QUARTO DIA: CONCEIÇÃO DAS ALAGOAS – COLÔMBIA
Colômbia, município de 6 mil habitantes no extremo norte do Estado de São Paulo, barrancas do Rio Grande. Do outro lado do rio, apenas uma ponte de uns 1000 metros separa o município de Planura, MG. Pouco acima está a barragem da Usina Hidrelétrica, onde as águas represadas de outra barragem a jusante, da Hidrelétrica de Marimbondo, vêm bater. O Rio Grande, no trecho que ora visito, aquele que divide os estados de SP e MG, tem cerca de 700 Km. Destes, menos de 100 Km são de água corrente – rio de verdade, somado todos os trechos entre os lagos – o resto é água parada: 8 barragens, todas para acumular água para gerar energia elétrica. Se o rio mantivesse sempre o mesmo volume de água corrente, não haveria necessidade da represa. Porém o volume de água baixa muito durante os meses secos do ano – de maio a setembro. Então a água acumulada nos lagos normaliza o fluxo e as turbinas todas continuam funcionando. Atualmente o rio está cheio, fruto do ano chuvoso que tivemos. Ano passado a situação era bem outra, com o volume dos lagos lá embaixo, durante minha caminhada rumo à nascente.
A dona do Hotel Miragem, em Conceição das Alagoas, é paulista de Guaíra. Sendo que o prédio e a placa indicativa estão bem concretados e visíveis numa ruela não muito distante da entrada da cidade. Paulista, mas tinha pão de queijo no café... De ambos os lados do rio a nação é a mesma: muita fritura, bolinho, quiabo, frango de panela, peixe frito, carne de panela, carne suína, abobrinha picada fininho, couve, arroz e feijão obrigatórios, e uma polenta que às vezes vira angu ou canjiquinha; e uma pinguinha pra abrir o apetite... E todos falam uai! e sô! e bão! e tudo é trem! (Uai sô! Que trem bão é esse?) E o queijo e seus derivados são unanimidade em ambas as margens do rio. E todos olham por baixo, desconfiados. E todos chegam muito antes da hora. E todos são simples. E todos são sistemáticos. Sistemático é um adjetivo caipira, que quer dizer simples e complicado ao mesmo tempo. E poucos sabem nadar bem, quase todo mundo tem medo de água. O fato é que ali é a terra que envolve e sufoca a água, e não o contrário. O certo é que os cidadãos da nação de beira-rio, o povo nascido e criado nas terras de ambos os lados do Rio Grande, são mineiros e paulistas ao mesmo tempo, para o bem e para o mal. E eu, mais uma vez, fui bem tratado, porque eles me aceitavam como um igual, como de fato sou mesmo, apesar da minha bicicleta e da minha barba.
É fato, os homens daquela região não usam barba. Barba é coisa de gente desleixada. Entretanto, respeitam quem usa. Porque gostariam de usar, só não usam por causa da sansão social. O caipira da Nação do Rio Grande é um cidadão muito bem comportado, quase reacionário. Porém, precisamos tomar cuidado com essa afirmação. Tal cidadão é essencialmente pragmático-materialista. Ele se comporta bem por conveniência, pesando a relação custo/benefício. No fundo, no fundo, sua alma não se conforma...
Eu tinha 50 Km de rodovia sem acostamento até Planura. Depois, atravessaria a ponte e almoçaria e, talvez, pernoitaria em terras paulistas novamente, no município de Colômbia. Saí cedo e, ao contrário do dia anterior, para chegar, agora era quase tudo plano, levemente descendente até o rio. Em Colômbia eram 12h30 e eu já havia almoçado. Muito cedo para parar para quem está viajando de bicicleta. Viajar de bicicleta é mais desgastante, fisicamente, do que viajar a pé. O andarilho mantém o coração funcionando em ritmo moderado a maior parte do tempo. Apenas em grandes aclives os batimentos cardíacos sobem próximo ao máximo. Ao contrário, pedalando, o aparelho circulatório trabalha próximo ao limite superior a maior parte do tempo, especialmente quando se pedala em estradas asfaltadas. É que as rodovias em geral são constituídas de subidas e descidas com distâncias parecidas. Na descida a bicicleta vai muito rápido e o ciclista não faz esforço nenhum. Mas ela acaba logo e, na subida, a pedalada é sempre exigente e frustrante, por causa da baixa velocidade – ainda mais se comparada à “banguela” da descida anterior. Resultado: passamos a maior parte do tempo com o coração lá em cima, pedalando na subida e, desanimados. Nas estradas de terra, não desenvolvemos grande velocidade nem nas descidas. Então, o ritmo é mais uniforme.
Próximo a Planura - creio que esse nome decorre da região muito plana que a envolve - há um encontro de rodovias, que saem em três direções: uma nos leva a Uberaba, Belo Horizonte; outra vai para o extremo oeste do triângulo mineiro; e aquela que eu ia seguir atravessa o rio e vai para São Paulo. Eu acabava de vencer um longo trecho de estrada rápida e sem graça e o tempo seco me dava sede: uma sede mais psicológica que física, já que eu vinha tomando água regularmente. Daí que não resisti à placa enorme que tomava toda a fachada do boteco simples, dizendo "sucos". Percebi a exploração desse nicho comercial em várias outras cidades do caminho. Barracas de suco na beira da estrada. Anunciam sucos de várias frutas, mas creio que só fazem, de verdade, suco de laranja. Eu nunca arrisco a pedir coisa diferente. E o suco de laranja é farto e barato: pedimos um copo e mandam uma jarra. Tentam, desesperadamente, concorrer com a cocacola. Comigo, sempre ganham: o mundo ali tem três tesouros do prazer de beber para matar a sede e repor os sais: suco de laranja, caldo de cana e água de coco. Mas a cocacola e as tubaínas continuam ganhando de lavada...
E às 12h30, em Colômbia, eu tinha muito chão pela frente. Chão de verdade, terra. Estradas de terra. 80 Km de estradas vicinais, dessas que formam uma malha viária sem nenhuma lógica, ao sabor dos sítios e fazendas e brejos intransponíveis, que obrigam desvios enormes e se cruzam e se bifurcam e se confundem com carreadores de canaviais e laranjais e acessos particulares; e nenhuma placa, já que quem passa ali são sempre as mesmas pessoas que moram ou trabalham por perto. E eu tinha ainda gás pra queimar. Foi uma sábia decisão continuar a viagem, porque aqueles 80 Km até Guaraci previstos para o dia seguinte eu não conseguiria concluir de uma tacada só – descobri no outro dia. Então resolvi ir pedalando até onde desse, já sabendo que teria de dormir na estrada, acampado. Era pra isso que eu trazia, na garupa, num rolo só, abaixo da mochila, minha barraquinha autoportante e meu leve saco de dormir enrolados pelo isolante térmico.
Logo na saída, comecei a ver um cemitério de automóveis ao longo da estrada de terra, ao ponto de impedir o trânsito no leito propriamente dito, obrigando os veículos a desvio na lateral do canavial ao lado. Em seguida vi um barraco de lona preta e outro, e depois outro e eu estava no meio de um acampamento de sem terras. Sem nenhum aviso, nenhuma bandeira, nenhuma identificação. Alguns homens e mulheres e crianças em seus barracos, vários almoçando, mulheres lavando panelas do almoço. Um ou outro cavalo amarrado pastando, vários cercados com porcos, muitas galinhas e frangos e pintinhos zanzando livres e várias pequenas hortas ou canteiros isolados, onde predominavam alface, couve, rúcula, pimenta e as úteis e constantes cebolinhas verdes, além de alguma salsa e, menos frequente, algumas ervas de cheiro ou medicinais. Entremeados aos barracos, alguns carros, todos muito velhos, alguns definitivamente imóveis, sugerindo que algumas pessoas ali se dedicavam ao comércio de sucata. De vez em quando escutava-se um martelo em atividade, a consertar ou construir algum barraco novo. Eram 319 famílias cadastradas, me informou um senhor idoso, lá para o final da fila de casas provisórias. Ele estava acampado ali há 10 anos, aguardando um pedaço de terra. E conhecia gente que estava acampado há 15 anos. E, olhando em volta, a vista se perdia em canaviais nos quatro cantos, tudo de um único dono, cultivado com enormes e caríssimas máquinas, que empregam muito pouca gente e só produz alimento para motor de carro.
A visão ligeira ou superficial ou preconceituosa de quem passa apressado por um acampamento dessa natureza pode concluir que é um povo infeliz e, no mínimo, sem futuro. De fato, a situação deles é precária. Mas, a julgar pelas brilhantes soluções arquitetônicas de alguns barracos, ali há muita criatividade e entusiasmo. E se seus confrades moradores das casas de alvenaria das fazendas ou nas pontas de rua das cidades se sentem mais seguros nas noites de ventania ou chuva forte, com certeza esses moradores dos barracos se sentem mais cidadãos que aqueles, nas demais horas da vida. A vida comunitária dos acampados é muito mais rica do que a de quem permanece isolado, gastando todo seu tempo num trabalho pesado, entediante e mal remunerado e sem futuro. O acampado participa de discussões e ajuda a construir soluções coletivas e se sente responsável por elas. O isolado vive debaixo de ordens, sofrendo manipulações de toda espécie, como as econômicas, políticas, religiosas. O isolado é presa fácil de espertalhões enquanto o acampado é protegido pela grande família de vizinhos todos iguais e muito próximos. Um acampamento como aquele pode eleger até mais de um vereador para a câmara do pequeno município. Eles acabam se entranhando na máquina burocrática local. As crianças recebem cuidados mais bem planejados dos órgãos de saúde e educação. Escolas recebem acréscimos curriculares de interesse local. O cidadão formado ali naquele ambiente será um osso duro de roer, para os fazendeiros da redondeza, boa parte deles ainda protoescravista, fortemente preconceituosos contra “preto, pobre, mulher, viado e baiano”. Esses fazendeiros não querem saber de conversa: “quem conversa perde a razão...”. Discussões coletivas, negociações, nem pensar.
O companheiro que conhecia toda a região e poderia me ensinar o caminho estava lá na saída do acampamento, me informou o velho. De fato, o companheiro conhecia e era sábio, porque apenas me disse que logo ali na frente havia um povoado, chamado Laranjeiras, e que dava pra ir até Guaraci sim, era só ir perguntando. Eu, em seu lugar, após descobrir o que descobri no dia seguinte, teria desencorajado o viajante: “rapaz, é muito difícil, você vai se perder, é melhor ir pelo asfalto...”. Nessa altura ainda havia pela frente o intrincado cipoal de 80 Km de vicinais e as centenas de dúvidas em outros tantos entroncamentos. Mas a primeira metade desse caminho era mais fácil e eu a venci nesse dia, até o sol se pôr e eu armar a barraca ao lado de um capão de mato. Não sem antes chupar dez laranjas numa tacada só, ali pelas 4 horas da tarde, num pomar protegido por cerca viva espinhenta. A cerca deu uma brecha, eu entrei. Coisa rara é brecha naquelas cercas... Pomar em ponto de colheita, um despropósito... No carreador havia um gramado roçado, semelhante ao gramado do Itaquerão corintiano. Com a minha perspicácia de conhecedor profundo, selecionei as melhores frutas e, sobre o gramado caprichado, com minha faquinha, fiz a festa. E o café da tarde. Coisa difícil é colher uma laranja ali na região. Todos os pomares são vedados por caprichadas cercas vivas de espinhos. Pomares da Cutrale, descobri o posto da empresa no dia seguinte, passei em frente, após o bairro do Brejinho.
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