que me levaria a Miguelópolis. Em poucas palavras e gestos, ele transformou aquele amplo horizonte que não me dizia nada em um conhecido território amplo de referências significativas.
Canavial pleno, cana para todos os gostos. Estava atravessando terras de uma usina de cana, cuja sede e nome não descobri. Subindo e descendo por carreadores, homens e tratores e caminhões ao longe, terras nuas, terras recebendo canas, canas brotando, crescendo, canas jovens, canaviais formados aguardando a colheita e, ao final do ciclo, canavial recém colhido. Terreno ondulado, com baixadas e lombadas, mas a tendência geral era subir. Passei o córrego do Carmo, que me pareceu já represado naquela altura, eis que sua foz era no Rio Grande, agora inundado pelas águas represadas da barragem de Volta Grande e, no alto da colina seguinte - a parte mais alta da microrregião -, uma torre de vigia. Lembrei que meu informante lá atrás falara nela. No meio da estrada, que se alargava para recebê-la; de madeira, uns 10 metros de altura, um abrigo coberto lá em cima, porém não havia nenhum vigia à vista. Suponho que vigiam ao longe os princípios de incêndio, essa deve ser a função dessas torres. É fácil ver a fumaça ao longe... No pé da torre uma barraca mal ajambrada de placas de madeira e papelão, de onde saíram muitos cachorros em minha perseguição. Nunca fui tão duramente perseguido como daquela vez. Todos legítimos vira-latas - são inconfundíveis, porque mirrados, barulhentos e insistentes. E inconsistentes: basta parar que eles param. Só que eu não parei e eles não pararam... Ao contrário, aumentei a velocidade; é disso que eles gostam: pensam que estamos fugindo. Pensam que estão vencendo: e tomem-lhe entusiasmo. E escarcéu. E por mais de um quilômetro correram atrás de mim; sorte que a estrada era boa e em ligeiro declive. O menorzinho desistiu por último...
Vale registrar, nesse trecho, a passagem sobre os trilhos da estrada de ferro da antiga Paulista, em pleno funcionamento para transporte de carga, que cruza o Rio Grande logo adiante, entrando em Minas e indo até Brasília, creio. Uma ponte minúscula na estrada de terra passa sobre o fundo corte onde correm os trilhos, como se fora um córrego, trilhos brilhantes pelo intenso uso.
Em Miguelópolis, cidade de 20 mil habitantes, cheguei na hora do almoço. Terreno plano, bicicletas em profusão. Registre-se que em praticamente todas as cidades do meu roteiro havia muitas bicicletas. Numa banca de frutas, parei para pedir informações sobre local para almoçar. Antes que o senhor me informasse, seu filho, um garoto gordo de cerca de 10 anos, foi me dando toda a ficha de dois restaurantes, um aqui, outro acolá, este comida mais simples e temperada, aquele comida mais fina... é impressionante a acuidade das informações sobre hotéis e restaurantes que as pessoas locais dão aos viajantes. Sim, porque se um forasteiro me perguntar sobre locais para se hospedar em São Paulo, cidade onde moro, eu serei capaz apenas de informar por cima, mais ou menos, sem nenhuma precisão, pois nunca me hospedei em hotéis em minha própria cidade. E penso que numa cidade como aquela, ninguém deixa de comer em sua casa para comer no restaurante. No entanto, informam em detalhes precisos.
O plano de viagem previa atravessar o Rio Grande na ponte abaixo da barragem da Usina de Volta Grande e ir até Conceição das Alagoas, Minas Gerais, onde passaria a noite, retornando ao território paulista no dia seguinte, na altura dos municípios de Planura, MG, e Colômbia, SP. Eu poderia ir por asfalto ou pegar um atalho em terra de 15Km e sair na rodovia lá na frente, na direção do rio. Eu ainda não estava traumatizado pela terra em pó no leito das vicinais, fabricada pelos 34 pneus de cada carreta de cana, que não deixa a bicicleta em pé nem no plano. Esse trauma peguei no trecho entre Colômbia e Guaraci, em que iria passar dois dias depois. Por isso, optei pelo atalho. Tranquilo.
Já estava bem próximo do oeste paulista e a altitude já batia nos baixos 500 metros. Como se sabe, naquela região é calor o ano inteiro, às 2h da tarde o sol é muito forte tanto em janeiro quanto em julho. É coisa de rachar mamona, como diz o caipira. Parei na ponte para fotografar. Ponte antiga, sem acostamento ou passarela de pedestres. Avancei uns 100 metros e, nisso, veio uma carreta carregada. A ponte balança como se fora um elástico, que de fato é: o concreto protendido é sustentado por cabos de aço, que funcionam como elástico. Ponte enorme, coisa de 1000 metros, passar de bicicleta é uma aventura, porque se calha de duas carretas se cruzarem bem ao nosso lado, estaremos literalmente apertados...
A subida do lado mineiro acabou com meus sais. Sorte que, junto ao posto mineiro da receita estadual, havia uma banca de refrigerantes. Oficialmente era uma banca de caldo de cana, meu refrigerante-energético preferido. Mas quando cheguei perto, desisti. As condições higiênicas eram lamentáveis, pedi uma coca cola daquela bem açucarada...Não se pode comparar o caldo de cana com qualquer outro refrigerante industrializado: o caldo de cana tem sustança e é delicioso, apesar de não ter gás. Porque é o gás que dá aquele toque de sabor no refrigerante. E, se o gás não faz mal, bem também não faz. O caldo de cana vem com açúcar natural com zero de manipulação, além da água, filtrada direto pela planta, sem contar a infinidade de outros nutrientes que toda planta contém. Mas nada disso vale a pena quando o operador da moenda tem a cara e os modos daquele senhor que atendia naquela banca. Além de sujo, mal humorado: não sei se ele estava em guerra com os paulistas ou com os ciclistas.
Seguindo na rodovia, mais à frente há um trevo, em que, à direita, vamos para Uberaba, não muito longe dali; à esquerda vamos para Conceição das Alagoas e o fundão do Triângulo Mineiro. São 20 Km. Pouco depois há uma usina de cana de etanol. Antigamente era cana de açúcar, agora é cana de etanol: quase toda a cana é usada para fazer etanol. O açúcar move nossos músculos; o etanol move nossos motores, ou melhor, os motores de nossos automóveis. As melhores terras do país recebem os maiores investimentos e as melhores técnicas agrícolas para produzir etanol, alimento para nossos carros. A estrada sobe sem parar, lentamente, pouco inclinada, parece plana. Mas só um ciclista sabe que é subida, quase ininterrupta até a cidade, que está a 700 metros de altitude, 200 metros a mais que na margem do rio.
Conceição das Alagoas, porque a região possui muitas alagoas. Alagoa, do verbo alagar. Sendo que uma placa, com pretensões turísticas, nos informa que estamos na região dos lagos. Agora não sei se se trata dos lagos formados pelas águas do Rio Grande, por causa das barragens das usinas hidrelétricas, ou das alagoas – alagados naturais e quase sempre perenes, mas de pequenas proporções, que se formam nas depressões do terreno. É uma região de relevo bem ameno, quase plano, e rica em rios e nascentes. Isso faz com que não seja incomum pequenas bacias no terreno, como se fosse uma suave montanha invertida. Nesse pedaço, toda água produzida não tem saída, não tem escoadouro. Quando chove, a água fica empoçada. Cria-se uma umidade, que vira um brejo: uma umidade perene. O lençol freático sobe, um merejo aparece: pronto, temos uma alagoa. Ou lagoa. Para felicidade de traíras, jacarés, sucuris... e do fazendeiro. Porque uma lagoa valoriza a terra. Toda água valoriza a terra.
Em Conceição das Alagoas, MG, não há igreja na praça principal: única, dentre todas as cidades porque passei. Mas havia um parque de diversões noutra praça secundária. A praça da matriz sem igreja-matriz. Devo voltar a esse assunto. O parque de diversões foi o único que vi durante toda a viagem. Daquele com roda gigante, carro de trombada, trenzinho, barraca de argola, de espingarda de pressão. Quando passei ainda era cedo, tinha pouca gente. O atendente da barraca das espingardas me convidou a atirar. O projétil é uma rolha, que deve acertar e derrubar a barra de chocolate, o pacote de biscoito e mais o que estiver na prateleira, à frente. Derrubou, é seu. Examinei rapidamente os alvos a serem conquistados e percebi que se eu acertasse todos os tiros, ainda assim o banqueiro teria lucro. Então, para justificar minha não participação, informei ao rapaz que não ia atirar não, porque não queria dar prejuízo a ele. Não sei se ele ficou feliz em se livrar de um exímio atirador – e logo pensei num comercial de TV em que uma equipe de lutadores de sumô entra num restaurante desses em que se come à vontade por preço fixo, sob o sorriso amarelo do dono. Mas eu, que nunca dei um tiro com arma de fogo, gostei de desempenhar o papel de exímio atirador perante o moço da barraca, que deve ter ficado lá pensando naquele senhor que nunca viu, jeitão esquisito, barbudo, talvez um pistoleiro de aluguel...ou até mesmo um coronel do exército caído em desgraça...: um parque de diversões transforma qualquer velho em criança, uma criança que via bang-bang e sonhava com profissões aventureiras, como chofer de caminhão...
Chauffeur de caminhão. Do tempo em que éramos colônia escancarada. Veja esse parquinho: os brinquedos todos foram desenhados por um estrangeiro; talvez os próprios brinquedos tenham vindo no porão de algum navio, para fazer lastro. Os bichos do gira-gira são todos africanos; os carros do outro gira-gira são da Ford, da Chevrolet, fabricados nos anos 1950 na América do Norte; o barco viking é coisa de gente que mexe com neve. Não sei porque, sempre associei parque de diversões a marinheiros. Talvez porque os marinheiros sejam pessoas que não têm parada e com quem só podemos fazer amizade superficial. Ou porque foi um marinheiro que vendeu essa tranqueira ao nosso compatriota, que saiu pelo interior do país como papagaio, a iludir e a divertir nossas crianças. Nada tão grave se comparado aos satélites e chips e softwares e aplicativos que atualmente imobilizam nosso corpo e colonizam nosso tempo e nosso bolso. Será que essa minha mania de andar e pedalar é um protesto contra mim mesmo?
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